domingo, novembro 30, 2008

Injustiça


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Miguel Alcoito nunca teve uma existência fácil. Nasceu numa família numerosa, de fracos recursos económicos. Tinha no total quatro irmãos, que viviam numa casa minúscula para tanta gente. Desde o principio tudo se abatia sobre ele, como se fosse o bode expiatório da família condenado a um atroz sofrimento e punição.

A família era um conjunto de forças caóticas onde ecoavam gritos, irracionalidade, estupidez pura, mentalidade arcaica, atavismo, dominação. A mãe sozinha tinha que tratar das crianças enquanto cozinhava e arranjava a casa fazendo trabalhos de limpeza noutras residências no escasso tempo que lhe restava. O pai egoísta refugiava-se no álcool com os companheiros da taberna, fugindo sempre que podia da família que o envergonhava. Quando estava em casa as discussões eram intermináveis, as recriminações, as agressões eram constantes. A mãe danada das imensas agressões a que a sua vida era sujeita, descarregava a sua frustração em gritos acusatórios como labaredas em chama.

O pai quando as discussões atingiam determinado limite e já não tinha paciência nem argumentos para a luta, enveredava pela agressão física. Tentava manter a autoridade e o respeito pela única arma que lhe restava: a força física. Chegou a partir uma cadeira nas costas da mulher, esta exibia já no corpo diversos hematomas, cortes, várias costuras.

Algumas vezes foi necessário ter auxilio hospitalar, sempre que lhe perguntavam o que lhe acontecia refugiava-se em desculpas mal amanhadas. Aceitava a sua vida com passividade, afinal o ser humano veio ao mundo para sofrer e qualquer mudança só pode ser para pior. Mal por mal, que vivamos no mal que conhecemos.

Tantas vezes a mãe lamentava a sua desgraça dizendo que ela era a mais infortunada de todas e que Deus a amaldiçoara, dizia-o em lamentos chorosos de pleno desespero.

Miguel era o irmão mais novo e também o mais infortunado de todos. Quando nasceu a família estava num processo de destruturação muito acelerado. Já ninguém limpava o pó, aspirava a casa ou sequer disfarçava as teias de aranha, as rachas abriam-se nas paredes e a pintura já estava desbotada.

Berros, gritos, puxões, recriminações, dominação tudo era usado como arma por uma matriarca que lutava por fingir que educava a sua prole, supostamente sangue do seu sangue. No fim era apenas cancro do seu cancro.

Era difícil ela estar a cozinhar, enquanto os miúdos se dedicavam a brincar com o lixo espalhado no chão, engolir molas, baldear ainda mais as roupas espalhadas no chão, desrespeitarem todas as normas de higiene, sujassem o fato, andando mal aparentados com os cabelos oleosos e os dentes podres.

Em ultima instância a responsabilidade era dos pais, mas eles apreciavam mais culpabilizar os filhos da sua desgraça, como se o conhecimento e a educação surgissem de geração espontânea.
Passavam mais tempo a culpabilizar o destino, a sorte, o azar, enfim os outros, porque a culpa é sempre dos outros ao de alguém que não se pode identificar.

Depois gostavam muitos de se exibir com os vizinhos falando sem reserva e sempre de forma emotiva, das numerosas dividas que Deus e a humanidade tinham para com eles. Eram uns imensos mártires que deveriam ser consolados com a pena dos outros que diriam com humanidade e compaixão "Que coitadinhos eles são!".

Magníficos exemplos de um miserabilismo fresquinho e bem nutritivo.

Nisso tudo onde entra afinal o Miguel? Bom o pai descarrega na mãe, esta nos filhos e todos eles descarregam no Miguel. Afinal o benjamim da família veio tarde de mais e apanhou todos já fartos de todos, no auge da desgraça.

Nunca teve nada, não bastava os irmãos roubarem-lhe os brinquedos, estarem constantemente a empurra-lo, gozarem com ele, também os pais olhavam para ele como mais um estorvo que surgia claramente fora do prazo da validade, fazendo com que as sardinhas na lata de conserva ficassem ainda mais encurraladas no exíguo espaço disponível.

Em bébé chorava muito, não deixando os pais dormir decentemente. Desde aí surgiu um espírito vingativo dos progenitores que se iria avolumar ao longo do tempo. Depois como ele sujava muito as fraldas e isso dava muito trabalho, começavam a berrar com ele e várias vezes davam pequenas festinhas no rosto que com o tempo se tornariam portentosos bofetões sem piedade.

Era difícil ele comer as refeições, o estômago dele era sensível. Aos gritos ameaçadores, várias mãos que forçavam a pequena boquinha a ficar aberta enquanto eram descarregadas fornalhas de alimento naquele estorvo pestilento. O choro era agoniante e onde já faltava paciência, restava apenas uma desconsideração que nunca foi amor, pois era o desalento de tudo, de quem não acredita em nada e quer que este filme termine rapidamente.

Como gritassem muito com ele começou a reter a urina e as fezes e isso criou problemas no estômago, intestinos e na bexiga. As primeiras palavras que aprendeu foram "mau", "feio", "porco", "chato". Tinha também problemas de falta de ar e por várias vezes a mãe desejou que ele morresse e acabasse logo ai o pesadelo dela.

