" It is easy to let men alone when they do things our way. The test of a truly enlightened civilization is one that lets people alone, to pursue their own predilections, even when the majority of us prefer to live our lives very differently from theirs."
Jacob M. Appel, author and bioethicist, 2009.
Nu

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Confuso, procurava um refúgio, caminhava há dias com a mochila nas costas. Por entre serras perdi-me na natureza. Descobri uma aldeia ao fim de várias semanas, pela forma que os habitantes me receberam não deveria ser comum serem visitados por forasteiros. De acessos limitados, aquele santuário perdido mantém as suas peculiares características "insulares". Deram-me hospedagem na casa de pasto da aldeia, tratando-me com consideração e hospitalagem. Notava-se de forma premente a excitação por um estranho entrar naquele universo tão fechado e familiar, o burburinho era constante e grupos de transeuntes juntavam-se para poderem observar-me.
Depois do jantar, tive oportunidade de trocar impressões com o dono da casa de pasto, um viúvo de bom trato mas talvez um pouco taciturno. Os outros clientes faziam-me frequentes perguntas sobre o mundo exterior, quase cortavam a minha respiração com tantas questões, sentia alguma dificuldade em dar vazão a tanta curiosidade insaciada.
Após um banho, exausto senti necessidade de dormir, há muito que não dormia numa cama confortável e tinha as costas doridas do esforço de transportar a minha pesada mochila. Antes de adormecer, escutei algumas palavras dispersas. As paredes de madeira tinham pouco isolamento acústico e facilmente escutaria conversas perdidas.
- Ele tem um nariz de pássaro.
- O pior apesar de tudo são as sobrancelhas, acho-as muito vincadas.
- Não o acho feio apesar de tudo.
- Eu acho! Depois aquela maneira atarracada como ele anda, quando for velho há-de ser um marreco.
Pensei se falariam de mim, não pude deixar de achar alguma graça ao espírito pacóvio daquelas meninas que trocavam tais pueris impressões. Adormeci a sorrir atordoado pelo cansaço.
Acordei tarde, trazia comigo algum cansaço acumulado, difícil de extorquir rapidamente. Depois do pequeno almoço dei uma passeata pelo vilarejo, acenava frequentas vezes aos transeuntes que encontrava a olharem longamente para mim.
Havia uma pequena praça improvisado em terra batida, igreja, celeiro comum, imensidade de crianças que brincavam no lixo espalhado na rua. Sempre que avançava, sentia que cochichavam a meu respeito, fosse quem fosse, homens, mulheres ou crianças. Era uma sensação estranha por trás das minhas costas, comentavam descaradamente. Já não tinham vergonha em disfarçar, a tonalidade das vozes era cada vez mais elevada e nítida.
- Que grande Javardo! Viram como tomou banho ontem, nem se ensaboou devidamente.
-De facto foi pouco cuidadoso, mas cá para mim a comadre estava era a olhar para o que ele tinha entre as pernas.
-Não diga disparates!! O meu marido é muito melhor.
-Calem-se suas galinhas! Aposto que também estiveram a mirar-lhe o rabo, suas desenvergonhadas!
-O pai tá sempre a dizer que eu sou desarrumado, mas ele espalhou as coisas todas no chão, aquilo parecia uma pocilga.
-Os maus exemplos dos estrangeiros desleixados não servem de desculpa a ninguém.
Não quero acreditar no que estava a ouvir. Que criaturas são estas? Isto é doentio!...Contraio o meu rosto e furibundo avanço o passo. Afasto quem se encontra no meu caminho e regresso intempestivamente para a Casa de Pasto. Quando levanto o olhar e miro a populaça, continuam a conversar como se eu não existisse, não sentem qualquer vergonha de falar descaradamente sobre mim comigo a assistir.
Fecho a porta do quarto e tento conter a minha fúria, nada disto é normal, os limites da dignidade foram ultrapassados. Sentado na cama, olho para o mapa e vejo que novos percursos poderei seguir, tento desanuviar e pensar no futuro da viagem. Estava a rodar a bússola para apontar o ponteiro em direcção ao norte quando ouço vozes que sussurram atrás das frágeis paredes de madeira.
- Nunca teve muito jeito para viagens, lembro-me quando era novo, perdia-se frequentemente.
-Sim é muito desastrado! Tem a mania que é uma grande coisa!!!
-É um pateta alegre que tenta mascarar a vida medíocre que tem!! A mãe está doente no hospital e ele em vez de estar a sofrer em casa a cuidar dela, anda nestas viagens a fingir que faz alguma coisa.
