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Sérgio Santos tenta convencer D'Vil a publicar um texto sobre o "Pé de gesso", personagem peculiar que ele conheceu no tempo em que estudava no IADE. D'Vil mostra-se indeciso e receia não estar à altura de tamanha tarefa que exigirá um grande esforço sobre-humano. Sérgio Santos refere que esta é a oportunidade que o amigo sempre esperou, o prémio Nobel pode estar já ao virar da esquina se ele criar uma grande e portentosa obra que respire alma. Um coro de amigos e conhecidos cria uma claque e todos os dias vão tocar serenatas de apoio por baixo da janela da casa dele. Convidam inclusive várias tunas do meio académico nacional que com juventude e irreverência improvisam poderosas canções de apelo que tocam no coração do sentimental marquês. Este chora inclusive algumas lágrimas de emoção, comovido com tamanha prova de apreço.
Determinado resolve avançar mesmo tendo pouco tempo livre. Passa horas no computador a escrever e a reescrever, sempre insatisfeito cria várias versões. Faz anotações, sublinha palavras que acha que pode substituir. Pesquisa a gramática e o dicionário de forma insistente, muitas vezes furioso destrói o que construiu anteriormente, insatisfeito exige cada vez mais de si próprio. Vai entrevistar antigos colegas que conheceu no IADE e pergunta-lhes qual a opinião deles a respeito do "pé de gesso", chega mesmo a contratar detectives particulares para descobrir o paradeiro de tal folclórico cromo.
Ao iniciar a entrevista previamente combinada, olha o personagem, não parece a mesma pessoa. Está magro, vestido com Armani, usa botões de punho dourados, perfume sóbrio de grande nível, teve aulas de dicção e inclusive está quase a terminar o doutoramento. Além de ser professor universitário, trabalha na direcção de várias empresas com renome no país.
D'Vil questiona-o sobre o período em que ele esteve inscrito como aluno na faculdade. Porque vestia sempre meias brancas? Porque usava perfumes pindéricos? Porque gostava de tomar a iniciativa de organizar jantares de turma? Porque tomava iniciativas de sedução agressiva para com as colegas femininas da turma? Porque tinha conversas sem nexo reveladores de um intelecto inferior? Porque usava aquela t-shirt foleira a dizer "Emagreça, pergunte-me como"? Porque se inscrevia na escola? Faltava a maior parte do tempo e depois no ano a seguir voltava a inscrever-se? Para ver se a turma tinha meninas inocentes disponíveis para serem devoradas pela vedeta internacional especialista no "pergunte-me como"?
Após ficar uns momentos trémulo, "o pé de gesso" transvestido levanta-se de forma aristocrata coloca os braços atrás das costas, fixa-se a olhar para o exterior com atenção através da janela.
Refere então que foi um período em que andou confuso em busca do seu destino e cometeu alguns erros. No olhar trocista de D'Vil está subentendido a análise de que as pessoas podem mudar mas a Terra ser quadrado e não rodar à volta do Sol só pode ser uma ilusão elaborada ao alcance de David Copperfield e companhia.
Furioso por ver a sua máscara cair, saca de uma pequena pistola que guardava no casaco, três tiros silvam por baixo de um atarantado D'Vil que num acrobático mortal por trás consegue escapar ileso. Corre com alento de salvar a vida mas esboça ainda um sorriso pois num soslaio repara que o seu oponente continua ainda a usar meias brancas, afinal há coisas que nunca mudam.
As ameaças do "pé de gesso" em que o avisa que irá persegui-lo para o resto da vida não o intimidam, está decidido neste fim-de-semana termina finalmente o seu texto demolidor.
Desde a publicação no blogue tem sido uma espiral ascendente imparável, choveram desde propostas para a publicação do texto em livro , convites para palestras, criticas literárias muito favoráveis, viagens a feiras literárias internacionais e fala-se até já de traduções para língua inglesa com algumas editoras a manifestarem interesse.
Eis o texto original que foi publicado no blogue breviário.
"Saliências elásticas eram escrutinadas no grande fingidor, a singular meia branca estava lá, quiçá o uso de lixívia Neoblanc tivesse sido com maior intensidade usada e mais branco veríamos.
O mau hálito era uma seara no crepúsculo que gesticulava fedor, disforme a fera era horrenda. Abstracta ignorância na articulação dessincronizada do exaspero fúnebre da decadência com caspa de palavras e pulgas de nojo.
Enlouqueço com o assédio imbecil do corcunda que se estica, oportunamente o belo espécime mira o caçador capado que revolta meio cérebro quando sonha que poderá agarrar as saltitantes raparigas.
Essas exasperam com a mórbida carcaça que as persegue, alterados estados de consciência definham em terror avançado, todas as desculpas são atiradas pois não existe tempero cósmico para tal amorfinamento. Quando livres comentam a ousadia do díptero , que mil bigornas ferrugentas caiam em cima daquele cão imaterial que desafia as directivas do bom senso e da boa figura.
O tédio circundante das definições aborígenes da criatura lançam as suas vísceras nauseabundas naquela T-shirt de estagnação epistemológica que na sua mensagem pueril induz uma sucção inebriante de estupidez atroz. "Emagreça, pergunte-me como." Oh! Fulminante demência esventrada! Onde andam as armas que abatem as bestas desfocadas?
Quantos cursos precisas para espantar tuas maleitas? Deambula-te nos canaviais, o teu torpor angustiante e impotente nunca levará a carta de alforria munida de rebuçados e centrifugaria. Treme aqui dentro, bem podes atirar-te às manadas, a tua salvação resulta num esborrachamento feliz e quentinho em estradas pisadas.
Atirem a primeira pedra que a última já caiu, peguemos na faca da triagem vomitada, um espasmo prescrito será garantido, aí o insonoro esguiço estilhaça a aragem."
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