Demorou muito tempo a aprender a falar, todos pensavam que ele era atrasado. Executava movimentos muito lentos e os irmãos impiedosos divertiam-se a atira-lo ao chão gozando com a estátua inerte. Era um clamor trocista ácido onde ecoavam expressões como: "Porcalhão lerdo toca a mexer!!!" , "És mesmo uma porcaria!", "Vá mexe-te!", "Olha para a cara do anormal!", "Vomita mais estorvo!", "Mesmo estúpido!", "Rançoso da treta, vá chora mais para a gente ver!".


Os pais longe de o defender, ignoravam-no e acusavam-no dele ser um maricas cobardolas sem personalidade que só causava problemas e afazeres. O pai dele chegou a insinuar que ele talvez não fosse filho dele mas do maneta leproso que jorrava em vinho na taberna e era um claro atrasado mental.

Qualquer tarefa que lhe fosse confiada, Miguel acabaria por falhar, era tanto o medo do castigo que ele não aguentava a pressão e auto sabotava-se de forma inconsciente. O pai exasperava-se com ele, parecia que o gozava de propósito, sempre trapalhão, sempre a errar.

Ninguém o defendia, ninguém o acarinhava, sentia-se sozinho, desolado, traumatizado.

Toda a gente tinha vergonha dele e desejavam esconde-lo, nunca iria para a escola, também ia ser mais um repetente estúpido que não passa da cepa torta. Miguel começou a ter ataques epilépticos, sempre que aumentava a pressão sobre ele, atirava-se ao chão, começava a morder-se, com os pés batia nas paredes, atirava moveis ao chão e dava saltos ameaçadores.

Mais o ódio aumentava, a família odiava-o, quanto mais o tempo passava mais problemas eram causados por ele.

Começaram a encarcerá-lo numa cela na cave, por vezes tinha que ser amarrado com correntes pois atirava gritos descomunais e pontapeava selvagemente a porta de forma abrupta. O corpo dele começava a ficar disforme e horrível, comia demasiadamente depressa e não mastigava bem. A barba deixou de ser cortada e dar-lhe banho era um pavor. A cela dele cheirava pessimamente, nas fraldas acumulavam-se as fezes e urina, o fedor acumulado ao longo de uma semana era hediondo.

Para darem-lhe banho, já nem o despiam atiravam-lhe baldes de água directamente no corpo ao apontavam-lhe uma mangueira de alta pressão. Cada vez tinham mais medo dele e abriam menos vezes a cela, quando o faziam eram várias pessoas armadas com matracas e pistolas eléctricas.

"Se ele morresse de cancro era tão maravilhoso!" Já ninguém tinha vergonha de dizer estas palavras, pois desejavam a morte rápida de tal percevejo que era mais um peso na miserável vida deles.

Miguel Alcoito tinha a idade de 23 anos quando o caso chegou aos jornais. Foi uma bomba mediática e tudo foi explorado até ao tutano, todos os pormenores foram contados e a indignação foi geral. Ninguém foi poupado desde a anterior assistente social acusada de ser conivente e inepta, aos próprios vizinhos insensíveis e cúmplices. A família essa então era uma cambada de malfeitores ignóbeis que envergonhavam a humanidade. O Pai e a Mãe psicopatas criminosos sanguinários sedentos de mal.

No tribunal os acusados defenderam-se disseram que lidavam com um monstro que infernizava a vida deles, destruía tudo e se ele não ficasse encarcerado teria morto inclusive centenas de pessoas inocentes. Inventaram uma história que ele era um perigoso assassino e durante a infância havia morto três pessoas, assunto que tentaram encobrir por amor fraternal. Era também um terrível canibal que comia restos humanos. Os vizinhos foram usados como testemunhas, todos pintaram Miguel como um horror, um lobisomem que era a vergonha da família e que eles coitados eram vitimas das circunstancias que nada podiam fazer com aquela desgraça.

O advogado da família atacou fortemente o Estado e as instituições responsáveis, dizendo que tudo isto era culpa deles. A condição social de extrema pobreza, discriminação a que eles eram sujeitos, falta de apoio das instituições competentes foram causadoras deste pavoroso resultado. A família era uma vitima do sistema, tentaram defender um dos seus, mas era um monstro horrível que desde que nasceu lhes fez a vida negra.

O colectivo de juízes condenou a família, Miguel, advogados, imprensa, todos os cúmplices que moravam no País e nada fizeram para alterar a situação, incluindo eles próprios . Todos tiveram pena suspensa e iam reflectir seriamente no caso e tirar conclusões.

O pobre monstrinho ficaria numa prisão de alta segurança para não importunar a tranquilidade de ninguém.

Nesse período ele já era um verme disforme que não conseguia articular palavras e exprimia-se por grunhidos e gestos. Epiléptico profundo, completamente inconsciente e a precisar de ser constantemente medicado. A maior parte do tempo passava-o amarrado a uma cama, muitas vezes com soro e precisava de um respirador pois tinha várias gangrenas no nariz. Coçava-se de forma insistente e tinha imensos equizemas e infecções na epiderme. Tinha o femur da perna direita com uma lesão grave de modo que coxeava quando andava em pé. Infecções intestinais eram constantes e um cancro grave no estômago germinava, qual agoiro final.


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