segunda-feira, outubro 20, 2008

Diário universitário




11 de Março de 1999


De manhã não estudei nada, dormi até mais tarde mas ainda deu para escutar a cassete que o meu primo gravou do novo álbum dos Saint Germain.

No metro a caminho da estação de Cais de Sodré apanhei um pedinte que estava a cortar as unhas com um corta-unhas na carruagem, uma senhora de idade apanha com alguns fragmentos por cima do cabelo e queixa-se revoltada. Começam a discutir, os seguranças intervém e a disputa apimentada dilui-se numa cacofonia histriónica e incomodativa.

Na faculdade, pergunto na recepção se o meu cartão de estudante já está disponível. O director Ferro furioso por eu ter colocado a minha pasta em cima do balcão afasta-a colocando a sua no lugar onde anteriormente estava a minha. Fá-lo de forma lenta e incisiva soltando um urfo contido e sempre de olhos fechados. A minha pasta A4 preta de cartão fica na borda do balcão à esquerda, não manifesto reacção e mantenho-me afastado.

Vou comentar o caso com os meus colegas que como de costume estão a jogar matraquilhos no centro da sala de estar, perto da associação. O Hugo e a Sofia estão muito compenetrados no jogo basicamente nem ligam ao que eu estou a falar. O João e o Nuno parodiam a situação e avisam que futuramente poderei sofrer represálias, a contratação de guarda-costas poderá ser uma resolução interessante, visto a minha integridade física estar em perigo. A poderosa influência de António Ferro resultante dos seus contactos e reminiscências de ser neto do outrora poderoso líder do Secretariado de Propaganda Nacional de Salazar e também figura de proa da cultura portuguesa.

A Amélia aparece e agradece-me eu ter posado como modelo. Foi fundamental ter posado com uma rosa em punho, a graciosa fotogenia da parte terminal do meu membro superior foi fundamental para a concretização de uma bela foto que seria usada na capa de uma publicação sobre o Partido Socialista da secção da Figueira da Foz. Mostra-me o livro já impresso, parece-me muito massudo, acho a paginação um bocado monótona diria que foi tudo feito a partir do Word.

Bem ao fundo lá está o Paulo sentado ao pé das mesas de sala de estar encostadas às janelas exteriores, a beber o seu cafézinho. Ainda está meio ensonado a cafeína ainda não entrou no organismo. Espirituoso comenta a ultima aula de história de arte e o seu desgosto a respeito do Crouchet de mexericos que esta foi, virtude da esgrouviada doutora a quem foi atribuída a missão de nos educar.

Eis que chega a Guida acabou de vir do Algarve e nem sequer teve tempo de ir ainda a casa. Senta-se ao pé de nós e comenta as peripécias da viagem. Mostra-nos qual o novo livro de Almada Negreiros que anda agora a ler. Ela é informada que foi coagida na sua ausência a unir forças com os "diabo a quatro", um trabalho ilustre terá que fazer para Técnicas de Reprodução Musealística que tem como ilustre educadora a grande professora "Janada".

Subitamente surge o Rui que vem vestido com o seu blusão de motard, o capacete no braço e a mochila às costas. Fez já a memória descritiva ontem à noite apesar de ter trabalhado também na gráfica do tio e ainda ter tido tempo para criar um anúncio que terá que ser colocado na revista Page. Invejável aquela produtividade nórdica, a pandilha latina na sua inactividade pachorrenta contempla o espantoso "action man".

A 1º aula que vamos ter é com a professora "Janada", apesar de estarmos sentados na sala já à algum tempo, ela só apareceu meia hora depois de ter ingerido um delicioso cocktail de narcóticos alucinogénos e psicotrópticos, mas desconfio que também foram usados barbitúricos de qualidade enganosa. O Rui e o Paulo observam o que se passa na aula com estupefacção, naquela anarquia criativa parece-se muito com uma taberna de uma tuna académica em erupção. A magnifica socialização onde seres humanos conseguem transcender-se num diálogo sã e equilibrado é fundamental para um crescimento saudável. Apesar de não estar directamente relacionado com a matéria, é comovente ver a cumplicidade da tutora que na sua inactividade zela pelos interesses dos pupilos que dão asas à sua imaginação em magnificas cavaqueiras inconsequentes.

No fim da aula o Paulo eufórico comenta que o nível de "jananço" hoje teve bastante elevado, 45º graus na escala Júlio de Matos. O Rui num gargalhar progressivo afirma que um bom Xanax poderia ter feito a diferença, numa cumplicidade maquiavélica continuam a cascar na pobre vítima sem piedade.

