
Sempre achei que a ficção cientifica é um filão com imensas oportunidades para a literatura. Apesar dos temas serem a respeito do futuro acaba por acontecer muitas vezes uma reflexão sobre o presente quotidiano.
Em escritos anteriores meus, criei e desenvolvi uma série de temáticas relacionadas com uma sociedade futurista. O herói e personagem principal chamava-se Milphos, jovem com 25 anos que era um morador no bairro de Ulisséptia Sul. Não pretendo falar da personagem principal do universo que criei, neste caso irei apresentar antes algumas particularidades desse mundo.
Universo Milphiano
Estamos no séc. 34 d.C . a humanidade é governada por um Estado Federal Mundial com larga autonomia. Vive-se um período de prosperidade económica, cultural, social. A humanidade curiosamente alcançou um sonho antigo mas que está a levantar questões pertinentes e começa a surgir como ameaça. O ser humano conseguiu alcançar a imortalidade!! Sim é verdade pelo menos até certo ponto. Prova-se ser possível a mente humana ser computorizada e preservar a memória de factos anteriores, capacidade de raciocínio, sentimentos... De modo que quando um ser humano está próximo da morte pode optar pela eutanásia de transferência digital onde a sua consciência será transferida para um totem computorizado familiar que está ligado à rede imortal mundial. Actualmente existe um sistema universal progressista e subsidiado pelo estado a que todos os cidadãos tem acesso.
As primeiras experiências de computorização da mente humana a um nível mais profissional ocorreram no séc 28, foram rudimentares tentativas, ninguém verdadeiramente acreditava verdadeiramente que existia uma real transferência de consciência, apesar de progressos interessantes na criação de inteligência artificial os erros eram incalculáveis. Frequentemente era necessário operações de correcção onde eram instalados kits de inteligência artificial estandardizados para não existir uma degeneração total, onde surgiam problemas graves de articulação de linguagem, confusão de memória assim como um processo de descontrole emocional.
Temos que ter em conta que a separação do corpo físico humano era traumática, série de sensações que experimentamos são causadas por causas químicas difíceis de reproduzir num mundo virtual. Seria necessário um estudo mais sério do corpo e mente humana para existirem intentos mais sérios para alcançar novas soluções.
Das iniciais experiências cientificas, passou-se posteriormente a um sistema privado de luxo ao alcance de alguns privilegiados. Os erros iam sendo corrigidos, mas surgiam doenças degenerativas graves que resultavam muitas vezes em amputação lógica, infantilismo troglodita, alucinação caótica, robotização forçada.....
Inicialmente o sistema era híbrido era necessário aproveitar o cérebro humano na sua extensão que era preservado através de dispendiosos processos, estando posteriormente ligado a um sistema neurológico nano-digital. Vários processos físicos e químicos tinham que ser reproduzidos mas os especialistas eram unânimes aquilo não era uma transferência simplesmente era uma proto-inteligência artificial vagamente baseada na personalidade de um antigo ser humano que estava morto.
O processo foi avançando com o tempo, perdendo a sua componente híbrida aos poucos. Após séculos de pesquisa a honra de criar um sistema que verdadeiramente funcionasse foi dada à equipa chefiada pelo Dr. John Kai Chek Roll. Há quase cinquenta anos que todos julgavam estar próximos da solução definitiva, mas pequenos defeitos engrenavam o sucesso final.
Numerosos progressos também tinham sido alcançados com a construção de andróides quase perfeitos baseados em sistemas híbridos. Havia no entanto uma pressão politica para que se apostasse de forma mais séria na computorização, a construção massiva de andróides levantava questões a nível do excesso de população, conflitos humano-andróides, atribuição de cidadania e direitos políticos em igualdade. O perigo de futuramente a humanidade ser dominada por estes cyber-humanos de gerações históricas anteriores mas com um potencial de crescimento demográfico fabuloso era ameaçador.
O facto de gerações humanas históricas poderem ser armazenadas em sistemas de computação e onde seria possível recriar a sua vida física através de realidade virtual ultrapassando inclusive as limitações físicas terrestres abria um leque de potencialidades fabulosas.
