quinta-feira, janeiro 08, 2009

"Tabaco terror movie"





-

Estamos na faculdade,várias pessoas, o cheiro do tabaco fumeraja em grandes concentrações. Qual Lei do Tabaco qual carapuça. Algumas pessoas parecem incapazes de construir uma frase sem sugarem uma boa fumaçada carregada de saudável nicotina, talvez não se exprimam tão bem. O ruído de várias pessoas a conversarem ao mesmo tempo é uma imensa cacofonia, anarquia sonora. Sinto-me agoniado, fechado numa jaula, digo que vou sair para apanhar ar.

Ainda estou a tossir um bocado, preciso de desintoxicar. Com a porta entreaberta consigo ver os vários membros do clube de cinema que discutem apaixonadamente vários temas. Esta sala é péssima é muita pequena para tanta gente e com uma só janela aberta o ar não circula bem. A Filipa devora tabaco como se comesse tremoços, com uma gula tremenda. O nariz dela parece uma chaleira e expelir portentosos jactos de vapor tóxico. Ela é sempre assim muito nervosa, dir-se-ia que nasceu com stress.

O João fuma de outra forma, mais calmo e ponderado, tenta gozar a "passa" e frequentemente quando está a expelir o fumo, fecha brevemente os olhos parece um tique, por mais que tente não consegue esconder esse impulso. A Marisa tem uma atitude envergonhada, quando segura o cigarro fá-lo o pelas pontas dos dedos quase no limite, depois antes de enfiar o cigarro na boca parece fazer um movimento semi-circular muito lento o qual vai desaguar nos tímidos lábios dela, fica aí por muito pouco tempo. Acho que ela finge que fuma, aspira sempre pouco fumo no organismo e não parece ter um grande gozo quando o faz.

A minha família é orgulhosamente composta por não fumadores e a minha mãe várias vezes manifesta o seu orgulho por não eu não ser um suicida como o vizinho do 2ºB que chega a fumar cinco maços de tabaco por dia. Ela observa-o da janela da cozinha quando ele vem fumar à noite. Fica horrorizada com a gula desenfreada com que ele engole o cigarro, parece um drogado que chupa por uma palhinha balas afiadas de fumo. Chegou-me a dizer que ele engolia as cinzas do tabaco devido à imensa ânsia insatisfeita do vicio, contou-me que na escuridão por vezes ao olhar para a janela dele, tinha a impressão de ver as cinzas incandescentes no interior do pescoço. O movimento frenético com que ele articula o braço é desesperado, dir-se-ia que precisa de nicotina como precisa de respirar.

Às vezes gostaria que o tabaco causasse uma maior dor física, talvez assim as pessoas se conseguissem conter mais com tão desenfreado vicio.

A Filipa está a comentar o ultimo filme do David Fincher conversando com a Marisa e o João.

- O Brad Pit faz um papelão, só gostaria que ele por vezes fosse mais expressivo.



-O Brad será sempre um homem-objecto, por mais que se esforce nunca deixará de ter o mesmo estigma.




-
Bah! Estamos a falar do filme não se dispersem para outros temas, suas taradas! Ele já tem dona. Gostei imenso do filme, adorei a caracterização, estive inclusive a ler o conto original do Scott Fitzerald que influenciou o argumento.


-Que achaste é muito parecido?





-Sim o conceito é semelhante, mas passa-se noutro período de tempo. No filme existe uma influência clara do Forrest Gump, aliás o argumentista nem o negou.




-Arggggghhhh.....Ahhhhh.....ahhhhh....



Naquele momento a Marisa parece que ficou engasgada, no entanto não consegue parar e todos começam a ficar preocupados. A Filipa e o João aproximam-se dela, tentam bater-lhe nas costas, dizem para ela acalmar-se. Toda a gente da sala começa a olhar para ela, preocupados. Começa a ter espasmos violentos, os braços nervosos mexem-se em vários sentidos. Nota-se de forma acentuado um crescente desespero nos olhos dela. Ela não aguenta as contracções e cai da cadeira para o chão. É incapaz de articular discurso, soam assustadores aqueles monossílabos da vitima acossada, dir-se-ia que engoliu o pavor.