- O pior é que nem sente remorsos! É um fracasso, incapaz de se olhar ao espelho.
Em combustão furiosa, reajo e sem mais demoras dou um soco na parede em tom de revolta. levanto-me desassombrado e hesitando minimamente abro a porta com franca violência. num olhar assassino fixo o grupo de cinco pessoas que alegremente tagarelavam. Busco uma reacção, alguma culpa. Nada, após mirarem-me por ter batido na parede e aberto a porta de forma áspera, continuam a bisbilhotar de forma relaxada.
-Ele não tem muitas maneiras. É um egoísta que não liga minimamente ao papel que faz na sociedade, quando percebe que pisou o que não devia, pede desculpa. O que ele sempre teve na vida dele foi mimo! Se tem levado umas boas palmadas quando merecia, não tinha chegado a este ponto.
- Não se esqueçam que ele é essencialmente um cobarde. Sempre foi isso ao longo da vida. Lembram-se quando ele era novo, nas brincadeiras com os outros cachopos levava sempre tareia e inclusive de miúdos mais novos! Sempre com medo! Dizia a ele próprio que se batesse em alguém depois os pais não o defenderiam e que tinha que se resignar com a realidade. Desculpas!
-Tem bom coração, preocupa-se com os amigos.
-Sim quando consegue estar uns segundos sem olhar para o espelho enquanto limpa o umbigo sujo de tanto narcisismo.
Não me contenho!!! Estou a ser ofendido! Não há mais nenhuma explicação, a minha aversão à violência não justifica a minha passividade. Dou uma passada energética e empurro o campónio horroroso que fez o ultimo comentário. Sem meias medidas lanço uma estalada inicialmente tímida mas depois confirmo o que fiz anteriormente e avanço com mais quatro com intensidade crescente.
Numa rotação fixo os meus intervenientes e grito em plena cólera as seguintes afirmações.
-Quem é que vocês julgam que são? Suas bestas!! Quem vos deu o direito de comentar o que eu faço? Meterem-se na minha vida!! Vocês conhecem-me de algum lado?? Cabrões!!! Este vilarejo de merda é o quê!! Desde que cá cheguei só falam de mim à descarada.
Empurro uma senhora e dou um safanão a um velho, a tensão da injuria é tal que a minha respiração ofegante desarticula o meu discurso. Após ganhar fôlego insisto.
-Doidos!! Doidos!!! Nunca vi uma coisa assim.... Hum.... Não tem nada a dizer? Não?
Um momento de silêncio impõe-se perante a gana esventradora que o meu olhar injecta. Não demora muito que me ignorem e continuem com a panaceia deles no mais inacreditável desrespeito que alguma vez assisti.
-Há três anos atrás quando a directora do trabalho gozava com o ar submissivo dele, ele foi incapaz de uma reacção. Tinha que engolir em seco, dizia a si próprio que precisava do dinheiro e da dignidade não precisava?
- Mister "cobardolas" será um cagufas até ao fim da vida, sempre muito rápido a tentar encontrar uma qualquer desculpa para se justificar. A ponderação e a calma não disfarçam a falta de carácter e personalidade.
- E quando o enganaram no trabalho? Ele foi capaz de uma reacção? Nah! O gatuno do Alexandre continuava a dar-lhe tangas e ele insistia como se aquilo fosse um concurso de paciência. Esconde-se atrás da alienação, prefere não pensar no cancro infecto que ele é. bem pode inventar viagens, passeios de recreio com barcos e até alpinismo, a barata nojenta existe.
Incontido, grito e arrebato a minha fúria, quero que eles se calem, mas só consigo que falem mais alto, chegam cada vez mais pessoas. É um berreiro intenso, conversam a vociferar, enquanto se desviam dos pontapés e socos que distribuo e que intensifico quando vejo que não tenho reacção dos meus intervenientes. O corredor está cada vez mais cheio de pessoas, que descontraidamente me ignoram enquanto corpo físico mas que palram intensamente sobre a minha persona. Ignoro como sabem tanto, eles vêm tudo mesmo o que eu não sabia. Estou numa colmeia de abelhas que me querem ensandecer.
já não ouço mais nada além de zumbidos incessantes que se aproximam perigosamente da anarquia cacofónica.
Tenho que sair daqui, naquela claustrofobia estou enclausurado, como um rato a ser apanhado numa avalanche em crescendo. Com esforço e a respirar ao máximo, consigo contorcer-me o suficiente para forçar passagens e abrir a porta de saída. Na ruas as pessoas esgrimem argumentos, aos magotes e em plena festa comentam apaixonadamente a minha memória.
