segunda-feira, setembro 29, 2008

A consultora



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Magda Elias concretizava um sonho antigo, ia ter um programa na televisão sobre moda onde poderia extravasar a sua imensa sabedoria para o bem comum. Ela tinha uma alta percepção acerca do seu apurado sentido de moda. Anos e anos de prática e o auxilio precioso de uma família com dinheiro nos bolsos, permitiram a Magda crescer na sua arte.

Era um pavor andar nas ruas da cidade e assistir aquelas aberrações distorcidas e histriónicas que alegremente passeavam na via pública poluindo a atmosfera visual de forma irreversível. Doía ver aquele mau gosto encavalitado em equívocos, erros imperdoáveis na combinação cromática, peças de roupa proscritas, penteados vitimas fáceis de enxovalho, sapatos calamitosos que sendo horríveis como eram, mais valia sumirem dali para fora e as vítimas andarem descalças.

Oh repulsa! O analfabetismo na arte de trajar não justifica tudo, certos seres humanos mercê do facto de não terem sido alimentados com os petiscos nutritivos da alta costura e das revistas da moda, ignoram as maravilhas e continuam aprisionados no seu subdesenvolvimento, quais quadrúpedes ençaimados na sua selvajaria.

O dinheiro não justifica tudo, anda por aí muita cópia baratinha que longe de sustentar uma alma exigente dá muitas alegrias aos pobretanas deste mundo. Ela estava disponível para educar as massas, lá teria que fechar os olhos e sujar as mãozinhas mas a caridade é mesmo assim. A lixívia existe para limpar; se os grandes do mundo se acomodam num atavismo molenga depois não se queixem de ser chamados de inúteis.

A Grande Educadora da Moda estava pronta para a sua missão, a classe proletária foleira que se preparasse, pirosices e outras demais tinham guia de marcha, doravante toca outra banda.


A professorinha preparava as suas aulas afincadamente com método e com o guião perfeito. Debitava palavras e palavras, tinha na retaguarda a equipa técnica com consultores e também a nível de pós-produção. Imagens, vídeos , todos os recursos eram válidos para admoestar o povão ignorante, a mensagem tem que passar com maiúsculas.

A reacção não tardou, uma cuspidela valente meses depois, mostrava bem o desprezo dos pequenos. A imprensa sempre pronta a encontrar espantalhos viu na bem-intencionada senhora uma cruzada moralista, calhou-lhe pois a fava. Os defeitos foram esmiuçados ao milímetro, as qualidades ficaram ausentes, lá tínhamos mostrengo, a troça não se fez esperar.

Os tiques arrogantes foram assumidos, daí se viu prepotência escancarada de muito mau tom. Os comediantes, opinadores, figuras públicas censuraram a ditadora totalitária que criava uma pavorosa jaula que mais se parecia com um espartilho caduco. As suas teses eram bem fundamentadas, mas fará sentido um tal grau de precisão? Vestir um trajo é um tratado de Física? A combinação das cores tem que obedecer a 600 regras desde que essas não colidam com outras 320 e claro existem sempre excepções, o que ainda confunde mais.

Cores, tecidos, marcas, tendências, contexto, relativização relativa... muita confusão, a plebe começava a esquentar a cuca. O que era um prazer assemelhava-se agora mais a um colete de forças armadilhado com explosivos, para quem seguisse as suas delirantes instruções.

O programa acabou por ser cancelado, ela falhou. Não só não domesticou o mundo, como ainda por cima os desgostos azedarem-lhe a alma, a sua imensa sabedoria não mais seria partilhada por ineptos ignorantes. Eles que ficassem no seu canto à mercê do bolor, conspurcados com os seus trapos horríveis, parados na sua fealdade torpe. Fugiram da sua sabedoria, pois bem apodreçam! Ralé que se banha num esgoto de excrementos a que chamam vulgaridade, só merece um destino; Morrer de difteria!

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