quinta-feira, maio 15, 2008

Inveja 3


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-Sabes neto, as coisas não são assim tão lineares. A critica é que a inveja portuguesa centra-se num certo desejo que os outros falhem para não nos sentirmos tão falhados, se na corrida da vida uns estão mais à frente eles devem ser fuzilados por Deus, pois devemos ser todos nivelados por um Nacional-Porreirismo de mediocridade comum.

-Os supostos hipócritas vencedores tem medo de abutres?

-O sucesso é tão efémero, qualquer mosquito a voar entra nas nossas narinas e mata-nos de sufoco.

-Foste mauzinho avô, a igreja católica é assim tão culpada como a pintaste?

-A igreja católica moldou a nossa personalidade assim como de outros países da Europa, infelizmente por falta de concorrência e dinâmica social teve um poder forte e duradoiro.
Conceitos teológicos de igualitarismo, defesa intransigente da humildade enquanto ausência de ambição, diabolização do lucro, controle produção intelectual, síndroma da ama acompanhante .... claro que também teve méritos que não devem também ser branqueados.

A inveja portuguesa que não sei se será pior noutros países ao mais claustrofóbica, provavelmente queixamo-nos porque falamos do nosso quintal.

Nota-se na génese da cultura popular gosto por o povo ser dirigido, em troca da fidelidade recebe conforto e segurança, em tempos foi o Rei e a Igreja.

O fiel rebanho deve mexer-se ordenado, sem grande ondas nem devaneios individualistas. Basta ler livros históricos para ver como quem se destacava era logo vitima de censura social, o que revela algum provincianismo da nossa parte.

Na contemporânea sociedade liberal e capitalista, pedem-nos que façamos o inverso do que sempre fizemos. Existe um período de adaptação, em todo o caso nada é infinito, tudo muda.

-A inveja existe em todos os países, nos Estados Unidos os vizinhos odeiam-se quando sabem que o outro tem um melhor carro, uma mulher mais bonita, uma família mais feliz, um novo aspirador....

-Sim o capitalismo estimula a concorrência e a cobiça de bens materiais e os conceitos a eles associados. Surge uma tensão dessa luta e um stress em manter um status.

Fenómenos que ocorrem em Portugal e não muitas poucas vezes.

Estamos a sair da Inveja Provinciana de desvalorizar o sucesso dos outros pela nossa inacção, associando o triunfo dos outros a comportamentos mafiosos , para saltarmos para o capitalismo selvagem do sucesso a qualquer custo e do exibicionismo primário em contraste com a antiga humildade católica.

-Afinal o novo mundo não é assim tão bom. Talvez até seja pior e mais doentio.

-Temos que ir netinho, ainda tens que ir fazer os trabalhos de casa e arrumar o quarto.

-Tu prometeste que depois iamos jogar na playstation aquele novo jogo "Bloody Money Wall Street".

Os dois afastam-se do jardim, com o avô a coxear ligeiramente.

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Inveja 2


-Perguntas-me se Portugal é um país de invejosos? Bem netinho muitas pessoas dizem que sim.

-Porquê?

-Portugal é um país periférico, com fracos recursos e desigual.

A igreja católica influenciou muito a mentalidade portuguesa. Ao longo dos séculos a sua influência desencorajou o individualismo, a riqueza material.

Sobre o manto protector da autoridade respeitável terrena e divina, a grande igreja mantinha controle sobre todos, exigindo regras normalizadoras e igualitárias.

Ainda hoje nas regiões mais interiores do país a opinião do clero é tomada a sério nos assuntos mais insignificantes, revelador do poder e prestigio de outrora.

Posição monopolista, inquisição a novas ideias e conceitos afunilaram a sociedade portuguesa e prejudicaram o desenvolvimento económico e social do país em relação a outros países no passado.

Claro que o facto de geograficamente sermos um país periférico e longe do centro também ajudou e muito.

A inveja também pode ser definida como uma vontade frustrada de possuir os atributos ou qualidades de um outro ser, pois aquele que deseja tais virtudes é incapaz de alcançá-la, seja por incompetência, limitação física, intelectual.


Os indivíduos disputam poder, riquezas e status, aqueles que possuem tais atributos sofrem uma reacção dos que não possuem, que desejariam possui-los , isso em psicologia é denominado formação reactiva: que é um mecanismo de defesa dos mais "fracos" contra os mais "fortes".


Quando muitas vezes escutamos pessoas queixarem-se da inveja do país são indivíduos que estão de algum modo a ter sucesso e de forma consciente ao inconsciente sentem uma pressão negativa dos incapazes que estão espreitando uma oportunidade para os deitarem a baixo e roubarem o que é deles.

Sentem também um ar antigo de uma moral que lhes diz que o que fazem é pecado e que perante Deus todos são iguais e não devem tentar destacar-se muito se o fazem, fizeram um pacto com o diabo ou algo ilegal e batoteiro.

- Resumindo a culpa é da igreja, temos uma minoria de competentes com sucesso e como somos um país pobre, lutamos todos pelos mesmos tachos sendo os perdedores uns incompetentes invejosos que querem roubar os outros? É isso avô?

-O problema é um pouco mais complexo que isso. Existe uma pequenez de recursos de lugares disponíveis, no fundo faltam oportunidades para todos no país.

A Holanda, a Bélgica mesmo sendo países mais pequenos que o nosso, são socialmente mais dinâmicos , respiram mais vitalidade.

Por muito que queiramos o passado controla sempre as nossas vidas, não podemos fugir dele.

Muitas vezes sentimos que quem está em lugares de chefia, destaque ao relevo não são os melhores; isso acontece em vários países, essa insatisfação não acontece só aqui.

-Mas a inveja que se queixam os denominados vencedores não é apenas medo da competição? A sociedade portuguesa não terá um défice de confronto de ideias?


(continua)

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