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Benditos desígnios os que escondem todas as flutuações das correntes livres do pensamento. Dentro de nós na nossa privacidade ocultam-se tempestades que não vem a luz do dia.
Observemos estes dois jovens que estão sentados numa carruagem do metro de Lisboa, cada um deles analisa o outro. Um chama-se Ricardo Mendonça Real é engenheiro numa empresa de construção civil, casado e tem duas filhas. Paulo Raila trabalha num atelier de arquitectura, solteiro e mora na casa dos pais.
Sentados em encostos laterais, conseguem observar-se mutuamente. O engenheiro fixa o olhar no seu oponente de forma discreta, analisando a fisionomia, gestos, vestuário, e começando a especular sobre o que ele será.
Trata-se de um "artistazito", o cabelo despenteado e a barba mal feita não enganam ninguém. Depois aquela ridícula mala a tiracolo da Eastpak, ele deve julgar que ainda é um miúdo. Os artistas tem a mania que são diferentes, não deixam de ser uns putos mimados parasitas com ideias parvas. Bem! Alguns ainda tem algumas ideias de jeito, mas a maioria não passam de uns "grafiteiros" medíocres que perdem a noção do ridículo.
Paulo Raila observa a figura que se encontra à sua frente, engravatado, com fato formal, traz o sobretudo dobrado e preso num braço. Agarra com a mão direita uma pesada mala preta de couro onde as peças de metal são pintadas com um dourado imprestável. Exibe um suposto ar sério, concentrado, talvez seja um executivo, que destila razão e auto-controle. Incrível, como estes "burgueses" são convencionais. Gostam de exibir a sua riqueza como se isso fosse a prova do seu valor enquanto indivíduos. São seres tão incompletos, dir-se-ia que não passam de robots especializados que caminham indiferentes pela inquietude de um mundo gigantesco.
São uns pacóvios, falta-lhes cosmopolitismo, consomem apenas os mesmos valores e conceitos culturais. Onde está a ambição de descobrir o "novo"? Sentir a "movida", devorar avidamente produtos culturais, procurando a transcendência numa busca incessante de aprender a ver cada vez melhor.
Aquelas bandas de música horríveis que eles escutam, as rádios que servem de inspiração são ainda piores, tresandam a massificação, "comercialoides"! A ambição é exibir o portentoso bólide, um bom BMW, com muitos extras. Na rua todos reconhecem o "burguês" triunfante, poderoso, airoso, munido de uma boa carteira, bem recheada de moeda, o vil metal.
Mendonça Real respira lentamente e tenta ficar o olhar para o tecto da carruagem para novamente insistir na análise do seu oponente. Raila parece nervoso, mexe frequentemente os pés e fixa o olhar em vários pontos. Os artista da"treta" são assim, não tem auto-controle a estupidez deles é sempre capaz de nos surpreender constantemente. Crianças "grandes", irresponsáveis munidos de uma imensa veia narcisista. A quantidade de criaturas dessa "raça" que são disfuncionais, delinquentes, insignificantes, "ocos", suicidas, aberrações....
Os engenheiros são uns valentes que tentam por virtude da razão e método lutar contra as condicionantes, construir mecanismos, engenhos, vencer os obstáculos que se avizinham. Os "artistazinhos" são como a madrasta da Branca de Neve, sempre a olhar para o espelho a perguntar quem é a mais bela. Tudo o que fazem, devia ter um papel de embrulho com a fotografia do autor como padrão, sempre era mais honesto. Devem pensar que os seus estúpidos quadros, esculturas, textos, tapeçarias... enchem a boca de alguém.
Paulo Raia sente que é observado, de forma mais insistente, vira o rosto, tenta analisar o alvo que está à sua frente. Aquele fato parece um colete de forças, ele odeia o típico conjunto "casaco e gravata", depois aquelas calças horríveis daquele tecido! Bah! Alguma coisa se compara a uns Jeans? Aqueles sapatos?...Com graxa? Huh! Ainda para mais com uma horrorosa fivela de metal. Realmente alguém explicará a estas criaturas que o séc. XIX já acabou.
Uma imensa conversa de vulgaridade mediana de imensas formigas pré-formatadas domina aquele mundo. No fundo estão contentes com o que acham que é importante. Dinheiro, casa e uma boa mulher para exibir. Fazem aquelas festas ridículas, cujo objectivo é comer o mais possível, sem graça nenhuma, com todos "emparretados". Sempre as mesmas coisas, gestos, tanta previsibilidade que mete dó. Festas de família cheias de cadelas prenhas que exibem a sua prole em crescente expansão. Recitam os sucessos futuros de olhos fechados e afirmam o seu direito a ocuparem muito espaço.
Tem a mania que são muito práticos, eficientes, indispensáveis, fundamentais. Não sei qual será a profissão deste cromo. Talvez gestor, engenheiro civil, economista, contabilista... a aparência de todos é sempre igual e o que eles pensam não é muito diferente. Claro que há excepções, poucas mas há. Tecnocratas idiotas!
Chegamos à paragem de Saldanha, ambos levantam-se e colocam-se perto da porta. Ricardo Mendonça Real dá um encontrão acidental por trás, acertando ligeiramente na cintura de Paulo Raia, quando se preparava para sair. Pede naquele momento imensa desculpa, Raia exibe um sorriso sincero e diz que não tem importância. Saem pelos corredores da estação e diluem-se na massa anónima que percorre semelhante percurso.
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