Adiar é lamentar
Estou triste morreu o meu amigo Valério Rillo. Ainda recordo as suas feições tinha um nariz aquilino, a barba fraca e imberbe que parecia um encrostar de pelos, os olhos eram ébanos onde frequentemente faiscava entusiasmo. De altura média, muitas vezes inclinava a cabeça num estranho jeito como se fosse corcunda, causava uma certa impressão tal comportamento. Parecia que humildemente estava sujeito a todos e prestava a esses mesmos vassalagem.
Sinto que não lhe disse muita coisa que gostava de dizer e por isso afunda-se uma profunda tristeza no meu âmago.
Lamento muito não ter sido melhor amigo, mais dedicado e justo pois ele merecia-o, para comigo o comportamento dele foi sempre exemplar. Suponho que por vezes ficava aborrecido com as suas atitudes passivas e resolvia afastar-me, de forma discreta claro para não ferir sensibilidades. Era apesar de tudo uma retirada e agora depois desta desgraça, só o posso lamentar.
Foi alguém apegado aos valores da amizade, um verdadeiro companheiro de armas, de modo algum foi um interesseiro, pelo contrário altruísta e dedicado. Sabia que tinha problemas e os esforços que empreendi foram parcos, tinha consciência que era necessário fazer mais, acabei por desistir e sendo eu o melhor amigo tinha uma óbvia obrigação de fazer mais e melhor.
Como mudei de casa, depois do casamento, tudo ficou mais longe. As desculpas eram mais fáceis, e acaba por ser mais simples não pensar nas preocupações não olhando directamente para elas. A culpa e preocupação perseguiam-me por vezes, mas a rotina dos dias entretém-nos e descartamo-nos da nossa responsabilidade, atarefados com o guião de todos os dias.
As noticias circulavam, mas a ausência de contacto pessoal torna-nos mais indiferentes, a distância avança e com o tempo esquecemos. Na nossa inconstância, não medimos o valor de quem merece, talvez por não reflectirmos devidamente sobre a nossa existência. Mergulhasse eu a sério nas minhas memórias e anotaria quem esteve sempre nos momentos que foi chamado, cumprindo com valor o contrato informal da lealdade. Quando conversávamos sobre ele, eu e a minha mulher divergíamos, não o defendia como ele merecia, ela achava-o um intratável, um parasita. Ia fazendo o seu percurso a nova teoria do amigo desvalorizado, mas eu devia ter-me imposto e olhar para lá da teia, só eu sabia o valor, nas minhas lembranças existia um activo que nunca deveria depreciar por circunstâncias ilusórias.
Todos o abandonaram e ele caiu, a lama já existia há muito, sempre que ele aparecia deixava um rasto. Mesmo quando tentava fingir que estava mais forte, não eram só as pernas que fraquejavam, a respiração em esforço dizia muito.
Agora que estou com outros mais a velar o morto na Igreja, não consigo evitar a culpa pois ela é por demais evidente. A minha mulher mantém uma distância prudente, também ela se censura a si própria e sabe que a parte da minha culpa mais cedo mais tarde será projectada em ricochete para as costas dela. Os hipócritas, rapidamente arranjam bodes expiatórios para melhor distribuir o peso da consciência. Logo eu que lido tão mal com esta grilheta, agora que o mal foi feito só posso lastimar-me, resta-me pois tentar encontrar forças para superar este embate. Hã-de passar os meus lamentos, saiba eu crescer e compreender que esconder a sujidade por debaixo de um tapete apenas leva a que um dia tropece no monte que este esconde.
:::


Sem comentários:
Enviar um comentário