Segunda-feira, Julho 04, 2011

Interligação

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Ética é o nome geralmente dado ao ramo da filosofia dedicado aos assuntos morais. A palavra "ética" é derivada do grego ἠθικός, e significa aquilo que pertence ao ἦθος, ao carácter.



Definir regras que orientem a sociedade e o Homem tem sido uma preocupação desde há séculos. Se seguirmos essas regras poderemos mais facilmente praticar o Bem.



Bem (do latim bene) é a qualidade de excelência ética que leva a uma melhor compreensão do amor, da irmandade, da humildade e da sabedoria.



Imaginemos que conduzimos um carro, as regras de trânsito são a moral e a ética. Sabemos que existe uma hierarquia de regras, há umas mais importantes que outras. Não ligar o pisca, quando estamos a passar numa rotunda vazia sem outros carros, não nos parece particularmente grave. Não parar num sinal vermelho, ou perante um sinal de Stop tem outro sentido, bem mais gravoso.

Provavelmente se estivermos no campo, ou num território mais desocupado poderemos ter mais liberdades do que habitualmente seria permitido. Aceleramos de forma mais descontrolada, mudamos alternadamente de faixa e sobretudo baixamos o sentido de alerta ao conduzir, sentimos-nos mais descontraídos, menos tensos. Apesar de tudo podem continuar a existir acidentes.

As regras existem para nos proteger, no nosso dia-a-dia, constatamos que frequentas vezes infringimos algumas regras, por experiência muitas delas parecem-nos pouco importantes. Passar com o sinal amarelo, não fazer pisca quando se pretende estacionar à direita, ultrapassar os limites de velocidade por pouco...

Quem é condutor há anos sabe que tem sempre alguns pecadilhos no currículo.

Criam regras de moral e dizem-nos que não podemos mentir, ou pelo menos não dizer grandes falsidades. Quem habite no mundo real, sabe que é complicadíssimo nunca dizer nenhuma mentira, muitas vezes dizer a verdade crua e nua é que provoca acidentes. A própria sociedade prefere viver anestesiada com aldrabices açucaradas, os dramas horríveis mesmo que honestos deprimem muita gente.

Se algum condutor pisar o traço continuo, porque se encostou muito à direita e fazendo-o de modo acidental se for descoberto pela policia de trânsito, pode ser autuado e terá uma penalização.

Se um homem está no vestiário do ginásio a espreitar a mulher do melhor amigo a vestir-se e está a fazê-lo porque surgiu uma circunstância fortuita. Se for descoberto, e o amigo ficar furioso por achar que houve uma falta de consideração por ele, deverá ele lamentar os seus instintos sexuais que o levaram a este infortúnio? Se fosse outra pessoa a ser espiada seria melhor?

O problema das leis! Sendo demasiado genéricas podem não ser práticas, demasiado especificas podem só funcionar para poucos casos não tendo capacidade de adaptação. O mundo está cheio de zonas cinzentas, com curvas e contra-curvas, raciocínios simplistas lineares só no jardim de infância.

O que faz um bom condutor? Cumprir escrupulosamente todas as regras de trânsito sem qualquer falha? Mesmo um condutor que seja assertivo e cumpridor não está isento de ter vários acidentes. Outros condutores podem ser os causadores do infortúnio e os factores variáveis.

Depois há que ter em conta, o grau de dificuldade, um taxista tendo em vista o número de horas que conduz e os trajectos que faz não terá mais facilidades a cometer erros que um condutor de fim de semana que anda poucas vezes? Curiosamente e paradoxalmente existem duas respostas. O taxista tem mais possibilidades de errar, porque conduz mais vezes no entanto tem mais experiência e isso é um factor de minimização. O condutor de fim-de-semana anda menos horas na estrada , reduz as possibilidades de risco, mas tem menos experiência e isso pode-lhe ser fatal.

Um trabalhador de um supermercado local que mora num bairro social, conhece várias pessoas que são delinquentes e amigos do alheio, sentir-se-á mais tentado a entrar na vida do crime? Um Frade Dominicano que recentemente saiu da reclusão e está inserido nesse bairro social e dá apoio social certamente será mais resistente moralmente?

Quando ele estava no mosteiro, tinha certamente menos possibilidades de cometer falhas morais, estava limitado a um espaço e havia menos margem de manobra da falhar. Se vai fazer o trabalho de assistência social para o bairro e já tem alguma idade, possui outra segurança por já ter alguma maturidade de carácter e experiência. Tal não é possível actualmente, mas se acontecesse ele ser frade aos dezassete anos, com essa idade poderia ainda não ter ainda a maturidade desejável. Naquele bairro, poderia cometer alguns erros, como todos os homens cometem. Trair os votos de castidade, começar a ajudar traficantes, acabar por envolver-se com eles, fugir, ser perseguido pela polícia.
Mesmo imaginando que o frade seria mais velho, os filmes de Hollywood ensinaram-nos que a linha mais torta cruza sempre as cataratas do Niagára no deserto do Sahara em noites de lua cheia.



Quarta-feira, Novembro 24, 2010

Confidente



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O Aluísio Neves surpreendia-me, estava sempre a recriminar-se e a minimizar-se num exercício de humildade extrema prestes a roçar o masoquismo. Quase que pedia desculpa por existir, era estranho aquele complexo de inferioridade e a forma como ele o ostentava. Aquele olhar suplicante exibia sofrimento, agora aos quarenta e seis anos, de cabelos brancos é que ele temia a vida? Tudo lhe parecia passar ao lado, mesmo assim ainda arranjou forças para terminar o 12º ano, uma medalha que gostava de mostrar com algum orgulho. Agastado de anos de trabalhos medíocres com profissões sem futuro, tentava projectar uma escapatória. O desemprego pode ser aparente, pois num passo atrás ás vezes ganha-se mais balanço para um bom salto para a frente. Que ele estava cercado, percebi eu desde a primeira hora, a semente do derrotismo estava bem entranhada, era tirarem-lhe o que restava de esperança e ele estrebucharia num queda inevitável.

Não devia ser tão servil, as pessoas assim são tentadas a abusar dele. Eu sentia que ele perdia-se com as palavras, falava que amanhã estudaria mais, mas no fim nem ele acreditava nisso. Adiava muitas resoluções para depois, próximo da decisão voltar a adiá-las novamente. Acima de tudo gostava de problemas vagos, questões redondas, estratosferas de pensamento, custava-lhe muito o sacrifício resultante do esforço, antevia desilusões com os inevitáveis erros e a partir de uma certa idade as pessoas só querem conforto.

Quando referia os sobrinhos, destacava-se a alegria, mas abrandava ao relembrar que era solteiro sem prole. Estava a ficar sem tempo e o currículo dele era miserável segundo os padrões da média.

A Mariana era uma senhora autoritária por vezes até conseguia dissimulá-lo quando era mais informal a conversar. Mesmo assim era frequente explodir a meio de alguma troca de palavras com uma entoação mais agressiva, acabava por ser imprevisível na forma como comunicava. Era extremamente impaciente e detestava esperar, podendo ficar exasperada muito facilmente se algo não corresse ao ritmo desejado. Ela não apreciava muito que olhassem directamente para os olhos dela e sentia necessidade frequente de marcar o terreno, acima de tudo ninguém ficava muito aconchegado perto dela.
Fora mãe muito tarde e a filha estava sempre perto dela, frequentemente exagerava na forma como manipulava o "telecomando", agora que era viúva resguardava-se muito para a filha que era tudo para ela.

Quando soube que iam casar fiquei estupefacto, a combinação entre eles não era mesmo nada evidente. Antevi sobretudo o inferno para o pobre Aluísio, estava no entanto errado nas minhas previsões. A viúva negra não devorou o infortunado miserabilista, a vitima evidente escapuliu-se e até pareceu ter inchado. Não o esperava nessa nova posição mas o facto é que ele detinha algum domínio sobre ela. Fisicamente tinha aquele ar de magricela descuidado e sendo de estatura média não era muito intimidante. Ela tinha aquelas rugas enormes na face que lhe davam um ar bem pesadão e até era alta para uma mulher. Ainda duvidei, mas ele mandava, não pedia desculpa ao fazê-lo, reflecti, decididamente fizera um retrato psicológico dele muito precipitado.

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Quinta-feira, Novembro 04, 2010

Dia perfeito





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A ignorância pode mesmo ser uma bênção, pois existem factos que crus não se limitam a ser desgostosos, são mesmo horrorosos.

João Rebalo provavelmente ao chegar ao fim do dia, achará que este foi corriqueiro e usual sem que tivesse acontecido algum acontecimento por aí além. Seja distracção ou ingenuidade, muita coisa aconteceu e não se pode dizer que tenha sido "cousa" bonita.

Depois de tomar o pequeno almoço e ter ficado a trabalhar ainda um bom bocado em casa, ele resolve ir tomar um café e sai à rua. O empregado que está ao balcão está furioso, é já a terceira semana que não tem folga, sabe que se barafustar com patrão vai para o olho da rua. Só lhe resta aguentar a frustração, tem contas para pagar e uma familia para sustentar, para restabelecer o equilíbrio resolve vingar-se de forma traiçoeira e encoberta nos clientes. Encheu uma pequena garrafa de plástico com urina que está por baixo do balcão, sempre que alguém pede um café, pega na chávena e coloca uma pequena quantidade de saboroso "mijo" na mistura. A mistela fica bem dissimulada, não se nota nada e se calhar até sabe melhor, pelo menos o empregado fica sorridente o resto do dia com a sua brincadeira. Mesmo castigado a trabalhar, riposta contra as contrariedades, pode ser escravo do seu destino, mas na calada subverte a ordem na maior das impunidades.

Escusado será dizer que o João entrou na brincadeira e lá provou deliciado a bela "prendinha", para cúmulo e como precisava de mais cafeína para ficar mais activo, pediu um segundo café, repetindo o fabuloso pitéu.

Torna-se necessário ir ao supermercado, comprar alguns mantimentos, depois de fazer as suas escolhas, coloca-se na fila para a caixa. A operadora de caixa que o atende é meticulosa, com uma capacidade incrível de raciocínio para fazer contas. Quando o vê, esboça um sorriso aberto, ele corresponde satisfeito, ela já o conhece bem , é o pateta distraído, vitima perfeita para uma pequena rapinagem. Para azar dele, não tem dinheiro trocado e paga com uma nota de 25 euros, sendo que também não lhe ocorreu pagar com multibanco.