Nós todos estamos desesperados, não suportamos o sofrimento da nossa amiga, estamos paralisados incapazes de raciocinar. A Ângela agarra a Marisa e tenta abraça-la pedindo-lhe para ela se acalmar, pede-lhe por favor. Várias pessoas tentam agarrar a Marisa, os espasmos aumentam de violência, ela está a expelir sangue. Pior do que isso pedaços de carne ensanguentada caem para o chão. O pânico alastra, começa a existir choro desenfreado. O Francisco vai a correr chamar uma ambulância. Os gritos são agora intensos, cada vez mais fortes, agoniantes. Um turbilhão ameaça explodir, apesar de estar agarrada, oscila alucinada. Ganidos assustadores saem de um rosto em fúria, numa electricidade epiléptica os pulmões explodem do corpo entre estilhaços de restos humanos espalhados na sala. Jarros intensos de sangue correm, criando uma imensa poça, Marisa finou já não é uma pessoa.

Um pavor atormentado alucina-nos, o nosso silêncio é tanto paralisia como lamuria eminente. Começamos a abraçar-nos em busca de um conforto passageiro, tentamos negar a realidade, alguns abanam a cabeça. Não devia ter acontecido, mas é verdade e é tudo monstruoso! São lágrimas tumultuosas, desespero e muita incompreensão.

A Sílvia nunca largou o cigarro, com os olhos contorcidos de repugnância ao olhar para o corpo desfigurado engole um furioso trago, uma satisfação de prazer. Está imensamente concentrada, séria, apreensiva, paralisada por um mundo enlouquecido que nunca viu.

-Rghhh...humm..hhh...


Subitamente o rosto dela começa a ficar branco de um medo premonitório, aquele ligeiro engasgo contido temporariamente estoura. Num turbilhão ela é dor, os olhos avermelhados sintoma de uma prisioneira condenada. Em agitação demoníaca os esguichos de sangue surgem rapidamente. Eléctrodo em sobrecarga, descontrolado num agitar sem sentido. Ahhhhhhhhhhhhhhhh!!!.... Afunda-se dolorosamente no chão, os poucos que a seguram vem o sangue a correr a jorros das costas, qual rombo incontido. Os pulmões fraccionados são dispersos, quais entranhas hediondas que nos esganam em repulsa.

Não! Não! Não pode ser! Subitamente ao olhar para o Fernando e o Dinis que indiciam os mesmos sintomas, todos começamos a perceber. É o tabaco que nos está matar! Ai! Não pode ser! Não!....Ahhhh!.... Momentaneamente concentrados, principiamos uma corrida desenfreada, todos se dispersam como que a quererem fugir ao seu destino, é a loucura!!!!

Não vejo nada! Não quero ver nada! Não sinto a minha respiração desenfreada. Ai quero sair daqui! Deflagrações dolorosas de ruído lancinante ecoam por todo o lado num turbilhão continuamente avassalador. Reconheço as vozes deles, estão perdidos, devorados por mil germes, eles são pó dizimado. O João que vinha a correr ao meu lado tomba, entre salpicos derramados qual destroço deflagrado. A Ana escava-se em coices dolorosos, os olhos em órbita são uma imensa amargura. Filipe, Miguel, Ricardo, Jorge, Dina, as vozes deles escuto e a dor também. Quando extravaso a porta em direcção à rua, na minha corrida doida espalho-me no chão, descontrolado, arrebatado no meu incomensurável esforço de sobreviver não se sabe bem de quê. Tento recuperar o fôlego, os meus olhos estão desmedidamente abertos, preciso de pensar.

