Francis Bacon, Barão de Verulam e Visconde de St. Albans (21 de Janeiro de 1561 - 9 de Abril de 1626), foi um filósofo, estadista e ensaísta inglês.
01
"As esposas são amantes dos homens mais jovens, companheiras para a meia-idade e amas para os velhos"
Creio que fiz a escolha certa, ao fim de tantos anos de casado, sinto-me satisfeito na minha pele. São já 87 anos dos quais felizmente tenho poucos arrependimentos. Não direi que todos os momentos foram retumbantes festivais de felicidade mas consigo fazer um julgamento francamente positivo dos êxitos que alcancei na nossa relação.
Desde que ela chegou com tenra idade à casa dos meus pais, achei que me pertencia. Na nossa mansão aristocrata, existe uma criada para nos servir, eu o filho varão da família reclamo todas as posses da minha honrada dinastia que são minhas com orgulho. Recusou-se à minha vontade, de pouco lhe serviu, um homem reclama o que é dele e há-de ter de sua justiça. A choradeira dela de nada lhe bastou, apenas ganhou roupas novas para substituírem as velhas rasgadas.
Quando casei, obedeci a um contrato de conveniência arranjado pela família. A minha verdadeira esposa foi sempre aquela que eu escolhi, mesmo que encoberta pela sombra. Na mesma casa eu via-a todos os dias e ela honrava-me. A outra era a oficial, nunca a compreendi, nem achei que deveria perder tempo por isso. Nunca tive filhos dela e da sua saúde instável para além dos infortúnios desse problema; a única vantagem que poderia advir desse facto era a possibilidade de ela se finar rapidamente e eu ficar liberto de preocupações e aborrecimentos.
A minha verdadeira esposa cuidava de mim e tratava das minhas mazelas preocupando-se comigo. A organização do espaço doméstico frequentemente estava em sintonia com as necessidades do meu espaço pessoal. Nas noites em que nos aquecemos vários filhos tivemos, eram bastardos mas educação tiveram e eu acompanhei todos os passos que deram. Apesar de tudo tinha em conta a sua opinião embora mantivesse o teatro das formalidades, ela era a minha companheira onde longe de todos verdadeiramente convivíamos.
Deslumbrado achava que não havia impossíveis, arrogante, espetei-me muitas vezes no chão.
Já velho havia desbaratado a minha fortuna, coxeava com esforço, resultado de uma infortuna queda de cavalo e muitos amigos e influência havia infelizmente desbaratado. Restavam poucos os que ainda me seguiam, fiel era a minha ama que nunca me abandonava. A viver numa mísera pensão era ela doente quem arranjava o dinheiro para subsistirmos. Sem reclamar, longe das obrigações formais era o que sempre fora mesmo quando podia deixar de o ser. Inválido e preso a uma cama ela aguentava o meu cheiro fétido e as constantes trocas de fraldas e pensos. Quando a minha alma finou, senti as lágrimas desgostosas dela e o abraço forte de quem ama. Nunca tive só, a minha esposa nunca me abandonou.
- 02
"As obras e fundações mais nobres nasceram de homens sem filhos".
- Certainly the best works, and of greatest merit for the public, have proceeded from the unmarried or childless men; which both in affection and means, have married and endowed the public.
- Essays (1625); Of Marriage and Single Life [A vida de casados e solteiros]
Johan Kuroek morava na cidade de Wiesbaden, foi durante muito tempo o organista da igreja de St. Boniface. Desde muito cedo ambicionava ser um compositor de renome, desejava ombrear entre os maiores e marcar o seu nome na história. Vivia obcecado com a evolução, respondia às criticas a respeito do seu pouco talento com mais trabalho. Com vontade férrea amordaçava os devaneios casuísticos e impunha um metódico auto-controle. Afincadamente estudava os mestres nas várias fases e anotava os mais ínfimos pormenores em vários cadernos de estudo.
As mulheres nunca o seduziram, traziam demasiadas complicações, embora como todos desejasse ser feliz criando uma família. Tentou mas não o suficiente e o tempo passou e ele continuou solteiro em busca do seu sucesso. Com a idade a avançar só a esperança de triunfar o movia, sabia que a cada momento que tentava, mais forte ficava. Lamentava ser preciso tanto trabalho, por vezes o desanimo pairava, mas encontrava sempre estímulos, imaginando as recompensas merecidos que o seu âmago exigia.