Na entrega do troco, a operadora subtrai 2 euros, um dos seus maiores roubos, habitualmente o João raramente confirma o dinheiro do troco, mas o facto de ter recebido muitas moedas e existiram clientes atrás da fila não ajuda muito o processo. A operadora está bem contente, bateu mais um recorde, apareçam mais trouxas como aquele e ela brevemente irá encher a caixa com o dinheiro para as férias.


Na saída do supermercado está uma família de pedintes ciganos romenos, estão sentados no chão, a mãe, pai e a filha, lá imploram pela esmolinha, de nada lhes serve o João contorna-os e segue em frente. No entanto a miudinha que estava mesmo encostada na porta aproveita e desforra-se, os que não contribuem levam um bocado de pastilha elástica presa nas calças. Faz o processo com tal destreza que nunca ninguém nota, numa sincronia perfeita, quando a vitima está de costas, ataca. Os pais ajudam-na, pois costumam meter-se no meio do caminho e interpelar de forma agressiva os transeuntes, o que obriga a que eles tenham que abrandar e parar por algum tempo.

No caminho para a casa encontra um conhecido que é seu vizinho, trocam algumas impressões e seguem caminho. O conhecido é um perverso, adora ser falso e dissimulado, enquanto conversam tem uma das mão no bolso, mal imagina o João que através dessa mão, ele está a mandá-lo para um certo sitio. Mesmo depois de virarem costas, num movimento rápido com mão, ele faz o gesto onde com os dedos simula uns belos "cornos" e de forma ultrajante consegue movimentar-se rapidamente levantando o braço e pairar a mão por cima da cabeça dele.

Todo satisfeito com esta vitória, o perverso segue o seu caminho animado pelos seus pensamentos. " Cabrão deste fodas! Parto a cuca toda com jabardos panilas destes! Gosto de gozar com a fuça deles e espetar-lhes a merda mesmo nos olhos. Ahh! Ahh!!"

De regresso a casa, na mais tranquila ignorância, prepara-se para regressar a casa e trabalhar, quando o telefone fixo toca. É a Madalena, irmã dele, trocam os típicos salamaleques, ela tenta resguardar-se e não revelar as suas reais intenções. Precisa de alguém para a ajudar a pintar a casa de férias, assegura-lhe que outras pessoas também vão prestar o seu auxilio. O generoso João compromete-se então numa determinada data, a ir ajudar, longe de imaginar a tramóia que está a ser engendrada. Na verdade não vai aparecer ninguém, ela própria arranjará uma desculpa estratégica na hora certa que a vai catapultar para outro local e o azar é dele que vai ter que arcar com a obra toda, logo ele que detesta pintar.

Por enquanto não se antevê a tempestade, mas ela chegará, nem a família o salva dos infortúnios.

Sentado na secretária, tem que ler vários relatórios, está relativamente descontraído e não parece estar a encontrar nenhuma falha em particular. A memória descritiva que ele irá escrever não deve ser muito diferente das habituais que costuma fazer, poderá inclusive usar um modelo pré-formatado para facilitar o trabalho. Boa notícia, aparentemente; quando daqui a um mês o chefe de secção regressar das férias no Brasil e perceber que existem diversos erros que não foram assinalados na memória descritiva, a porca vai torcer o rabo. João Rebalo vai amaldiçoar aquele dia em que estava literalmente nas nuvens, que lhe custou uma punição exemplar e provavelmente o fim da possibilidade de ascender na carreira.

Já há algum tempo que expirou o período para ser paga a conta da electricidade, mas hoje era precisamente o último dia do intervalo de tempo que ainda havia a possibilidade de esta ser paga. Tendo em conta que se avizinha um fim de semana prolongado com "pontes" e greves à mistura, quando acordar amanhã e sentir a falta da electricidade, não será esse o maior aborrecimento com que terá que lidar. Pior será tentar regularizar a situação, tendo em conta que os serviços não estarão a funcionar muito bem.


No fim do dia, João Rebalo vai achar que o dia que passou, foi um entre muitos e as coisas até correram bem. Pacifico sem problemas, sem grandes esforços, todos os dias fossem assim.... sem confusões, conflitos, traições, embustes...
Por vezes são necessários estes dias de uma calma perfeita sem grandes ondas para nos podermos reequilibrar. Agora na cama, ele vai dormir o seu sono merecido e amanhã depois de um bom repouso, um novo dia poderá começar.

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Quarta-feira, Novembro 03, 2010

Pensamentos encobertos



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Chamo-me Cecília Carmo, mas todos me tratam por Sissi, pelo menos os que me conhecem melhor. Aparento ter um ar frágil e contido, o meu comportamento é previsível e ninguém espera de mim loucuras. Todos esperam que seja o que pareço, de facto não sou de modo algum uma pessoa ruim, simplesmente acho que por vezes percorrem-me alguns pensamentos perversos bem soturnos. Para lá da percepção, sinto que por vezes não consigo conter, controlar determinado tipo de ideias que preferiria enterrar.

Acaba por ser estranho mas esses devaneios ocorrem nos momentos mais inconvenientes que se possa imaginar numa continua tensão e todas as tentativas de auto-controle fracassam, incólumes os pensamentos prosseguem a sua trajectória.

Recentemente estive num casamento, era a minha prima Vanda que ia casar. Durante a festa da cerimónia, o típico copo de água, ocorreram na minha mente um vendável de pensamentos maledicentes que nunca consegui controlar, quase pensei que ia fazer algum disparate. Foi um momento deveras embaraçoso.

Falava com algumas pessoas que conhecia vagamente, familiares que voltava a rever, por trás do meu ar cândido, malfeitorias sem igual circulavam na minha mente.

A minha tia Crisalda trocava impressões comigo o que ela observava era uma miúda atarracada e tímida, sempre embaraçada com as palavras. Enquanto converso, apenas vejo o ar nojento de badocha dela, qual porca sem compostura, coberta de vómitos, fede como uma doninha fedorenta.

Tento com esforço e da forma mais delicada que consigo desviar o olhar, como se temesse entrar em transe e transformar-me noutra pessoa.

A Lisabela a melhor amiga da minha prima, faz as perguntas triviais, temos um conhecimento residual mútuo. Está vestida de forma bem espampanante, não tem qualquer vergonha de exibir o corpo. Aos meus olhos, vejo uma prostituta vadia que tresanda a facilidade, é um cobra espigada, já imagino o bordel nauseabundo em que ela se move, naquele antro ela e as outras osgas sugam muitos palermas em troca do vil metal.

Ela ainda pergunta se tenho algum problema, fiquei um bocado engasgada, os meus pensamentos contorcem-me, sinto-me constrangida e até com algum complexo de culpa.

Aparece a família Esteves: pai, mãe, filho, com diplomacia fazem as típicas perguntas triviais. Mantêm uma pose altiva, no limite do moderado, misturada com alguma simpatia fabricada mas sem qualquer falha a ser apontada. Para lá da fronteira, sem eu querer, aparece uma hipocrisia dissimulada que pode ser venenosa, a maquilhagem sai e nota-se uma crosta, são repteis carnívoros que na calada da noite, decepam as presas que descansam no seu sono. Na cave guardam os troféus dos ingénuos que roubam.

Sentada na mesa, com a minha família, em esforço concentro-me na refeição e tento por tudo esquece-los, quero sacudir estas ideias, tenho medo que o enxofre me tolde a visão.

A Vanda e o marido vêm fazer a ronda habitual pelas mesas, de sorrisos bem marcados, perguntam pelo bem-estar dos convidados. Sei que ela tenta conter o habitual exibicionismo, mas está no sangue dela, explodir em alegria, ofendendo os invejosos que se sentem em desvantagem. Há muito que não acredito na ingenuidade das suas intenções, muita gente sente-se grande vendo os outros pequenos, precisam inclusive de usar bengalas.
O que ela gostava era de começar a atirar as tartes e o bolo de noiva à cara das solteironas e dançar em êxtase a dança tribal da glória. Em criança ela já fez isso de outras formas, pode-se sempre dizer que as pessoas melhoram com a idade, existem infelizmente muitas formas de encobrir a rachadura. O pequeno pormenor esconde um impulso que se transforme em espasmo, ela empurra-nos, pisa-nos, cospe-nos e no fim faz-nos chafurdar na lama, com as unhas afiados rasga a carne em tortura continua até admitirmos que ela é a maior, melhor.

Quase que tremia no que pensava, queria esconder-me, fugir. Sentia-me que estava completamente fora de controle, fui abrigar-me na casa de banho tentando fugir desta furacão masoquista. Sentia que mal começava a olhar para alguém, avistava qualquer defeito, que subitamente alastrava e ficava um gigantesco buraco negro, estava a ultrapassar todos os limites aceitáveis.

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Sexta-feira, Março 19, 2010

Máfia Berlenguense

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O bairro de Escópia que fica a sul de Entropia no Município da Berlenga Central é muito curioso. Fala-se que é um autêntico reino onde a máfia Berlenguense vive, os habitantes desse bairro são muito fechados e temos sempre muitas dúvidas em perceber quais são as suas verdadeiras intenções. As ruas são estreitas quase medievais e sentimos que quando entramos naquele espaço, toda a vizinhança começa a mirar-nos. Raramente se avista alguém isolado, estão sempre acompanhados, em todo o caso nota-se que nunca estão tranquilos, é frequente estarem sobre alerta e não fixarem a visão num único ponto. Quando se entra no Café central, a maioria das mesas estão sempre ocupadas por vários grupos.

Quando dirigo a palavra ao dono do Café tenho que medir bem as palavras e ser objectivo, não posso dar a entender segundas intenções por mais inocentes que as minhas palavras sejam.

-Boa Tarde! Era um café.

-Um descafeinado, garoto, galão, capuccino...

-Apenas um café curto.... simples!

-Quer com açúcar?

-Não!

-Ok. Pode ir sentar-se que já vou servi-lo.

Esta linguagem cifrada "escopiana" pode confundir muita gente. Se um desconhecido entrar neste café e olhar com atenção para a máquina de café perceberia que se tratava de um modelo básico e aqueles tipos de café sugeridos não estão disponíveis. Um descafeinado é quando queremos contratar alguém para dar uma tareia, um garoto é para pedir serviços de pedofilia, um galão serviços de prostituição de luxo, um cappucino compra de droga.

Ao ter pedido um café curto e grosso, significa que vou esperar por alguém, como recusei o açúcar significa que não sou criminoso.

Quando me vem servir à mesa a empregada quando recebe o dinheiro, guarda também a folha de papel que lhe dou. Lá está escrito o nome da pessoa que procuro. O dono do café conversa de forma muito intima com um individuo bastante alto. Passado um bocado vem sentar-se na mesma mesa onde estou, de forma educada põe conversa e começa a perguntar-me porque fui fazer uma visita a este bairro. Tal como há uma semana atrás, repito a mesma história, sou jornalista e precisava de fazer uma entrevista a um senhor idoso que teve problemas na segurança social.