O João começa então com as suas brincadeiras de "agent provocateur", conhecendo os meus saudáveis impulsos heterossexuais, tenta fingir uns afagos"homo" porque gosta de ver o meu ar embaraçado e incomodado, tudo com o objectivo educativo de eliminar alguns traços de eventual homofobia subterrânea.

Acha piada às minhas reacções: Afasta-lo, dizer para ele ficar quieto, fazer cara de mau, empurra-lo, fugir dele... A sua demanda benemérita tem como objectivo a cristalização de mecanismos cínicos onde através de uma aparente relaxamento e abertura conseguimos dissimular os nossos sentimentos, no fundo o que ele pretende é que eu mostre uma atitude de maior descontracção e gozo ao brincar com a situação. Infelizmente sendo eu um bom conhecedor de literatura psicanalítica e psiquiatra, temo por simulações de actos falhados e comportamentos deambulatórios demenciais.

Depois das lições de "descontracção" mostra-me as fotos que andou a tirar. Adora disparar com a Nikon dele e tirar fotos por tudo e por nada. Tem já uma colecção invejável que vai guardando em álbuns, confesso que invejo a atitude dele em termos de experimentalismo e também a verba monetária que ele pode despender para tal desvario.

No corredor encontramos o professor Barbosa, inesquecíveis aquelas aulas que tivemos com ele a respeito do sentido existencial do Design, nelas percebemos que Design não é Arte, não tem que ser como a Arte, não tem os mesmos objectivos que a Arte mas o bom Design é uma peça de Arte. Fantástico aquele ar espontâneo dele, parece que acabou mesmo de sair da rua onde esteve a dormir, aparecendo todo despenteado, barba por fazer, roupa por passar a ferro, aquilo não é para todos é mesmo só para alguns.

Vamos para a aula de outro Barbosa, este o professor Roberto Barbosa nosso distinto mestre na cadeira de fotografia. Trata-se de um senhor, o seu carisma mastigado com o seu poderoso trato fácil, tornam-no num grande comunicador que devido à sua afabilidade conquista o coração de todos. No fim só não pedimos um autografo por vergonha, inesquecível a forma carinhosa como trata dos alunos por João ou Maria.

Numa sala de fumo encontramos o Nestor e o Rui (bigode), estes discutem acaloradamente uma estratégia para o extermínio final da nauseabunda raça "panilas".
O João no seu voluntarismo abraça fortemente o Rui (bigode), provocando-o com alguns afectos pseudo-gays. Este reage violentamente já começa a ficar furioso dessas brincadeiras, saca do seu navalhão e avisa-o que para a próxima terá de entrar em acção. Já é heresia simular essas macacadas anti-naturais, ele que ganhe juízo na cabeça, um bom macho de família não faz dessas coisas.

Vamos então assistir à aula de Técnicas de Realização Vídeo do professor "Bean", este é chamado assim devido à sua semelhança física com a célebre personagem de humor britânico.
Sempre muito concorrida, chegam a faltar cadeiras para as pessoas sentarem-se, aparecendo inclusive alunos de outras turmas, a sala apertada torna-se um forno. Nesta aula vamos ver alguns anúncios de publicidade e de como a sugestão de imagens subliminares pode ser maquiavélica e subversiva.

Estou sentado ao pé do Paulo e da Mónica, o Rui (motard) como sempre está na fila da frente onde tem uma boa panorâmica. O Hugo, Sofia, João e Nuno estão na fila atrás em alegre cavaqueira. A Amélia está a curta distancia de nós, comenta com ar muito preocupado que tem que conseguir fazer o trabalho de projecto o mais depressa possível, nem sabe se vai dormir com as preocupações, aproveita para pedir a outras colegas para ver outros relatórios para analisar. Alguém comenta que viu a antiga professora de Design Gráfico do 2º ano, Amélia escandalizada afirma que tal criatura é uma depravada, jamais esquecerá o inundo conselho que esta lhe deu em que afirmava que os homens são escolhidos pela aparência e depois futuramente é que se vê melhor o que eles tem lá dentro na cabeça. Pior de tudo foi aquela descrição de sexo lascivo e como as mulheres devem abusar dos homens sem piedade para os manter na linha , simplesmente horripilante o que "essa" suposta professora não devia ter dito.