Em 3315 a administração do 1º secretário mundial Ross Pierre Santtos conseguiu a aprovação do Sistema federal mundial de computação preservativa humana, baseado num sistema privado que já existia anteriormente e que era usado pela maioria da população chamado Metanima Corp.
Desde então todos os seres humanos podem pedir uma ordem de eutanásia digital para poderem ser transferidos para o totem computorizado familiar. Esse processo ocorre quando as pessoas estão próximas da morte física ou estão sujeitas a graves problemas de saúde que prejudicam a qualidade de vida.
De salientar que apesar de estas entidades meta-humanas terem suporte e direitos em termos de lei não possuem direito de voto e em termos de actividade politica, militar e judicial é-lhes negado o acesso excepto em alguns casos autorizados. Existe a preocupação para que gerações passadas humanas não se perpetuem no poder condicionando gerações mais jovens. Há outras condicionantes mais especificas para limitar a área de influência que falaremos mais tarde.
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Dentro do Totem após o processo de desmaterialização e transferência existe um teste fundamental para saber se o processo funcionou bem. São feitas várias perguntas com uma monitorização apertada e um scanning profundo a nível da actividade neurológica. Só após passar o teste de consolidação obrigatório, processo que actualmente demora uma mês existem garantias que tudo está bem encaminhado, pois no caso de uma má transferência podem surgir doenças degenerativas que poderão inclusive levar à loucura e em última instância a uma ordem de apagamento por consentimento ou não. Apesar do processo ser bastante seguro são relatados alguns casos em anos posteriores de contaminação e posterior alastramento de doenças cyber-neurológicas de contornos imprevisíveis.
Depois existe um admirável mundo em aberto, dentro desse universo é possível criar num universo de realidade virtual uma nova aparência do corpo, fabricar objectos, aumentar a capacidade de memória, recriar paisagens, redesenhar novos mundos com novas linguagens, voar no espaço, experimentar sensações de prazer incalculáveis, refeições exóticas, assumir a forma de outros animais, iniciar viagens no tempo e visitar períodos da historia passados desde o tempo dos Romanos à Idade Média.....
As possibilidades em aberto são gigantescas a ponto de existir um agenda de exploração cultural que todos os dias lança novas propostas baseadas nas propostas mais interessantes dos membros mais dinâmicos, existindo inclusive um ranking com as opções mais populares. A equipa editorial da agenda tenta coordenar toda a informação útil, havendo em média uma lista de 500 propostas por dia das mais loucas às mais moderadas, são criados ainda vários eventos sociais como concursos, jogos mentais olímpicos, campeonatos, desafios paranormais, duelos cómicos, atribuição de prémios Cyber-Nobel.
Existem ainda revistas e jornais-vídeo telepáticos que permitem que seja possível todos estarem informados sobre as novidades da comunidade computorizada mundial mas também do mundo real.
Cada Totem incorpora os membros de uma família sendo que cada um está numa área denominada quarto que é o seu espaço individual. Por exemplo o Totem da família do Milphos tem alojada 20 pessoas as mais antigas ainda do tempo da Metanima Corp. A unidade computorizada consegue alojar até 150 pessoas, ultrapassado esse limite será necessário colocar um acrescento para aumentar a capacidade. Além dos quartos individuais, existem outros espaços públicos como corredores, fórum familiar, quartos de casal ou grupo.
O sistema operativo vital que corre no Totem da família do Milphos é o Homos Sapiens Digit 15.0 e o computador é um Genes-Patricius gama 334 que apesar de tudo já está um bocado desactualizado em termos de capacidades, em 3392 já existem máquinas em hardware e software com mais poder e potencial. O sistema operativo mais avançado é o Homos Ciberium-Plus 1.0 e modelo de máquina mais poderoso o Leonardo-Einstein 2.
A possibilidade de os familiares do Milphos mudarem para um novo Totem de raiz é algo em aberto mas existem muitos receios de que a transferência para uma nova máquina possam acontecer erros e em ultima instância contaminação da mente, pois afinal a pretensa imortalidade está longe de ser perfeita. A família em todo o caso já fez duas transferências de raiz além de vários acrescentos para aumentar a capacidade e fiabilidade do sistema. Sabe-se no entanto que os ancestrais mais antigos que estão computorizados através de testes clínicos e de rotina em alguns casos mostram sinais de velhice e mazela, tendo acontecido depreciações em áreas especificas. Claro que tudo depende dos critérios de qualidade e a verdade é que eles estão cada vez mais exigentes. A comparação com as capacidades das mentes computorizadas mais recentes é sempre muito depreciativa e cria muitas invejas.
Surgem também uma série de regras de sociedade para que possa existir ordem e uma saudável harmonia entre todas as partes. A rede imortal mundial permite a interacção entre os vários Totens familiares e tem inclusive jurisdição para actuar nos próprios espaços individuais se tal for necessário. Em caso de ser cometida alguma ilegalidade pode surgir uma ordem de "Anestesia Temporária". Tribunais de direito cibernético ou legal podem ser criados para derimir determinados conflitos.
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Milphos gosta muito de interagir com o bisavô numa série de actividades, para isso tem que conectar-se com uma ligação electro-neurológica onde mantém autonomia parcial mas consegue aceder ao quarto do bisavô e partilhar o imenso potencial do mundo virtual em que este está emergido. Adoram fazer imensas actividades desde: construir cidades, comandar exércitos, adoram especialmente fazer viagens ao passado e falar com grandes figuras da história, nesse caso modelos simulados que tentam reproduzir essas figuras com a informação existente.
Aliás o número de pessoas seduzidas pela realidade virtual de grau 9 é bastante elevado, havendo vários indivíduos que ficam dependentes e precisam posteriormente de tratamento.
Várias vezes existem convenções familiares e por vezes até convenções de família alargadas ou mesmo convenções regionais. O espaço reservado costuma ser o quarto de grupo ou fórum familiar. São combinadas actividades em conjunto como um Picnic gourmet de variante sensorial, visto no espaço virtual dos Totens não ser possível ingerir alimentos como na vida real é no entanto possível reconstituir o paladar dos alimentos a nível sensorial, ter inclusive a ilusão de digestão. São criados alimentos novos, assim como novas receitas que estimulam de forma intensa as sensações de prazer no cérebro dando uma imensa satisfação. Fazem as mais incríveis actividades desde passear pelos mais famosos jardins virtuais do mundo, assim como fazer visitas a galáxias distantes, lutar inclusive contra extraterrestres invasores em guerras de splash-ball e outras actividades inimagináveis.
As mentes computorizadas estão sempre em vantagem aos "reais" ligados, possuem uma linguagem própria com capacidade de criação e redefinição, frequentemente conseguem praticar milagres, ultrapassando todas as fronteiras de lógica, espaço-tempo, matéria, reconfiguração de software existencial, dilatação de egos, assim como na multiplicação de avatares seja em personalidades diferentes como inclusive em teses filosóficas diferentes ou pensamentos.
Existe uma arte mental designado por Meta-Filosofia cientifica neuro-cerebral de sabedoria criativa abreviada para Metafisica-criativa.
Existem vários graus que são estes por ordem crescente: Tutor, Mestre, Construtor, Engenheiro, Profeta, Deus, Sistémico, Galáctico, Universal, Infinitesimal.
Dificilmente um "real" ligado poderá aspirar a ser mais do que um Mestre e mesmo assim se tiver um historial com muitas horas ligado a realidade virtual e for um ser excepcional.
Uma mente computorizada alcança facilmente o nível de Construtor, uns mais rapidamente que outros. Saltar para Engenheiro começa a ser muito mais duro e é necessário muito esforço e treino, na maioria das vezes demora bastante tempo. A partir daí entramos noutra realidade apenas uma minoria muito reduzida tem capacidades para sonhar sequer estar à altura de competir.


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