Se eu fosse um jornalista interessado em fazer uma reportagem sobre este bairro a esta hora já estava mas era morto numa qualquer viela. Em linguagem cifrada, falar com um senhor idoso é ir falar com alguém ligado à direcção da família, segurança-social é prestar um serviço de auxilio de assistência consentido.

Da outra vez não apareceu ninguém e fiquei a ver navios, deviam desconfiar que alguém da polícia estava perto. As figuras seniores da família são perseguidos há vários anos e estão sempre incógnitos. Sinto várias movimentações dos grupos, nota-se que conversam palavras de circunstância e os olhares estão todos centrados em mim. Subitamente calam-se todos, entrou no estabelecimento um senhor com o cabelo encaracolado e gabardina. O dono do Café ausenta-se imediatamente e quem o atende é o empregado, um jovem. Quando é este moço que está ao balcão, não existem palavras cifradas e realmente isto passa a ser um Café a sério, onde não existem segundas intenções. O senhor de cabelo encaracolado deve ser um policia ou pelo menos uma figura suspeita.

Espero meia-hora como combinado e depois vou-me embora. Sei que vou ser inevitavelmente seguido até casa, o trabalho é competente se estivesse mais distraído nem notaria nada. Ao deitar-me na cama mais tarde, recordo-me como tive receio que alguém da polícia me obrigasse a parar o carro quando regressava para casa.

Poderia cometer alguma infracção de trânsito ou existir alguma operação Stop na estrada. Não se pode brincar com esta gente, são desconfiados e qualquer coincidência pode ser interpretada como conspiração. Ainda esta semana receberei as instruções do que fazer, para azar só mesmo a Judiciária andar a observar-me, realmente só me faltava mais isso.

Na segunda-feira estava na redacção do jornal como habitualmente, quando fui à casa de banho tive uma surpresa. Estava a urinar para a sanita quando ouço duas pancadas na porta do cubículo onde estava, apenas usei algumas palavras para dizer que o espaço estava ocupado. Surpreendentemente uma voz roca diz: " Café a sério é com chocolate e com um bom brandy" Conclui após um pausa. "Quarta, 19 horas".

Que trabalho amador! Obviamente eram "Judites" e os sacanas estavam a lançar-me uma armadilha. Café com chocolate é para ter uma conversa com a elite da família, brandy significa que será para falar com o filho do big boss , o "periquito", há muitos anos procurado pelas autoridades.

Topei a jogada porque em linguagem cifrada "escopiana" nunca se diz o dia da semana, se era quarta feira, refere-se apenas quatro. Isto é um perigo, significa que os "Judites" estão a par da linguagem de 1º nível!

Quando chegou a quarta-feira tremia como varas verdes, tinha arquitectado um plano mas estava receoso de falhar. Conheço muito mal a linguagem de 2º nível e isso pode ter consequências.

Quando estava a entrar no bairro, pedi lume a um dos habitantes, logo eu que nem fumo. Desejava apenas chamar a atenção, como quem não quer a coisa abaixei-me e fingi que ia atar os atacadores, o objectivo era ele ver as minhas meias brancas. Esperei que ele fosse dizer algo, reagiu quase imediatamente.

-Meia branca está em desuso...

-Pois! Foi o que se pôde arranjar.

-Hum! Outro nível pois...

Penso que ninguém me seguiu, mas isso é quase impossível, devo estar a assistir a outro nível de profissionalismo. Se olhar para trás sei que o homem com quem falei está a sussurrar com o grupo, um miúdo rápido como uma lebre começa a correr. Outros tantos miúdos misturam-se com ele, gritam de forma desinibida. " Eu é que sou o He-Man!" , "Não!! isso querias tu!!!", "He- Man, He-Man!". Deve ser a palavra-chave, começam todos a ser avisados que agora as conversas comigo passaram para o 2º nível.

Quando entro no Café, quem está ao balcão é o moço. Reparo que ele está meio assustadiço quando olha para mim. Acabo por pedir um chá para grande espanto dele, apeteceu-me simplesmente ser diferente, continuo na onda da loucura peço também uns biscoitos.

Reflicto melhor, em teoria quando falo com este empregado posso pedir o que eu quiser sem consequências, mas isso era no 1º nível, será que as regras continuam válidas? Quando a empregada vem servir-me não posso deixar de reparar que ela está a tremer, tem alguma dificuldade em olhar-me de frente. Digo então que gostaria de falar com o dono, ela olha-me confusa e engole em seco.

Demora algum tempo até o dono ir sentar-se na minha mesa. Enquanto apara o bigode pergunta-me.

-Acha que hoje vai chover?

-Acho que não.

-Já é a quinta pessoa hoje que me diz isso. Eh! Eh!

Oh Meu Deus!! Onde é que me fui meter!!! Ele vai iniciar uma conversa cifrada de 5º nível! Não sei absolutamente nada disso.

Com o olhar de forma rápida, tento ver alguém que possa parecer suspeito e ser agente infiltrado, escusado será dizer que não percepcionei nada e ainda fiz figura de parvo com aquele movimento brusco despropositado. Ele olha para mim e percebe que estou desesperado, isso apenas faz com que firme o olhar e não me largue por um minuto.

- Que acha do meu Café?

- O estabelecimento?

-Sim, claro!

-Acolhedor!

Não consigo disfarçar o imenso incómodo que não perceber onde começam as palavras de circunstância e quais são as senhas. É mais que certo que vou cometer erros, molho os biscoitos no chá e sem muitas cerimónias quase os devoro numa dentada.

-Sabe Não costumamos ter muitos estranhos neste bairro, aqui toda a gente se conhece.

-Tem vantagens e desvantagens...

Sorri de forma macabra, mostra os dentes.

-Ainda recentemente um ladrão tentou mexer no que não devia. Infelizmente um balázio nos cornos apressou a sua vida para os anjinhos.

Fico calado e entro definitivamente em pânico, não sei que linguagem cifrada é essa, mas isto é muito mau sinal!

- Como aconteceu isso?

-Você sabe, curiosos, pensou que ia apanhar qualquer coisa e afinal apanhou foi na tola.

- E os problemas com a polícia?

Pergunto eu hesitante. Fixa-me com um olhar de morte, nota-se que ele só de ouvir esta palavra fica mal disposto. Fica em silêncio uns minutos mas dispara logo a seguir isto:

-Raios! Homem... você é estúpido? Por amor de Deus, leve esta porcaria e vá-se já embora daqui!

Atira uma pequena carta para cima da mesa e contrariado desaparece pela porta dos fundos. Sem muita cerimónia levanto-me e apresso o passo, fico espantado por os outros ignorarem completamente a minha presença.


Estou completamente desprotegido, quando atravesso as ruelas para sair do bairro, dói-me o coração, anoiteceu já e vejo muitas aglomerações na rua. Não ter levado uma facada lá dentro, talvez seja um bom sinal. Quando estou a dirigir-me para o carro, um homem de grande porte pede-me um cigarro, digo que não fumo. Depois de um empurrão, o envelope que descansava no bolso interior do meu casaco fica logo nas mãos dos outros três tipos que estavam com ele. A despedida não é muito sentimental, mas fico contente por não deixar sequelas. Até há distância eu sabia que eles eram policias.

Nem sei o que fazer, acho que vou apanhar tareia de ambos os lados. Onde é que eu estava com a cabeça para me enfiar neste buraco? Hei-de escapar, escolherei o lado do mais forte.


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Manual para evitar a mesquinhez humana




Serão mostrados alguns excertos do extenso manual que totaliza 1.102 páginas. O livro encontra-se à venda nas principais livrarias do País. A Editora responsável pela tradução da obra é a Insânia Editores, o preço aproximado ronda os 422 Euros.

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Princípio motriz - Procurar a igualdade absoluta, moderação e neutralidade.


Vestuário
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Regra 56:: Vestirmos sempre as mesmas roupas, para que não haja invejas e ninguém se sinta inferiorizado ou prejudicado, a excessiva diversidade no trajar é potenciadora de desigualdades e conflitos. Deve pois apostar-se no uniforme único.


Aspecto físico
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Regra 93:: Para minimizar as diferenças entre gordos e magros, para que os mais obesos não despertem sentimentos mesquinhos, os mais magros deverão vestir uniformes mais largos e usar mais peças de roupa.

Regra 98:: Quem é mais bonito deve inclusivamente descuidar a apresentação de modo a não chamar tanta atenção e não provocar a frustração dos mais feios.



Provocação feminina
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Regra 138:: As mulheres nunca poderão de alguma forma usar vestuário que saliente o decote e as pernas seja por satisfação pessoal ou por técnica de sedução. Se for bela e outras mulheres assistirem, os sentimentos de desgosto pelo bem alheio iriam proliferar. Se for menos afortunada na beleza física pode despertar a chacota e o ridículo.

Regra 161:: Resumindo atitudes mais ousadas só em privado com o companheiro(a) e por precaução nada deverá ser divulgado a terceiros.



Convívio de amigos
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Regra 267:: Quando se convidam os amigos a casa para um jantar ou uma actividade recreativa, devemos despir a habitação de ornamentos exibicionistas ou eventualmente perturbadores. Deve procurar-se um espaço neutro para que não haja a menor desculpa para surgirem pensamentos vis e maldizentes.

Regra 269:: Quem viver numa mansão coberta de luxos faraónicos, nunca poderá convidar ninguém, sendo melhor alugar antes uma garagem para o efeito.

Regra 278:: Nas conversas jamais se deve parecer exibicionista ou relatar uma proeza que possa ofender outros e forçar a lembrança da sua incapacidade de realizar tais actos. Deve manter-se um tom formal monocórdico de modo a ter-se a ilusão que ninguém é melhor que outrem e assim viverem todos em comunhão e felicidade.

Regra 293:: Devemos manter sempre o respeito, seja em que circunstância for, para tal necessário ter muito cuidado nos momentos de folia que devem ser evitados, aí poderemos baixar a guarda e revelar parte da nossa intimidade o que será potencialmente perigoso. Nunca poderemos perder a máscara da respeitabilidade e da distância, pois isso é principio das rupturas e eventualmente de tentações perigosas.


Regra 328:: Deve existir muita cautela, nas reuniões de grupo devemos omitir o facto que saímos com outros amigos e fizemos outras actividades, em último caso usa-se a mentira para afastar suspeições. Eles poderão eventualmente sentir-se discriminados e isso poderá despertar o gérmen da revolta.


Regra 341:: Em grupo quando estamos a defender as nossas ideias, devemos procurar uma postura discreta e em caso de tensão buscar um apaziguamento. O conflito deve de todas as formas ser evitado, a boa educação deve imperar mesmo que isso se faça à custa do nosso apagamento.


No Escola
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Regra 371:: Se algum rapaz ou rapariga tiver uma namorado(a) e na sua turma existirem vários elementos que são virgens ou não tem um companheiro amoroso, por solidariedade o namoro deve ser secreto e jamais referido. O sentimento de desigualdade seria muito penoso e poderia causar danos psíquicos de grande gravidade.

Regra 393:: Vindo a descobrir-se que um aluno da turma namora em dissonância com a maioria da turma e não havendo possibilidade de negar ou inventar uma história alternativa, o infractor terá que terminar o namoro para que seja possível restabelecer o equilíbrio.



No Trabalho
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Regra 671:: Deve existir no ambiente de trabalho um boa companheirismo, ninguém deve tentar destacar-se dos outros por via profissional isso cria competição e pode levar a atritos graves que degeneram em mesquinhez e ira. Se existir laxismo e incompetência, os elementos mais profissionais devem tentar simular serem dotados de menor brio, de modo a não insultarem os interesses instalados e despertarem sentimentos menos bonitos das pobres vítimas.

Regra 693::Se os colegas de trabalho usam frequentemente os telefones do escritório para recreio e conversas pessoais na primeira oportunidade que têm, jamais devem ser denunciados. Ser um bufo destrói a harmonia profissional e o ambiente de fraternidade mafiosa. Portanto o melhor será existir uma corrupção moral e degenerativa para baixarmos os nossos parâmetros morais e não nos incomodarmos com esses pequenos pecadilhos.

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Sexta-feira, Março 05, 2010

Pedir para não roubar




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Estava na paragem do autocarro, penso que existiria uma fila com cinco pessoas que aguardavam o transporte. Um mendigo ou um drogado aproxima-se e com ar pesaroso pede que lhe facultem uma esmola para diminuir a sua dor. Há medida que as pessoas sobem para o autocarro, ele escuta desculpas ou apenas a mera indiferença. Revoltado e sem argumentos, perante as recusas, finge que pensa em voz alto e afirma.


- Depois querem que um homem não roube! Metem-nos entre a espada e a parede e depois só nos resta pisar a poça e chafurdarmos. Bahhh!!!..


Fico sentado a pensar no assunto enquanto o veiculo arranca. imagino então a seguinte situação e se outros também fizessem o mesmo pedido ao público anónimo? Muitos para lá do ar respeitável e supostamente digno vivem acossados, antes de cometer o mal irremediável poderiam apelar a que os ajudassem. Fixo-me a olhar para a janela e observando o exterior imagino então as seguintes personagens que se passeiam na rua.

....

Noutra paragem, um homem aparece está bem aprumado de fato e gravata, corte de cabelo impecável e usa um perfume agradável. Dirige-se às pessoas que estão na fila e começa o seu discurso.

- Bom dia! Chamo-me Raimundo Esteves, sou Gerente Comercial de uma empresa imobiliária. Infelizmente influenciado pela mania das grandezas embarquei numa onda despesista e comecei a gastar mais do que devia. Eu e a minha mulher quisemos comprar um T5 numa zona nobre da cidade e actualmente pagamos uma exorbitância em juros. Temos também uma vida derreada, onde investimos muito em bens materiais e serviços que completam a nossa ilusão de felicidade: Boas roupas de marca, jantares em restaurantes exclusivos, mobiliário de luxo, bons vinhos, férias no estrangeiro de primeira classe, clube de golfe, carro de alta cilindrada. Um dia a bolha tinha que rebentar. As despesas eram mais que muitas, mesmo trabalhando mais horas para ganhar mais prémios de produtividade eu e a minha mulher não aguentávamos o barco. Pedimos dinheiro a agências de créditos ao consumo para renegociarmos as dividas, mas só nos atolávamos mais ainda.

Tudo está hipotecado, desde a nossa casa, carro e escassas poupanças, inclusivamente valores de familiares próximos e amigos que quiseram ajudar-nos e acreditaram nas nossas mentiras e acabaram por ficar como nossos fiadores.
Não vou conseguir aguentar mais, tudo se desmorona à minha volta, os tribunais perseguem-nos e eu não tenha mais por onde me virar. Peço-vos que me ajudem, preciso de 50.000 Euros! Já não sei o que fazer para arranjar este dinheiro.


Tem que me ajudar!!! Senão terei que roubar dinheiro no balanço de conta da imobiliário onde trabalho, falsificar a declaração de IRS, provocar um incêndio na casa dos meus avós e tentar sacar posteriormente o dinheiro do seguro, talvez tenha mesmo que me dedicar ao pequeno tráfico de droga pois sei que alguns amigos meus conseguiram desta forma um rendimento extra bastante agradável.


Não quero actividades desonestas! Peço-vos ajudem-me! Estou desesperado!!! Preciso do vosso auxilio.


......

Mais à frente, observo outra fila e outro interveniente, é um miúdo traz um brinco na orelha, calças largas, ténis desabotoados, casaco desportivo com capucho. Tem um ar gingão e uma atitude desafiante, inicia então uma conversação com as várias pessoas que estão à espera do 145.

-Olá "Barriles". Saudações! O meu nome é Fernando Gilas mas todos me chamam o "Mãozinhas", tenho apenas 17 anos mas já com muita rodagem!!! Ehhh!!!

Bem!... É assim!... O meu velho é cadastrado e apanhou 15 anos que está a curtir em Monsanto, a minha velha trabalha como empregada doméstica a limpar as sujidades dos que se dizem grandes mas são apenas ranhosos! Moro na Musgueira, numa casa ilegal e a cair aos bocados. Bem!.... A verdade é esta, eu não vou acabar podre como os que me rodeiam! Hei-de ter tudo o que mereço: Dinheiro, gajas, fama, prestigio, muitos bens materiais....

Como não tenho jeito para a escola que aliás também não ia dar em nada, nem para ser explorado num emprego de porcaria onde dou o litro e não ganho nenhum não vejo outra alternativa senão dedicar-me a uma vida de crime. Já percebi que com pequenos assaltos a supermercados também não vou lá, isto tem mesmo que ser com assaltos à mão armada a ourivesarias e a gasolineiras.

É assim meus, eu não queria entrar nessa vida, porque sei bem o que aconteceu ao meu pai e a amigos meus. Para entrarmos nesta onda, tem que haver uma grande organização e muitos cuidados senão a "judite" e os latas apanham-nos. Sei que não sou cuidadoso e acabaria por cometer erros fatais, ainda acabo numa prisa sodomizado por um algum gorila.

De modo que venho pedir-vos, ajudem este puto aqui! Precisava de 78.000 Euros. Acreditem se tiver essa massa vou curtir à boa e não incomodo ninguém. Compro uma alta mansão com piscina, crio uma editora de música de Hip-Hop, contrato umas garinas para fazerem parte do meu harém privado, dou altas festas, conduzo grandes carrões e faço altas corridas na minha pista privada, apareço nas revistas de sociedade e na televisão. O mundo ia ganhar uma estrela e todos teríamos a ganhar com isso. Não é justo eu ter nascido nesta condição, não pedi isto! Estou condenado a ser um ranhoso de merda que não tem horizonte nenhum!

Quando eu vejo tantos poltrões que tem uma alta vida e não fazem nenhum, eu penso como tudo isto é injusto! Aqueles "mans" da TV, dizem umas baboseiras e ganham milhões, aproveitam as coisas boas da vida e nós aqui a apodrecer a vermos os outros crescerem.

Não aguento mais! Vá lá dêem-me o dinheiro a bem porque senão tenho que ir buscá-lo a mal. Só peço 78.000 Euros por agora!


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Segunda-feira, Fevereiro 22, 2010

No private thing - (Série relatos Kafkianos IV)


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Posso eu aguentar isto? Cada vez é mais difícil e eu bem tento. Não tenho espaço que possa ser meu, tudo é ocupado, público, de todos. No cortiço nojento que é a minha casa, não basta os familiares numerosos ainda tenho que aguentar com os convidados e os coscuvilheiros. Quando regresso da escola logo uma das inúmeras pestinhas que infestam a casa me abre a porta, mesquinhez não falta naquelas criaturas. Penduro o casaco no bengaleiro do Hall de entrada, de nada serve espantar a miudagem, vão revistar os bolsos na esperança de encontrar alguma coisa, isto senão tirarem o casaco do sitio e o sujarem. Mesmo cabisbaixo sou admoestado pelos familiares mais velhos que perguntam logo pelo meu ar, questionam a barba mal feita e o porquê da fralda da camisa fora das calças.

Porque me dou ao trabalho de fechar a porta do meu quarto? As paredes degradadas estão cheias de rachas, mesmo a partir do tecto existe uma abertura que os vizinhos de cima podem espreitar quando lhes convir. Quando mudo de roupa tenho que ouvir os comentários parvos da minha prima a respeito de ter pernas muitos peludas. Ouço risadas incontidas a respeito das minhas cuecas e criticas veladas ao facto de ser lento a vestir o pijama. O meu pai não hesita em referir que sempre me chamaram caracol desde os tempos da mais tenra infância. Surge logo um tema de conversa e uma risota pegada, atrás da rachas na parede fica a sala de jantar sempre cheia de familiares e convidados. Todos podem alegremente espiolhar pelo buraco e roubar-me a réstia de dignidade de uma privacidade que não me é consentida.

Todas as fortuitas tentativas de isolar-me resultam na desconfiança dos outros e despertam ainda mais curiosidade. Nesta casa tudo é publico, alguém faz algum disparate, deixando cair um copo ao chão, antes que a noticia seja espalhada, corre a contar a novidade em altos berros, lamentando-se da má sorte. Qualquer acontecimento é empolado, todos mascam a sua parte e rapidamente percebem que o melhor é seguir a carneirada.

Tento estudar mas é complicado, sentado ao pé da secretária tenho que escutar os apontamentos da minha avó que refere que estou cada vez marreco. A minha madrinha diz que estudo em demasia, o meu cérebro vai acabar por fritar. O meu tio não se contém e dispara que eu tenho que levantar mais a cabeça e não me posso inclinar tanto para baixo. Ralham o meu nome e instigam conselhos que mais se parecem com ordens.

O meu silêncio irrita-os e as ofensas não tardam. Uma boca calada é uma boca não controlada. Nem na janela do meu quarto me largam, surgem miúdos da rua aos magotes, adoram subir os prédios e espreitar nas casas alheias. Não se inibem que me fazer caretas e alguns até cospem para o vidro. Andam em grupo, como salteadores, são vadios que os pais não cuidam.

A Liliana adora irritar-me, faz tudo para que eu reaja. A minha sobrinha fica embriagada quando me tem à sua mercê. Os outros riem-se, pois acham o castigo merecido, nada lhes tira a ideia que sou um pretensioso que se acha melhor que os outros. Acho que gostam de me arreliar, se começo a bufar e a fazer cara de mau tentando afastar a intrusão, ficam mais satisfeitos, é um sinal que vou comunicar brevemente.

Vou sair de casa e tentar estudar no jardim, a minha fuga não passa incumbe e logo sou carimbado como sociopata fujão que não convive e partilha a sua intimidade com os outros.

As escadas do meu prédio estão cheias de vadios que perderam tudo e procuram abrigo. Mal consigo andar na rua completamente apertada de gente, respirar é insuportável. O jardim está cheio de populaça, o ruído é ensurdecedor, as crianças inundam tudo, o banzé que fazem é horrível. As pessoas parecem cogumelos, esta cidade está super-povoada desde há anos, parecemos sardinhas em lata.

Coloco os tampões nos ouvidos e tenta passar o mais despercebido possível. Mesmo sentado no recanto mais isolado, tenho vizinhos, apenas me resta esperar que sejam discretos e que eu os esqueça.

Estou cada vez mais doente, sofro de claustrofobia humana, olho à volta e sou apertado num cubículo, impossibilitado de ser individuo.

- UHHH!!!! O que é que estás a pensar??? Ahhhh!!!

A parva da Liliana voltou a seguir-me, tenta roubar-me os cadernos e puxar-me o cabelo. Veio acompanhada com as outras pestinhas que salivam sempre que podem atasanar-me, rodeiam-me em circulo e tentam distrair-me. Onde quer que vá, sou sempre perseguido, tenho que começar a mudar de roteiro, estou a ficar previsível.

Andar nos transportes públicos é horrível, estão sempre cheios, carregadas de carcaças humanas nos limites. Vou a pé apertado nas ruas atulhadas, começo a recordar histórias antigas, castrações passadas.

Horror, imaginar quando tenho que tomar banho e a miudagem espreita nas frestas, ouço os risinhos parvos. Depois em ziguezague vão avisar os meus avós e entusiasmados relatam tudo o que vêm. A Liliana chegou a pegar numa régua e mediu o meu pénis, depois entre risinhos histéricos ia contar tudo. Sentia o desaforo a deslizar como uma onda, a troça era pegada. Depois tentavam arrancar pelos, por vezes espetar mesmo alfinetes, o importante era arreliar.


Quando estava a fazer amor com a Madalena, bem tentei arranjar o sitio mais isolado que consegui, mas a arrecadação do António não foi suficiente. A Liliana encarregou-se de espalhar a noticia e além da miudagem, também veio a minha família. Espreitavam pela janela, alguns até se esconderam debaixo da cama, muitos traziam máquinas fotográficas e câmaras de filmar. Era inútil fingir de não escutava os comentários, a minha mãe estava entusiasmada por saber que o seu filho ia deixar de ser virgem. A invejosa da minha tia já ia avançando que eu estava a fraquejar muito e que se calhar até era impotente. O meu primo estava deliciado a comentar as formas da Madalena e já a conspirar para poder roubar-ma.

Era muita pressão, não estava a conseguir concentrar-me. Claro que os incentivos para me despachar, com urros e gritos também não ajudavam lá muito. Acabamos por fingir um desenlace que realmente não aconteceu, só depois disso poderíamos despedir os espectadores não convidados. A Liliana ainda exigiu amostras dos fluidos, mas eu louco de raiva com um pontapé acertei-lhe no rosto e num acesso de raiva mordi-lhe a orelha e por pouco não a rasgava. De nada serviu o ar indignado da minha tia, ela percebeu o meu olhar homicida.

Eles não compreendem a minha indignação, só queriam apoiar-me, acontece o mesmo a toda a gente. Tudo é de todos, os pensamentos falam-se em voz alta, as emoções partilham-se e nas tristezas todos se entre ajudam. Porque sou um bicho do mato? Qual o motivo do meu isolamento?


Só sei que preciso do meu espaço e isso não deveria ser algo inacessível. Não sei para onde caminhamos, mas não tardará o tempo em que toda a gente ande nua na rua, pense sempre em voz alta, todos os objectos sejam colectivos e as decisões tomadas em conjunto. A diferença será cada vez menos tolerada, porque simplesmente deixarão de existir ilhas isoladas com canais comunicantes e passará tudo a ser a mesma península.

Como chegamos a esta degradação? Não é apenas a miséria, crise, super-população, havia um passado de individualidade que está a degenerar, sem isso jamais haverá liberdade.


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Sábado, Janeiro 23, 2010

Abrir os olhos




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"Ilusão não é o que vivemos? Se só vemos as forças contraídas morremos atropelados. Se reparamos somente nos sorrisos perdemo-nos na estratosfera da inocência."


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O
meu amigo hipnotizador, tem um grande talento. Fiz bem em convidá-lo para se juntar a nós, no jantar organizado pela Clotilde. Nesse jantar estavam alguns dos meus supostos melhores amigos incluindo a Clotilde. Depois do repasto, chegou a altura de ele provar os seus dotes e exibir as suas proezas. Hipnotizou-os a todos e deixou-os à minha mercê para que os pudesse questionar à vontade e extrair o que bem desejasse. Ciente do meu poder, ponderei bem e sem receio aventurei-me no politicamente incorrecto, desejando vasculhar a mesquinhez.

Vi a ânsia de poder, os egos desmedidos e tanta troça. Percebo porque os antigos mistificavam tanto o respeito, quando se perde a consideração é mais fácil pisar. O processo pode não ser imediato, mas pouco a pouco já não somos iguais, encolhemos e somos insectos que já não custa tanto pisar quando o incómodo surge.


A culpa é minha, esqueço-me que pessoas são pessoas, e os amigos são confrades que mesmo escondendo as armas na sacola, não as deixam de ter. Inconscientemente revelo-me sem temor, os meus defeitos são abertos e a minha imprudência fatal. Há uma constante luta de poder, domínio de egos, nas conversas , nos relacionamentos. Exigente na escolha, relaxo depois da conquista e esqueço que nas planícies abertas o mesmo cão de guarda pode virar lobo. Nunca se deve baixar a guarda, pois podemos passar por fracos, dependentes e tolos.

Vejo o que pensava ver mas com pormenores diferentes. Relembro histórias passadas e compreendo erros dissimulados. Percebo a minha culpa e como ela foi amplificada na fraqueza apreendida. Decididamente a minha honra está na lama e o meu orgulho não existe.


Mando os ajudantes entrarem, colocam as metralhadoras em posição, os disparos consequentes despedaçam os corpos ensanguentados. Não eles não traíram o nosso bando, não denunciaram nada à policia, nem sequer roubavam dinheiro para o bolso. Simplesmente não me respeitavam e neste ramo, não ser respeitado é o primeiro passo para cair. O respeito é a nossa armadura, brevemente começariam a lançar a primeira pedrada que iria caminhar para uma granada que um dia rebentaria quando fechasse os olhos.


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Quinta-feira, Julho 16, 2009

Regresso - (Série relatos kafkianos III)



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Voltei a contragosto e reencontrei a minha velha escola, com ela o meu passado. Como sempre tenta-se ver as diferenças. Talvez se descubram velhos conhecidos ou qualquer pedra perdida que pensávamos sumida. A desculpa para regressarmos eram uns documentos que o meu amigo ao fim de muitos anos resolvera recuperar.


Descobrimos um mural de azulejos que a nossa turma produziu, trabalho colectivo que perdurará na história. Tentámos tirar uma foto mas aí cometemos um erro, revelámos quem éramos.


O nosso passado foi escrutinado, as auxiliares e a professora que se encontravam ali naquele momento, agarraram-nos e entre saudações pelo regresso dos "adultos", resolveram então questionar as "crianças". A professora finalmente reconhece-me, primeiro exprime o espanto e depois firma uma expressão em arrebatamento.


Troca sussurros com as auxiliares e elas mirando-me fixamente caem na risota geral. Apontam o dedo para mim e chamam mais gente que pouco depois forma uma multidão de palhaços. Afunilam-se à minha volta, rapidamente perco o meu amigo e fico apenas eu com elas.

Regresso ao passado e vejo uma grande mancha de formigas, dispersando-se ao agrupando-se, são muitas. Recordo-me da maldade, como os pés as estilhaçavam e dos gritos de alegria na conquista. Miúdos que caiam em gritos rebolando-se no chão, com os punhos esmagavam os insectos, tudo numa imensa alegria.

Não reparavam que as formigas eram às centenas de milhar. Eram como água e em breve todos ficariam inundados. Só vejo a minha sombra, tenho demasiado medo de mim próprio para assumir o que quer que seja. Intermitentes e em movimento, vejo uma áurea que passa e que outros aproveitaram.

Entre a inevitabilidade do anonimato que roça a invisibilidade e o estrondo cacofónico que arriça ódios deixamos o destino escolher, pois o peso da contínua circunscrição é demasiado.

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Agora rio-me estou na esplanada com o Joaquim, Mercês e o Celestino. No calor do verão os nossos risos forçados parecem apesar de tudo mais espontâneos. Num vai-vem sacudimos novidades com a indiferença necessária para nada nos tocar.

Ilusões são boas e desanuviam as altas expectativas que no fundo são culpadas de muitos males.

Sem perceber nem controlar bem as palavras, comentei que regressei à minha antiga escola. Abri uma porta que levantou questões, não ponderei suficientemente a minha atitude, pois a minha reserva de falar sobre o assunto ainda desencadeou mais suspeições.


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De noite em casa no meu quarto, regresso ao meu velho diário. A capa já está gasta, muitas folhas amareladas e amarrotadas. Continua um colosso, ali estão 1000 folhas. Muitos pensarão que anoto diariamente os acontecimentos mais relevantes do meu dia a dia. Estão enganados eu não construo frases, organizo tabelas de palavras numa busca sintáctica.

Procuro a simplicidade, num resumo de resumos resumidos. O problema é por vezes não querer ver o que me perturba e isso faz com que não seja sempre imparcial. Mas desde quando alguém pode esperar que a auto-analise possa ser outra coisa que não parcial? Só a distância independente pode ampliar o que foi arredado.


Sempre tive esta ridícula mania de coleccionar, acumular objectos, guardar troféus. Senti desde cedo uma necessidade de guardar o meu passado, no presente dia-a-dia, pois voltando atrás podemos compreender melhor a amplitude dos nossos erros e sucessos e com isso reestruturamo-nos.

A minha fé optimista nunca me abandonou e ainda bem que assim o é. Isolado ou abrigado eu andei, como sempre esperei demais e calculei mal as distâncias mas no fim recusei o comodismo de quem se deixa morrer e espera que o enterrem em lágrimas de compaixão.


Regressei à página 75 e pesquisei o anexo A 12 vi a tabela TB- 5-11-94. Na verdade aquele dia fora tortuoso e dividi-o em três tabelas. A TB (a), TB (b) e TB (c), não correspondia a manhã, tarde ou noite. Limitei-me a representar os acontecimentos que ocorreram de tarde, foram demasiado graves para não merecerem o justo destaque.

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TB (a)


Gangrena, medo, cúmplices, inacção, desespero, bloquear, punição

3-67-90-25-1-5-7-9-12

Partir tanto, Quebrar, amarrado, culpa, dor, erro




TB (b)

Rir, troçar, humilhar, castigar, insultar, cortar, não ajudar

23, 56, 78, 27, 78, 90, 25

Um caco, desgraça, tantos a ver, carimbo, sem opções




TB (c)


Enterrado, funeral, luto, berraria, albergue, pais, chuva

13, 45, 06, 17, 89, 10, 20

Hei-de voltar, hei-de voltar, hei-de subir.....

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Tão lá os segundos, minutos, nunca esqueci o meu relógio electrónico com cronómetro e como sempre que fechava os olhos clicava no instante em que fixava uma palavra que resumia muito.


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Quarta-feira, Julho 15, 2009

Future Wild West



Análise do velho oeste se transposto para os nossos dias e os problemas que daí adviriam. Questão das armas e como os conflitos podiam facilmente deflagrar. Simples discussões podiam transformar-se em guerras fratricidas onde se perdia frequentemente o controle.


I
maginem uma sociedade onde todos tem o direito constitucional de andar armados. Onde devido à tradição é frequente andar na rua e ver pessoas com pistolas num cinto com coldre, outros trazem caçadeiras e alguns até metralhadoras. Muitíssimos carregam vários tipos de armas ao mesmo tempo e apreciam exibir as suas relíquias mortíferas. Como os actuais telemóveis interessa ter a arma mais recente e mais avançada tecnologicamente. Depois é uma constante guerra-fria, se o meu vizinho tem uma arma melhor que a minha pode ameaçar-me e ser mais bem sucedido, logo eu devo responder.


A corrida às armas deixa muita gente satisfeita sobretudo a indústria armeira que ganha milhões com este negócio. A publicidade e o destaque nos média é constante, todos falam dos últimos modelos, teste de segurança, o grau de ferocidade e eficácia. Temos analistas que observam a performance dos disparos, dão sábios conselhos sobre técnicas de combate e explicam qual o dispositivo de combate mais apropriado.

Dão pistas sobre técnicas de guerrilha urbana e como maximizar o efeito mortífero. Cuidados a ter com os carregadores, como é péssima ideia utilizar carregadores reutilizados de marca branca "Made in China". Jornais, revistas, publicidade, rádio, internet.... tudo é movido pelos grandes patrocinadores que desejam a todo o custo que o povo continue a amar o que o está a matar aos poucos.


Sim, os problemas sociais são imensos. As mais insignificantes crispações, comuns a todas as sociedades podem terminar em sangrentos ajustes de contas. Não adianta as autoridades pedirem responsabilidade individual e bom senso, a lei da selva está instituída e daí em diante só se sabe que a força é que é a lei. Mesmo se as autoridades se militarizam cada vez mais e tentam impor uma força ainda mais poderosa, logo imensos indivíduos acham que tem o direito de perseguir o seu destino e vontade mesmo que para isso tenham que ultrapassar obstáculos e pisar inocentes.

A cultura do medo impera nas ruas, todos desconfiam de todos. O conflito é inevitável na natureza humana, o problema são as formas de descompressão que atingem amplitudes incalculáveis.

É o caos, um clamor que a todos aterroriza e não há uma solução no horizonte próximo. Individualismo tolo multiplicado por erros crescentes de uma competição suicida que não conduz a nada.

Imaginem estes casos e pensem nas suas consequências.




.1.

Um condutor de um jipe estacionou em segunda fila para ir beber um café antes de ir para o trabalho. Após saborear a bica e depois de ter pago a conta, escuta várias buzinadelas. É outro condutor que quer estacionar a carrinha na praceta e o jipe está a tapar o caminho. Está furioso, não contém excessos de linguagem, quando observa que o infractor está a andar demasiadamente devagar. Começam a confrontar-se, as ofensas agravam-se, o respeito está a esgotar-se. Em olhares gelados, observam a mão que se aproxima do coldre e os canos cerrados da caçadeira a vir ao de cima.

Como ninguém quer ser o último, os disparos sucedem-se, inicialmente para intimidar, depois são mais certeiros. O homem abre a porta da carrinha e tenta abrigar-se num canteiro mesmo perante contínuos disparos. A proximidade aumenta a pressão e o senhor do jipe com três tiros certeiros fere o adversário no ombro, estômago e pescoço. Distraiu-se com este sucesso e o ferido sem hesitar conseguiu ainda soltar um disparo que atinge o antagonista na perna direita.


O condutor da carrinha sabe que não vai aguentar muito, as dores são horríveis. Sente que deve cumprir os seus princípios, quando cai deve levar com ele quem o atirou ao chão. Com esforço carrega três vezes no botão da chave do carro, acciona o código de ignição de um dispositivo de auto-destruição que faz explodir a carrinha. Tratava-se de um explosivo plástico de médio impacto.

Os dois inimigos são dizimados com o impacto, mas não são só eles, sofrem os que se encontravam perto da praceta. Vários carros são incendiados, montras partidas, corpos de transeuntes inocentes jazem no chão, vítimas de um egoísmo estúpido que transcende toda a lógica e humanidade.






.2.


Duas senhoras cumprimentam-se na praça local, estão atarefadas a fazer compras. Numa conversa casual sai um comentário a respeito da cobardia do filho da vizinha do lado que estava a ser humilhado no trabalho, por ter medo de enfrentar o seu parceiro que é campeão no clube de guerra e já recebeu vários prémios por causa da sua "bravura" e espírito aguerrido.

Para azar, a mãe do rapaz insultado está perto e escuta tudo, avança em frente e pede satisfações por este assunto estar a ser tratado na praça pública.

A discussão começa a aquecer, com as várias partes a perder o controle. Uma bofetada atinge em cheio a mãe ultrajada, raivosa sem meias medidas, saca da sua Magnum e enfia o cano na boca da agressora. Ameaçada a senhora não se deixa intimidar e sobe a parada, provoca ainda mais a ofendida que de arma em punho pode rapidamente perder a noção das consequências dos seus actos.

Acontece o pior a arma é disparada, um corpo sem vida cai no chão. O tensão está ao rubro, como num sequestro a homicida dá uma rotação e analisa as várias pessoas que estavam na praça. Todos os movimentos são medidos e procuram-se as reacções mais indicadas. A mútua observação e cautela imperam, em movimentos lentos e sempre a controlar a situação a assassina tenta abandonar o local.

Um tiro é disparado e atinge-a pelas costas, era difícil controlar aquela multidão num espaço tão aberto. É liberta a descompressão entre gritos, conversa desgarrada e confusão plena. Dois corpos por uma estupidez mas isso é típico no dia a dia desta terra.





.3.

Temos uma loja frequentemente assaltada, um miúdo com ar suspeito, o dono desconfiado e já muito escaldado com experiências anteriores. Existem várias câmaras espalhadas no estabelecimento e tem ligação automática à central de segurança e policia. O puto deixa cair o leitor de MP3 e ao inclinar-se para o chão revela a pistola automática que tem na mochila. É suficiente para ser ameaçado com uma caçadeira e como não obedece imediatamente, é sovado constantemente até ficar inactivo e tombado no chão.

O pai dele não vai gostar da história e irá pedir satisfações, espera-se o pior. Tanto mais que o miúdo era bom rapaz e tinha um historial limpo.





.4.

Imaginem um jardim e alguns amigos a jogar às cartas, grupo disperso e heterogéneo. Fala-se de futebol, vem o clubismo à flor da pele, começam as habituais discussões sobre as famílias de tribos. Quem é melhor, quem foi mais roubado pelos árbitros, quem tem mais azar. Os outros são maldosos mas se houver justiça os bons triunfarão. Fala-se do último jogo, muito disputado onde tudo foi resolvido por um penalti mal assinalado.

Fosse um mundo normal e para além de umas bocas "perdidas" sem sentido, quase falaríamos de arrufos balofos que entram num ouvido e saem noutro. Mas não, as armas fazem subir o orgulho à cabeça e os maiores disparates podem ter importância. Depois do tiroteio temos sete pessoas assassinadas, 3 feridos graves e dois ligeiros. Tudo porque alguém comentou que o árbitro deveria ser da família de um dos intervenientes da discussão.





.5.

Neste clima de guerra fria, aumenta a apreensão e a cautela. Crianças de 15 anos andam armadas por sugestão dos pais que temem que os seus filhos sejam assassinados em qualquer discussão de recreio, pois das autoridades não se espera nada senão mais violência ao mera complacência com o inevitável.

Pois o fim era inevitável, escolas são lugares de tensão e quando a descompressão são tiros assassinos e começou-se a perder o respeito da vida humana, surge a generalização do sangue. Custa a crer que um miúdo egoísta mate outro porque gozou com a mala nova. Os colegas da turma vingam-se descarregando tiros de metralhadora nele e nos pais. É tudo um imenso dominó onde nas múltiplas quedas as peças se desmoronam.



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Segunda-feira, Julho 13, 2009

Revolta - (Série relatos Kafkianos II)


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Paulo Ridoneo trabalha numa pequena empresa de assessoria empresarial. A principal accionista e directora executiva gere a empresa com braço de ferro, usando métodos medievais na forma como lida com os vários empregados.


Dezenas de trabalhadores abandonaram o local de trabalho asfixiados pela demência que roça a selvajaria, é um castigo aturar tal criatura. Cristina Rivaldo nas suas conversas impõe sempre o tom imperativo, pesado e denso. Por vezes tenta alternar com um ar mais jovial para não parecer tão opressora, mas só consegue passar a imagem de algo forçado e dissimulado.

Para ela jamais um empregado deverá ter um ar afirmativo ou desafiador isso é uma afronta a sua honradez e autoridade. Provavelmente é um desertor que quer abandonar o navio por se achar muito "superior". Comando para ela é dominar o outro pessoalmente, dar ordens sem afrontas e sem desculpas.

Se for branda e amaciar abusarão dela e no fim será a derrocada da empresa e do seu mundo. Muitas vezes não percebe que o seu ar autista e arrogante desemboca na mal educação e humilhação. Para cúmulo frequentas vezes traz os seus problemas pessoais para o local de trabalho e satisfaz-se na tortura sádica que aflige aos seus colaboradores.

Paulo Ridoneo desde o principio a temeu e procura a todo o custo passar despercebido, esconder-se na paisagem como um camaleão. Porém as suas tentativas de escapar são vãs, o confronto surgirá sempre nas zonas de atrito. Adopta o ar submissivo que as normas convencionaram mas isso ainda o faz passar por mais fraco, logo vitima mais certeira para o chicote.



Em sonhos existe a libertação, consegue esbofotea-la sem pensar nas consequências, não adiante esta pedir clemência o castigo é aplicado, contabilizando-se todas as afrontas consentidas anteriormente. Na imaginação é feita justiça e são equilibradas as injustas cartas da realidade.

De regresso ao trabalho o inferno continua, aí recua-se e tenta-se não existir. Uma sequência de acontecimentos tornaram no entanto o dia a dia do Paulo ainda mais intragável. Uma série de erros no relatório sobre a recuperação da Sifonal resultaram numa escalada de violência verbal que terminou inclusive com uma humilhação pública diante dos seus colegas.

Nunca passaria na cabeça da Suserana despedir alguém, seria o regressar à lotaria das novas admissões onde invariavelmente cai a fava da ingratidão. Há que manter os que cá estão e aguentam, os que vierem só podem ainda ser piores.


Agora os clamores de vingança soavam mais fortes, honra ele nunca teve de tanto o pisarem ao longo da vida. Respeito perde-o constantemente cada minuto que passa. Pudesse ele fugir se soubesse vencer o medo que o amordaçou constantemente ao longo da vida. Amaldiçoa por vezes os pais dele por o terem educado a ser tão respeitador, certinho e assertivo, o que recebe em troca é exploração e troça.

A raiva percorre-o, a vingança brilha, se tivesse energia para a sovar com puro ódio. Estalar ossos e estoirar carne sem que nada o detivesse. Nas reuniões quando a observa guarnecido de uma certa garantia quase sente vontade de aproximar a mão em direcção ao alvo. Acobarda-se e não adianta inventar desculpas a respeito da distância, estivesse sozinho com ela num local isolado o medo venceria sempre. É um cobarde e não há nada a fazer, impotente anseia desesperado por uma brisa que o levante.



Quando a Daniela Correa um dia desesperada com o mau comportamento da patroa, toma a atitude de discutir emitindo gritos plenos de desafio, ele delira com o espectáculo.
Como deseja ser um manipulador que maneja uma marioneta e num sorriso maligno trespassar a fera odienta.



Uma ideia surge-lhe na mente, porque não colocar um preservativo cheio de diluente com alguns cartuchos dentro do tubo de escape.



Não estuda seriamente o assunto, numa ingenuidade pueril de uma criança inconsciente resolve avançar. Ignora qual será o resultado, existe um certo prazer em deixar aleatoriamente o destino decidir, se cai na armadilha calculista amarra-se no medo da reacção e consequência. Com um guardanapo de papel segura o preservativo como quem leva uma salsicha. Escolhe uma quarta-feira depois de cumprir o horário de expediente certifica-se que a horrenda ainda continua na sua posição a trabalhar até mais tarde.



É inverno anoitece mais cedo, num movimento rápido finge que vai atar os atacadores mas aproveita para enfiar o que pretende no tubo de escape. Sincronizado cumpre a sua missão, ajuda naquela zona do passeio publico não passar ninguém. Todo o esforço é para parecer natural e não conseguir soltar um soluço de medo que o paralise e auto-sabote.

Tudo o que deseja é chegar a casa, no trajecto nos transportes públicos, anestesia-se num sono dormente que congela o drama que libertado quando chega a casa, explode em alerta triturador. São poucas as almofadas onde se enterra acossado pelo arrependimento e medo da punição.


Dificilmente consegue jantar e apenas comprimidos para o sono param a tormenta dum cansaço que não terminava. No dia a seguir é a expectativa do que aconteceu, no gravador de chamadas não apareceu nenhuma indicação, ninguém tentou comunicar com ele, o que talvez seja uma boa noticia. Segue o seu dia a dia rotineiro, cabisbaixo tenta passar despercebido como se dormisse ainda e nada realmente existisse.



Quando sobe o elevador, espera sempre apanhar alguém que lhe conte as boas novas, mas nada. O murmurinho agitado, revela o primeiro sinal, antes de aberta a porta vem a torrente de novidades. Aquilo explodiu realmente! Ela escapou mas ficou ferida e não houve vitimas laterais.



Como foi ele capaz desta loucura, decerto hipnotizado na inconsciência dos que pensam que sonham e não que fazem. Talvez não fosse realidade, seria como quando se roubou o papel de embrulho que se colocou por baixo da coleira do "Jolie", o objectivo era explodir com aquele refilão canídeo. Brincadeiras infantis que nunca largam quem não quer crescer, porque se fizer isso e acordar vai cegar perante um mundo feio que irrompe lava de maldade.



Ninguém esconde o desejo de a ver sofrer, de preferência que esta esteja desfigurada, fragilizada, doente e acabada. O desprezo e ódio é comum, ela que apodreça, vadia infecta que tresanda a desaforo engolido. Sim percebe-se que apoiam o castigo, nesta fase não se discute culpados tudo parece indicar para um acidente não explicado.


O pior vem depois, a sobrevivente carrega o peso de ficar deficiente e nunca mais poder andar normalmente, coxeará eternamente acompanhada de uma muleta, além de queimadura graves espalhadas pelo corpo em locais dispersos. Todas as energias dela são canalizadas para a resolução do porquê daquele acontecimento. Um culpado existirá ou talvez até vários, patifes que pagarão caro!



Quando regressa carrega todo o ódio e frustração do mundo mais selvática que nunca, mais horrenda como nunca o foi. Todos são suspeitos e os que fraquejarem mais suspeitos são! Quando mira um empregado analisa-o da cabeça aos pés e como que por telepatia deseja arrombar a mente e entrar nos seus pensamentos. A concentração está elevadíssima, sonda tudo, a respiração é densa, pesada, dir-se-ia que se preparara para manejar uma espada e trucidar todos num só golpe.



O ambiente é um pesadelo, muitos despedem-se sem pensar duas vezes, os outros desejam uma fuga rápida. Tudo se desmorona, a racionalidade empresarial deu lugar à alucinação paranóica onde trabalhadores e ex-trabalhadores são espiados como suspeitos malditos.



Nisso Paulo Ridoneo sobrevive culpando-se de ser tão cobarde e tentando ganhar coragem para a matar a sangue-frio. Comprou uma faca ponta e mola e nos seus momentos de isolamento abre-a e simula golpes certeiros que na sua imaginação assassinam a besta horrenda. Um dia para seu horror enquanto encenava o que desejava, aparece-lhe Satanás em pessoa quando a porta da segunda sala é aberta. A tentativa de esconder rapidamente a faca é vã, tudo foi observado e nada pode ser tapado.


Assustado, os olhos dele exprimem medo, os dela perseguição. Agarra-se à mão dele, mas ele foge e refugia-se num canto enquanto esgrimem movimentos de confronto. Afasta-a finalmente e é forçado a mostrar a faca com a lamina apontada em direcção a esta. O rosnar aguerrido da predadora que finalmente descobre o cobarde é o prenuncio de um estoiro em sangue salpicado.



Não trocam palavras, só monossílabos, não adiante negar a transparência das expressões revela tudo. O culpado dissimulado escondido na toca e a predadora que o encontra manejando a arma do crime que poderia acontecer. Ele só pede para não ver o medo, agora com tudo revelado só lhe resta cair perdendo tudo. Oh! Porque falta a coragem de quem nunca matou, de quem tem medo de ferir? Porque é que a consequência é tão esmagadora? Estilhaça a puta ranhosa, vádia e cadela !



Mas ele só sabe falhar. Amarrado ao medo simula movimentos inconstantes, afasta-a apenas, incapaz de cerrar um arremesso mortal. Numa dança tola de cobarde, assustado, tropeça e cai com a cabeça num canto de uma mesa, desmaia e fica a mercê do que se passar a seguir.


Depois da escuridão, surge o despertar, tudo está em silêncio. Na mesa de reuniões, deitada está a entidade patronal assassinada com a faca espetada no pescoço e com várias mazelas espalhadas pelo corpo.



Não foi ele como devia, e não está mais ninguém aqui, todos os colegas saíram do local de trabalho. Certamente todos escutaram os gritos, a turbulência, ruído da luta. Como permitiu ele que um homenzarrão corpulento de 1.90m fosse abafado por uma carcaça seca minorca com aquela voz esganiçada?

Demasiado vergonhoso, não consegue sentir humanidade naquela criatura morta, percebe que não sente ainda o equilíbrio e que lhe foi tirado o prazer de a abater. No silêncio do local abandonado comprende que os colegas quando entraram na sala viram-no desmaiado à mercê da louca.


Talvez a tenham tentado deter, julgando que ela extravasou os limites da decência e transformou os gritos insanos em violência. Tentaram agarra-la e ela reagiu como doida que é, alguém iniciou o processo e desferiu o primeiro golpe, depois tudo ficou mais fácil, todos partilharem a luta. A Daniela Correa tinha regressado para protestar salários em atraso, ela sabia fazer frente ao estropício.


Provavelmente foi das que tomou mais iniciativa e no descontrole soltou o primeiro golpe, deixaram então de a tentar agarrar. No fim era um corpo inerte sovado por uma fúria recalcada que foi destapada.


Só, isolado sem nada, só lhe resta fazer o que não fez. Pega na sua faca e estilhaça os olhos da cabra. Sim, ele nunca teve respeito pelos insectos e gosta de ferir na certeza que não pode ser atacado. Não há decência, agora é só descomprimir e soltar toda a raiva até à desfiguração, até o sangue rolar e uma poça ficar.


A policia pode estar a chegar, mas ele está preparado para a culpa carregar. Fará o que não fez tarde de mais, sem que nada o pare. Não interessa que o ridículo dispositivo que ele colocou no escape não tivesse funcionado. Esvaziou-se o diluente no chão enquanto os cartuchos caiam no chão sem consequências quando foi accionada a ignição.