Começo a tossir, contraio-me em dúvida, sinto um escorrer ardente, uma lava nojenta. Tento negar tudo. Não é! Não pode ser! Eu não..!
Não chega a avançar, sinto que passa mesmo, os meus olhos agigantam-se e o meu sobrolho alarga-se em alerta total.

Estou na calçada de cócoras sem força para me levantar. Várias pessoas aproximam-se , uma pequena multidão começa a juntar-se, questionam-me sobre o que se passou, sou incapaz de articular o menor discurso, naquele momento não quero existir. O burburinho aumenta, novos gritos ressurgem o pesadelo vai voltar.


O Vírus já foi baptizado de Arenaviridae Malignus Turbeculus, desconfia-se que tenha sido criado em laboratório resultado de manipulações genéticas. É completamente letal para quem tenha razoáveis quantidades de alcatrão e nicotina nos tubérculos e pulmões. Provoca a obstrução das saídas, podendo levar a que os pulmões inchem acima do tamanho usual, aumentando incomensuravelmente a bolsa de ar.

Extremamente contagioso, espalha-se por via aérea muito rapidamente. Naquele dia os meios de comunicação enlouqueceram, não falavam de outra coisa, a epidemia rebentava em força, ainda não se conhecia o vírus que causava o problema mas todos associaram de imediato o problema ao tabaco e ao acto de fumar.

Nos dias posteriores à tragédia senti imensos remorsos como se de algum modo eu fosse o responsável pelo que aconteceu. Não conseguia deixar de associar que os pensamentos anti-tabágicos que tivera quando saí da sala do clube de cinema foram o detonador de uma hecatombe que descambou num assustador turbilhão vingativo.

Ironicamente até existia a possibilidade de ter alguma culpa, passo então a explicar. O tal vírus é multi-resistente e pode ficar hospedado durante muito tempo nos pulmões de indivíduos não fumadores sem causar problemas de maior. Indivíduos fumadores que tenham medianas e grandes quantidades de alcatrão e nicotina nos pulmões estão em perigo porque o vírus em contacto com esses elementos sofre uma estranha mutuação que acelera a multiplicação e a agressividade, sendo que os alvéolos pulmonares vão ser fortemente atacados. O crescimento é fabuloso o organismo não consegue responder a tempo, a propagação ocorre em minutos de forma letal e destruidora.

Isso significa que existia a hipótese de ter sido um dos hospedeiros do vírus, visto na faculdade o primeiro caso de propagação ter acontecido naquele momento no clube de cinema. Nos primeiros dias ainda não se sabia bem qual era a causa, mas várias especialistas alertaram que deveria ser um agente patogénico a causa de tal epidemia. Quando foram feitos testes de despistagem não tinha nenhum vestígio do Arenaviridae Malignus Turbeculus no meu organismo. Já tinha passado no entanto quase um ano desde a tragédia e pensa-se que apesar do vírus ser muito resistente se ele não sofrer a mutuação dentro de um certo espaço de tempo irá tendencialmente definhar.

Alguns fumadores conseguiram escapar ao ataque devido ao facto de terem menos alcatrão e nicotina nos pulmões e a outros factores que não estão ainda bem estudados. Em todo o caso sofreram danos graves estando hospitalizados e necessitando da ajuda de um respirador.

Muitos não-fumadores também foram afectados pois ao conviverem no dia a dia com o fumo do tabaco acumularam elementos tóxicos nos pulmões que acabaram por ser fatais.

Tudo isto é um horror para mim, posso ter sido o mensageiro da morte que matou os seus companheiros e amigos. Nada disto é justo, eles não mereciam isto, o sofrimento deles foi atroz e eu assisti a tudo. Sinto que vou ser remoído pela culpa e nada posso fazer, adoraria descobrir um novo bode expiatório, alguém que tivesse sido sem dúvidas o hospedeiro que trouxe a matança para o clube de cinema. Não o deveria confessar mas infelizmente é o que eu sinto, preciso urgentemente de repartir o peso com outros e ter um alivio que me liberte deste lamaçal inundo onde me afundo.

:::

Sem comentários: