
Frederico está sentado diante de Daniel, ambos são alunos do 7º ano de escolaridade, frequentam a mesma escola do 2º e 3º ciclo.
Daniel é o valentão da turma, gosta de atormentar os mais fracos e fazer valer assim a sua autoridade e ascendente sobre os outros. Sente um prazer delicioso quando a sua vontade torce os infelizes papalvos que caem no seu jugo.
É com júbilo sincero que obriga as suas vitimas a baixarem a cabeça em vassalagem enquanto trinca a orelha esquerda em seguida dá um carinhoso calduço acompanhado de um bom abanão e som estridente.
Depois faz o seu juízo aprovador ao reprovador. " Muito bem "Macaquinho de água doce"! Tens-te portado bem" ou então "A brincar! O menino "Castelito Branco" tem-se portado mal! Vou ter que lhe arrancar a orelha!! Ah!!! Ah!!!"
Gosta também de dar beliscões com força nas costas. Se a vitima ousa desrespeitar a sua glória e tem o desplante de virar-se em protesto, um valente soco no nariz receberá como resposta.
Os caloiros iniciados devem perceber quem é o alfa deste mundo. Os tótós estragados muita porrada irão apanhar para arrebitar e o gozo da malta levantar. As miúdas essas estarão sempre a babar-se pelo portentoso suserano, esse espantoso caramelo com brinde.
Momentos nutritivos têm aqueles, as vitimas abaixadas vêm a sua auto-estima achincalhada e esperam o julgamento de tão avisado magistrado. Aquela sensação de temor! Terem que olhar para a parede, enquanto o Valentão de Alpiarça e os seus amigos troçam num gozo bem temperado.
Daniel tem a muito honrosa alcunha de "Godzilla"; sim sente-se satisfeito; fecha os olhos e vê o que o aguarda: balões de água a explodirem na cara de inocentes, frangalhotes arremessados na lama, espertalhões armados em sabichões nas aulas apanharem com estilhaços de maledicência e mau agoiro, auxiliares de educação a serem empurradas nos corredores, professores espancados num sufoco de caos, cacofonia e inferno.
Agora aquela besta do Frederico o "cacas" deve ter feito uma delação na direcção do conselho executivo da escola. Os dois estão sentados enquanto esperam que chegue a professora Cristina a quem as tribos de forma ternurosa chamam "Moca velha".
Daniel vai sentir muita satisfação quando chegar o momento da punição. Já imagina a cena na sua mente delirante. O "Cacas" bem amarrado numa cadeira a tremer de pavor, completamente nu enquanto uma assistência de colegas da escola assiste a tudo. Embriagados de gozo riem-se a bom rir. Depois é sistematicamente chicoteado sobretudo na cara, mas nenhuma parte do corpo é poupada. Sim é um rosto contorcido, esgazeado num grito lancinante afogado em dor que não pára nem vai parar; sem nada.
Vivêssemos à séculos atrás e isso aconteceria, bem merecido era. Estúpida sociedade que tenta abolir formas de violência selvagem, os "fortes" existem, tentam amordaça-los nessa rede monocromática e formatada mas eles existem para "comer" e com isso emergir na glória da vitória dos que dominam e são chefes por direito.
Frederico está espantosamente calmo, tem os braços cruzados olha fixamente o chão, mas não parece manifestar receio das consequências futuras.
A vida dele tem sido um inferno desde que o ano escolar começou , agora que falta pouco tempo para as férias e notas finais, parece ser o fim da sua pena de prisão.
....
- O bullying é um fenómeno muito frequente nas escolas. Violência física e psicológica de forma insistente para intimidar e agredir.
-Pensas que é só nos estabelecimentos de ensino e passa-se sobretudo com os mais jovens?
Mostro-te vários exemplos de outras situações.
Trabalho- Uma empregada tenta intimidar outra, lançando boatos tentando virar o grupo contra ela, o objectivo será que ela peça a demissão e saia do local de trabalho.
Vizinhança- O caso de vizinhos desavindos através de intimidação por comportamento inconveniente, tais como barulho excessivo para perturbar o sono e os padrões de vida normais ou fazer queixa às autoridades por incidentes menores ou forjados. O propósito desta forma de comportamento é fazer com que a vítima fique tão desconfortável que acabe por se mudar da propriedade.
Militar- Em alguns países, rituais humilhantes entre os recrutas têm sido tolerados e mesmo exaltados como um "rito de passagem" que constrói o carácter e a resistência; enquanto em outros, o bullying sistemático dos postos inferiores, jovens ou recrutas mais fracos pode na verdade ser encorajado pela política militar, seja tacitamente ou abertamente . Também, as forças armadas russas geralmente fazem com que candidatos mais velhos ou mais experientes abusem - com socos e pontapés - dos soldados mais fracos e menos experientes.
Neste universo espera-se que os soldados estejam preparados para arriscarem as suas vidas, e tudo deve ser feito para fortalecer o carácter e a capacidade de resistência.
Politico- Determinados países tentam intimidar outros, seja através da ameaça da força militar, sanções económicas, recusa de ajuda ou doações.
Cyberbulling- Uso das tecnologias da informação para intimidar e amedrontar a vitima através da publicação de fotos e informações falsas em páginas de Internet.
Etc,etc....
- Ui! Estás a exagerar! É uma conspiração mafiosa que domina o mundo.
- Certamente já viste documentários na televisão sobre a vida em grupo de chimpanzés, presumo. Verdade é que passam a vida em guerra na tentativa de supremacia e liderança de um determinado grupo. Com os chefes a serem a desafiados por aspirantes, Tendo o líder que mostrar autoridade e onde o menor sinal será lido como fraqueza ou decadência.
Existirá sempre a herança do nosso passado ancestral, a civilização não come os instintos do homem apenas os adormece. Podem dizer muita coisa, mas é a Força que manda no mundo por muito que desejemos esconder essa verdade.
- O que vais fazer com os miúdos que estão no gabinete?
-Humpff... Castigar o mau, proteger o bom... Depois como o bom não pode estar a ser constantemente vigiado e protegido acabará por ser tragado e encurralado, a vida dele vai piorar ainda mais. Excelentes momentos estes...
-
...
Frederico fecha o rosto e começa a contorcer o lábio, os olhos ficam mais aguçados, fixa o seu oponente e não desvia o olhar.
- Cabrão! Quando sairmos daqui parto-te os ossos! Capo-te todo ranhoso de merda!!! Ficas a rebolar numa bela poça "Cacas"!
A careta ameaçadora realça a força do impacto.
-Nem sei o que me impede de partir-te agora a cara! Não está cá ninguém agora que saiu a "contínua". O que andaste a dizer de mim? Responde maricas!! O que é que eles querem?
Palhaço de merda! Arranco-te a orelha, arranco-te o nariz, com o dedo espeto-te os olhos até chiares como um porco!!!!
Frederico parecia não estar muito intimidado, estranhamente. Aos impropérios respondia fixando o olhar afiado em mira num horizonte distante. Era um desrespeito! Ao grande javali devorador de homens deve ser prestada vassalagem, só a sua respiração deve espalhar terror. A formiga que não arrisque levantar a fuça. O lugar dos vermes é serem amordaçados na lama fechada encrosta sem fendas, sem luz.
Daniel levanta-se da cadeira e avança com a vontade de num soco corrigir o desvio da curvatura. É para baixo não para cima.
Frederico nunca teve os olhos tão fechados. As pálpebras espremiam a cornea esguinchante, eram aço e nada as levantaria.
No embate do lançamento entre o firmar do punho fechado e o raspar na tangente, das mãos da vitima emerge uma faca que num coice mecânico fere o pescoço do touro.
Num arrebate de esforço ele cambaleia e cai no chão num choro raivoso não estancando o sangue que esguicha.