Ela foi atropelada no mesmo dia durante a noite por alguém que escapou incógnito. É incrível a estupidez do Paulo Ridoneo, passaram-se dois meses desde que ela voltou de baixa e nunca descobriu qual o motivo do acidente. Culpabilizava-se por algo que enfim.... nunca criou qualquer tipo de importância, valor ou destaque. Escutou mal algumas palavras soltas e tirou conclusões erradas.


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Segunda-feira, Junho 29, 2009

Loucura da vida banal.


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Loucos há muitos de preferência bem excêntricos, alguns completamente doidos sem nexo com a realidade. A comunicação social mostra-nos muitos desses espécimes, sobretudo figuras publicas de monta. Dá audiências e lucro mostrar as anormalidades que desobedecem à lógica e moral da sociedade.


Talvez todos nos possamos julgar superiores ao apenas normais, porém se reflectirmos mais serenamente não teremos nós os nossos momentos de anormalidade? Provavelmente são mais do que julgamos, partimos do principio que existem comportamentos maioritários normalizados que dominam a nossa vida. Se pensarmos como a vida de um ser humano pode ser espantosamente longa veremos que ao longo desse percurso muitas voltas e contorcionismos fazemos.

Nas revistas de "tontarias" podemos sempre troçar dos "Michael Jacksons" deste mundo e sorrimos elogiando o nosso equilíbrio e superioridade. Olhem bem para o fundo do espelho, está lá muita coisa que não vêm.






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João Mendes respeitável operador de caixa de um supermercado é elogiado por todos que o conhecem, elogiam-lhe a dedicação e honestidade além do profissionalismo. Porém para além das aparências e de uma certa reserva que guarda, farão sentido alguns comportamentos dele?
Porque razão antes de sair de casa no prédio onde habita, tenta escutar se alguém sai ao mesmo tempo que ele se prepara para abrir a porta.


Se escutar algum movimento suspeito faz um compasso de espera para não ter que cruzar com um vizinho. Porquê este receio ilógico? Repetido consecutivamente há já vários anos desde tempos imemoráveis.

Porque motivo desvia-se do caminho e inventa uma desculpa consciente ou inconscientemente para não ter olhar ou confrontar-se com um antigo colega da escola ou conhecido de circunstância?


Qual a necessidade de ser irreconhecível e permanecer na sombra anónimo longe do controle? Estacionar o carro por vezes demasiado longe do local onde vive, somente para os vizinhos e transeuntes não conhecerem mais dados sobre a sua existência e hábitos.

Fará sentido arranjar desculpas para não sair com os amigos, dizendo que se tem um programa alternativo quando na verdade estamos em casa a fazer qualquer coisa aborrecido. Os escassos e recorrentes amigos do João, conhecem demasiado bem as suas fraquezas e qualidades.


Por vezes talvez o desrespeitem devido à sua fraca personalidade e excessiva ligeireza que se assemelha por vezes a submissão.


Sente que deve manter uma certa distância pois a dependência cria abusos e isso pode derivar em faltas de respeito e situações embaraçosas. Sem alternativas, enclausura-se no seu mundo e inventa programas alternativos que realmente não possui apenas para manter uma aparência.





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O melhor amigo do João é o Roberto Guilherme que trabalha num centro de cópias. De trato afável sabe esconder eficazmente os seus podres. Quando conversa com os amigos transmite convicção e entusiasmo tentando captar a atenção de quem o escuta. Quase que consegue por vezes ser tagarela e derrapa numa certa insistência que o transforma aos olhos dos outros em alguém desagradável e inconveniente.


Farão sentido as centenas de mentiras que ele conta diariamente por vezes de forma quase inconscientemente em que parece dourar a vida dele num auto-elogio lancinante e constante.

Porque tem ele esta necessidade de ser aprovado e parecer melhor do que realmente é? Ele diz que comprou umas capas de couro para o carro que foram uma pechincha fazendo um extraordinário negócio quando na verdade até foram bem mais caras que o preço de mercado. Qual o motivo para mostrar a espantosa sorte do pai que consegue inacreditáveis benesses de poderosos padrinhos?



Desde brindes, jantares gratuitos, convites de férias... Tudo uma imensa aldrabice, não só não recebe muitas alvissaras como ainda sobra má educação e ingratidão.




As escolhas dele é que são, o clube, partido , família, carro, incrível esperteza, tacto genial, os instintos apurados, a sua inegável masculinidade, a forma como é afirmativo, como nunca permite que ninguém o pise sem levar o troco. Ele, ele, ele, ele..... é o maior, uma estrela no universo e parece incrível como ainda não recebeu uma condecoração da Presidência da República.




Todas as vezes que olha para o espelho tenta não ver o trintão desajeitado e feio que a idade está a enrugar. O penteado estúpido que faz o cabelo parecer amarrafado não consegue esconder as horríveis entradas, a explosão de acne continua a irromper como se ele fosse o eterno adolescente que no fundo nunca deixará de ser. Sim ele nunca se vai casar mas não é por isso que as mentiras vão acabar.




No entanto para quem o conhece há muito cada vez é mais incomportável o seu discurso extrapolado a enviesar para a loucura delirante. Não é apenas o ego delirante e a falta de controle, são erros acumulados que extravasam a realidade.




Mais de meia-hora a conversar e percebemos que o novo tubo de escape cromado com dupla distorção de titânio que veio dos Estados Unidos e que poucos tem acesso é para ele uma certeza. Já vive das suas mentiras e cada vez mais está embrenhado nelas, precisa delas para criar a sua realidade alternativa que o compensa e satisfaz.



Sente uma imensa necessidade de ter novos amigos, pois os velhos parecem cada vez mais disfarçar as feições e a relativizar a sua credibilidade. Outros papalvos inocentes poderão cair mais facilmente no seu justo conto de fadas. Talvez consigam perceber melhor a magnificência da sua beleza e digno heroísmo.





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A prima do Roberto do lado materno tem a sua face oculta como todos nós temos. Contabilista certinha, há muito que o medo é seu companheiro. parece incrivel o grau de sustentação com que fundamenta as suas decisões, imensas cortinas de fumo para esconder a sua inoperância e fuga em frente.




Se não quer ir para a praia com os amigos do trabalho uma conveniente doença de pele é inventada como álibi. Jamais ela iria nua para um lamaçal de areia inundado de porcos depravados que a comiam com o olhar. Ir ao teatro nem pensar, gastar dinheiro em algo que não se sabe se poderá ser interessante. Bah! Uma desculpa de excesso de trabalho resolve tudo isso.




Ir levantar cedo para andar cedo de bicicleta com o irmão? Suar escusadamente e mostrar a fraca forma física para depois ser humilhada. Só se ela fosse louca! Uma recusa directa serve perfeitamente. Sair de casa ao fim de semana para quê?




Ainda podemos ser atropeladas e faz sentido ir para algum lugar quando não temos vida social e qualquer objectivo? A mãe é muito chata mas podemos sempre isolarmo-nos no quarto a fingir que temos trabalho do emprego para fazer. Sim a solução é refugiarmo-nos no emprego e darmos tudo por tudo, até não sentirmos mais nada, até sermos inundados pelo que nos é familiar e não pelo que nos inquieta.






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A Marisa e o Fernando casaram recentemente, optaram por escolher uma casa num condomínio bastante dispendioso. Para eles é o concretizar de um merecido sonho, uma prova de exibição que mostrará a sua excelência e mérito.



Os horríveis juros do empréstimo irão ao longo dos anos destruir as ilusões dos incautos que julgam que aparência justifica portentosos sacrifícios. A dor pode não vir de uma vez mas com o tempo isso ainda se torna mais doloroso, são anos e anos de renúncias, não se sabe bem para quê.

Não podem gastar dinheiro em férias, não convém ter filhos agora, saídas ao fim de semana também não são convenientes. Mudar de emprego nem pensar, demasiado arriscado, mesmo com um patrão abusivo que nos cospe na cara.



O mestrado que poderia melhorar a carreira, entra em conflito com o emprego e o supostos benefícios de lei para trabalhador-estudante são apenas uma miragem. Um conveniente despedimento pode provocar o desmoronar do caro castelo de areia. Armadilhados só lhes resta esperar que as nuvens sumam, enquanto a idade avança.




O orgulho impõe o inferno diário, perante as sugestões que fujam para outra casa mais em conta, recusam. O palácio é deles, o seu troféu e é cada vez mais patético os elogios doentios com que eles exaltam o sonho da sua vida. Afinal a cobra que os estrangula consegue ainda assim ter beleza?




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Falemos também de Sónia Sousa funcionária pública no Instituto português da Qualidade soma já 56 anos. A voz dela exalta um enfado que parece o começo de um sono dormente e anestesiante. Lenta nos movimentos, aliena-se da sua imensa degeneração num corpo que já foi belo e hoje naufraga numa obesidade irremediável.


O AVC do marido, deixou-a disléxica, incapaz de comunicar sem erros de linguagem primários. Revoltado percebe que perdeu qualidades e todos o miram com um coitado, acaba por atacar a família na sua dor.


A filha subsiste em casa dos pais continuamente mimada e perdida em busca de uma vocação e destino. É pois Sónia Sousa quem lidera a família a partir do dinheiro que emana do seu emprego monótono e disfuncional.

As conversas cada vez fragmentadas, revelam sintomas prementes que a forma como ela se exprime perde a todo momento qualidade e nexo. São erros de gramática constantes e uma frequente perda de concentração. A necessidade de fuga nunca concedida acumula-se numa vida burocrática e normalizada que capa todas as esperanças e ilusões. Ao fim de alguns minutos com uns desconhecidos sabe que não consegue disfarçar mais o que é evidente.

Está a ser desconsiderada e acham-na meia louca. Sim o olhar assustado dos intervenientes denuncia isso, amor fraterno que fique para os normais porque os doentes são contagiosos e queimam. Ano após ano é ela que aguenta tudo, pilhas e pilhas de tijolos a arder e agora percebe que chamuscou as mãos e a mente. Talvez tenha fracturado a alma, sozinha nem chorar consegue.

Para quem conversa quem esta senhora desengonçada, com um penteado ridículo que usa óculos com uma graduação errada só vêm confusão errática de quem se embaraça em equívocos e está estragado. Será assim tão difícil perceber que precisa de ajuda?

Talvez seja complexo perceber porque é que a voz dela vai diminuindo de volume quase ao nível do pensamento e interrompe assuntos de trabalho com pormenores intimistas fora do contexto. A perda de auto-controle é uma inevitabilidade num cenário onde o erosão constante progride a olhos vistos .


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