Se ele triunfar a mulher dele orgulhosa beijá-lo-á, o filho sentirá tanto orgulho do luminoso patriarca. A casa e lar da família será deslumbrante, orgulho das redondezas mais próximas. A critica ficará rendida, legiões e admiradores segui-lo-ão desvairados pelo seu génio vencedor. Há medida que as forças fraquejavam injectava-se com os estupefacientes da ilusão, criava um mundo paralelo feliz, era o seu merecido futuro. Via os abraços, a doçura, ensinava o filho a brincar, conversava com os numerosos amigos, caminhava feliz no seu belo jardim. Antes de mergulhar no seu esforço subia à tona para respirar o sonho que estava breve.
Para os outros ele era um solteirão isolado e introvertido, prisioneiro numa pensão reles e com pouco dinheiro que subsistia sabe-se lá como. Alguém apagado, por vezes ríspido e completamente fechado na sua idiossincrasia. Nas suas fantasias o que seria já era, a família já existia e o crédito do desejo já adiantara um mundo tão sólido que talvez fosse essa a realidade principal.
Com um hobie incompreendido, sem familiares vivos que o auxiliassem, morreria de fome e seria expulso da pensão. Não fosse o sanatório onde foi internado, estaria perdido. Talvez assim fosse melhor, as trivialidades mundanas gastavam tempo vital essencial para cuidar da sua família. Preso no seu refugio semi-cerrava cada vez mais os olhos, abria-os siderado no seu magno devaneio que era utopia sólida.
Caiu desajeitadamente num lago, alienado quando o tiravam do seu trono engasgava-se cada vez mais com um mundo escuro e cada vez mais distante. Na desmazelada cela dele, além do piano estragado atenuavam-se centenas de maços de folhas com pautas escritas. Um professor do conservatório chegou a analisar cuidadosamente o legado de Kuroek. Mediocridade incompreensível, dir-se-ia que com os anos a passar deteriorou-e cada vez mais. Tanto trabalho em vão, erros infantis, ideias interessantes abortadas por precipitação, esforço estéril, tanto potencial desbaratado. Os caminhos tortuosos levaram-no a um beco, quantas almas nessa viela se superaram inflamando-se altruísticamente em prol da sua arte. Lamentavelmente nunca ninguém o acordou ou o ajudou, deixaram-no morrer num esforço inglório. Hoje as suas preciosas pautas estão espalhadas no chão, levadas pelo vento, sujas e rasgadas pelos outros doentes.
03
"A prosperidade não está isenta de muitos temores e desprazeres, e a adversidade não está desprovida de conforto e esperança".
Prosperity is not without many fears and distastes; and adversity is not without comforts and hopes.
- Essays (1625); Of Adversity [Da adversidade]
Simão Pereira quando emigrou da Beira para a capitania de Pernambuco no Brasil não esperava um mar de facilidades. Só quem tinha dinheiro podia comprar terras à coroa e havia tantas histórias de perdição nesse novo mundo. Nunca acreditou no ouro que jorrava no sul, onde havia cobiça e facilidade sobravam apenas estilhaços de lutas estéreis. O sustento que a terra dá é apesar de tudo a melhor certeza, foi isso que os seus pais lhe ensinaram e ele tentou nunca esquecer. Optimista acreditava que o mérito triunfa sempre, mesmo numa situação de desvantagem. Como jornaleiro trabalhou até não poder mais, os filhos ficaram com o legado de continuar a sua obra.
A família Viera de Melo foi fortemente afectada pela quebra de preços do açúcar no mercado mundial. Após a expulsão dos holandeses do Nordeste do Brasil, a concorrência das Antilhas levou a uma guerra de preços e à decadência dos latifundiários pernambucanos que perderam mercados de venda. Muitos destes endividaram-se perante os comerciantes da região e sendo estes credores tentaram aumentar o seu estatuto e influência na região. Deu-se a guerra dos mascates onde Bernardo Vieira de Melo era o chefe da revolta, quando a metrópole interviu os revoltosos foram fortemente punidos.
Era uma família habituada na abundância, o seu poder parecia eterno, beneméritos que com as suas doações muito contribuíram para as faustosas igrejas da região. A inveja e rivalidade corroíam as relações entre os seus iguais. Na sua imensa fortuna, chacais danados esperam a noite para saquearem o tesouro, a carcaça será estourada por bestas enfurecidas que chupam roubando. O açúcar azedava, a vida tornava-se inconfortável, naquele topo todos conspiravam perante a inércia apodrecida.
Foram necessárias três gerações para a família Pereira conseguir a merecida prosperidade. Mesmo entregues ao esforço árduo, a miséria, doenças dizimavam mas a crença de seguirem o bom caminho iluminava a esperança de dias melhores. Compraram parte das terras dos endividados Melos e nas suas cinzas construíram um novo império.
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