O que custou isso? Ele treinou, sempre soube que nada pararia o inferno. Queimam-no vivo todos os dias e ninguém faz nada.
No quintal instalou um saco de boxe, rapidamente estourou o tecido e o forro com as investidas, foi com os punhos, pau de madeira, barra de aço, faca, alma.
Todos os dias em que era humilhado, arranjava forças para responder tarde de mais.
Sentiu que tinha que ultrapassar os objectos inertes, mataria pequenos insectos; começou com as formigas, avançou com escaravelhos, tentou com um gafanhoto. Cada vez com menos piedade até sentir o automatismo dentro dele, sem remorso, sem medo.
Havia um cão velho vadio, ninguém o queria, vagabundeava em busca de alimento já corroído da doença e dos vermes. Não foi difícil prende-lo com uma corda num local bem isolado no campo. O ideal seria usar uma arma de fogo. A barra de ferro teria que servir, O primeiro embate custou tanto. O ganir de sofrimento do animal perseguia-o, era agoniante. Foi necessário mais uma dezena de pancadas até que o corpo finasse.
Seguiu-se um gato vadio, custou a apanhá-lo, teve que ser com uma rede. Estava fechado numa caixa de plástico com entradas nos lados para respirar. Nessas aberturas arremessava a barra na tentativa de furar o corpo do animal em fúria histérica. A caixa estava bem amarrada a uma árvore, não fosse isso ela teria voado nos espasmos de revolta que eram soltos, explosões de sobrevivência.
Custou menos, a vontade imensa de terminar aquilo, aqueles gemidos comprometedores; tudo foi apagado.
Ainda houve mais um rato e outro cão. Dizimados numa educação para a morte, Frederico não temeria a consequência, fez o primeiro gesto, só um selvagem vence outro selvagem.
Não chegava ainda, substitui o saco de boxe pelos animais mortos, primeiro com os olhos fechados depois com eles bem abertos matou, matou, matou...Viu as cartilagens abrirem-se. os ossos estalarem, os órgãos caírem, o sangue espalhar-se. Era duro, mas nem já o fedor o enojava.
Ele via o rosto sardento, o sorriso trocista, os punhos fechados, o tronco espadaúdo, os olhos ameaçadores a arderem como laminas que rasgam. Por cada humilhação na escola, um treino, uma satisfação.
Sim ele agora abriu bem os olhos, não será remordido por culpa ao falta. Os gritos latejantes entrelaçados no corpo tombado, nada são.
Daniel estremece, a minhoca mordeu o bisonte e este estúpido permitiu. Inferior podridão pisada cem vezes, quem se julga ela?
Num estoiro de adrenalina, o corpo catapultado em fúria é trespassado continuamente, cada vez mais e de forma célere. O terceiro golpe fere o coração e causa morte imediata, mas só no décimo tudo findou. O sangue espalha-se cada vez mais, uma multidão sussurra nos bastidores e aproxima-se perigosamente da porta.
Ainda há vontade, num gesto rápido a cómoda é arrastada e fecha a entrada, cerrando a porta; não entrarão agora!
O corpo do elefante esquartejado será içado na janela e estoirado no solo a partir de um 2º andar.
Sim está cercado, vozes, gritos, confusão, ruído, a porta a tentar ser arrombada, pessoas a chamá-lo; inicia-se o crepúsculo.
...
Na prisão, dez anos depois o mundo empurra-o para onde ele está. Abandonado, forçaram-lhe um destino, seguiu a via do crime. Desde o internato que nada o detém. Da sua cela ele observa o pátio. Os caloiros ainda não pagaram o imposto do tabaco, o "Sinédrio dos Maus" terá que tomar as suas providências; respeitinho é bom e recomenda-se. Depois existem os "endireitadinhos" que terão que que sentir o enxovalho, acima de nós só os da nossa espécie e bem curvados a rastejar, isto é uma alcateia com lobos no topo e cachorrinhos desdentados a chorar no curral.
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