O Paulo atira uma risada sarcástica, afirmando que aquela miúda é muito sabida, detrás da sua máscara de inocência tonta esconde-se um cinismo calculista de grande alcance. O Francisco chega atrasado à aula, vai sentar-se ao lado da Mónica, pergunto-lhe porque não apareceu às outras aulas. Responde que acordou tarde por isso não conseguiu vir a tempo e depois teve a despachar trabalho do relatório de História do Design Gráfico. Diz-me que esteve a ouvir o CD que lhe emprestei do último álbum de John Spencer Blues Explosion e que gostou muito, estando já a investigar a restante discografia da banda.

Tanto eu como o Paulo desenhamos nos cadernos vários tipos de rabiscos. Reparo com atenção que ele escreve Devil love Janada onde aparecem vários corações desenhados em chamas. Pergunto-lhe quem é o Devil. Responde-me que talvez seja apenas o D'vil com uma enfática carreta assustadora onde tenta tapar os dentes de forma forçada, o que provoca uma risada mútua.

Pouco depois chega o Brajal e a "Sushi", vem atrasados, ele aparece de joelhos a implorar pelo amor da sua donzela. Desesperado diz que não irá levantar-se até que ela corresponda aos seus desejos que arremessados num quarto frio e escuro pela indiferença dela, estão prontos a ser impulsionados, qual jacto de "champagne" projectado em alto voo.

O João é solidário com o sofrimento do seu amigo Brajal, custa-lhe muito vê-lo a sofrer assim. Emotivo e dedicado vai fazer lobby junto da "Sushi", apelando aos bons sentimentos humanos e destacando as numerosas qualidades do confrade. Nada comove a inflexível senhorita que enfaticamente afirma que não há pão para malucos.

Pouco depois uma Auxiliar aparece à porta a chamar o professor"Bean", este furioso escuta algum sussurro dos alunos e danado dispara a seguinte declaração.

"Sim!!! Sou parecido com o Mister Bean!!! Escusam de estar sempre a dizer a mesma coisa pelas costas!!! Tão satisfeitos!!! Espero bem que sim!!! Fogo! Não sabem falar de outra coisa?"

Fixa-nos bem numa expressão intimidatória e acaba por sair fechando a porta, indo posteriormente atrás da Auxiliar.

A turma explode perante tal surpresa estonteante, todos comentam o insólito desenlace em plena maré de ruído e descontrole.

Eu, Nuno (Vieira), João, Hugo vamos acompanhar a Sofia ao barco que ela tem que apanhar no Terreiro do Paço para ir para o Seixal. Ainda é um trajecto longo mas não nos importamos com isso. A fazer palhaçadas e a conversar tudo desliza e não sentimos nenhum esforço que não compense o nosso convívio. João volta a atacar com os seus ataques pseudo-gays então eu aborrecido desafio-o a fazer o mesmo a um Body-builder que está encostado perto da porta de entrada do edifício de escritórios. Tem um ar possante, barba mal feita, respira testosterona por tudo o que é sitio. Equipado com um um bom par de triceps e biceps, exibe uma força aparente, altamente intimidatória. O casaco de cabedal preto, o cabelo com gel e as botas de cowboy dão um aspecto pitoresco.

O Hugo entra também no jogo e aposta que ele não tem coragem suficiente para arriscar dar uns carinhos fofinhos no desconhecido porque o que lhe aconteceria a seguir seria um processo de trocidamento sanguinário. Fazemos então um coro agoirento ( Eu, Hugo, Sofia e Nuno) onde mal dizemos o cobardolas e venenosamente o picamos sendo este, uma pobre vitima que está à nossa mercê. Surpreendente, ele aposta 4 contos como consegue dar um abraço carinhoso com muito amor naquele portentoso Minotauro.

O mais espantoso é que depois de ter sussurrado algo ao ouvido da besta, esta aceita sem resistência um sentido afago com aquela ternura que sabe tão bem. Se uma mosca entrasse nas nossas bocas escancaradas não teria sido uma surpresa. Ele avança em nossa direcção e pede a cada um de nós que pague o que lhe devemos. Todos contribuímos com mil escudos, que totaliza a verba em divida, caminha em direcção ao mastodonte e dá-lhe os três mil escudos previamente combinados. Para cúmulo, O paneleirão do Adamastor dos músculos ainda se mete connosco.

" Vocês são mesmo tótós!!! Por mais dinheiro eu até a minha mãe comia!!! Ahhhh!! AAAhhhh!!!"

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