-Cumpre sempre os horários, escusam de o estar a massacrar. É alguém responsável.
-Já foi mais. O desleixo nele cresce a olhos desmedidos. Come muito depressa, aquela pança um dia destes explode.
-Não devia comer tantos doces, sabe que geneticamente tem tendência para ganhar Diabetes e Colesterol. Vai acabar os dias numa cama de hospital e depois é bem feito que o abandonem como ele fez com a mãe dele.
-Ele não abandonou a mãe dele. Trata dela minimamente.
-Ha!Ha!! Um cão sarmento. Sempre a inventar desculpas, a fingir-se esquecido. Capaz de ficar horas a não fazer nada. Incapaz de ser um homem e aguentar o peso das responsabilidades. Maricas da merda!
-Aqueles dentes podres!!! Um dia desfazem-se! Só chumbo e aquela mania idiota de usar palitos... Tristeza! Por vezes pega em fósforos e com o canivete afia-os para criar palitos improvisados.
- E usar a chave do carro para funcionar como um cotonete? Ah! Ah!!...
- Grande porco! Nada literalmente em pó na casa dele. Usar o aspirador não é com ele. E as paredes sujas? São anos e anos de desleixo!
Doentiamente desvairado, despejo a minha irritação. Sou fúria monocórdica que em sobre-aquecimento desfere encontrões, murros e rajadas de sopapos. Eles falam cada vez mais rapidamente e com um tom mais elevado. São grilos que zumbem como uma fábrica de quinquelharia. Estrondoso tremor de terra que se estilhaça em vidros partidos que ferem.
Estou rodeado daquele enxame e nada o pára. Corro tanto então mas eles perseguem-me, tapo os ouvidos, selando toda a audição. Recuso o menor som, a mais ínfima percepção, exijo silêncio. Fecho os olhos e estou no primeiro buraco que encontrei de joelhos, pudesse eu e afundaria o meu rosto no vazio.
Acalmo o meu coração, estou a vários metros de distância da aldeia, nem sei como cá cheguei. Quem é esta gente, como podem entrar nos meus pensamentos? Estou cercado e se continuo assim serei prensado. Tento não pensar, congelo tudo, de olhos fechados espero o fim das lágrimas e o termino dos soluços.
Não sei quanto tempo passou, devo regressar apesar de tudo pois não tenho outra opção. os limites da normalidade extrapolaram o lógico. Não sei quem é louco nesta história, mas sempre acreditei que os meus pensamentos eram meus. Aquelas horrendas criaturas vasculham tudo o que fiz, faço e poderei fazer. Estou desposado diante deles e um desprovido tem mais vergonha e inquietação defronte de fiscais cobertos, uma manifesta cobardia desigual.
Percebo que se os ignorar os seus cochichos são mais ténues. Por mais que tente não consigo selar os meus ouvidos.
-Cozinha nunca foi o forte dele, mas o curso de culinária fez com que ele melhorasse a olhos vistos.
-Um talento que ele ignorava que no entanto já o fez ganhar insuspeitos elogios.
-Tudo começou quando viu como o Ricardo, antigo amigo de infância, progredia a olhos vistos naquele novo hobbie. Sentiu uma certa inveja e necessidade de competir com ele, afinal sempre achou que tudo o que ele fizesse era alcançável.
Tento controlar a respiração, aproximo-me da campónia e questionou-a.
-Como é que sabe isso? Por favor explique-me... Estou a ser educado!
Não me liga, dir-se-ia que não repara que existo, prossegue a conversa, tenho que me conter se reagir o zumbido pode voltar. Regresso à casa de pasto e questiono o dono, mantém o mesmo ar passivo de sempre, inexpressivo. Ele afirma que não sabe o que eu estou a falar e inquira se não estarei a ter visões. Concluo que o melhor que tenho a fazer é sair daqui o mais depressa possível, dou indicações para que sejam preparados os mantimentos para a viagem.
Gostaria de ainda naquele dia ter abalado, infelizmente a melhor altura em termos de rendimento para iniciar a jornada é de manhã. Regresso aos guias e mapas no meu quarto, tapo os ouvidos da melhor forma que consigo. Estancado e bloqueado movimento-me energicamente rejeitando a mais ínfima reflexão.
Revolta-me ser prisioneiro, ter que aguentar o desconforto de ter duas meias sujas enroladas com fita-cola a vedar a minha audição. Depois do jantar confirmo os preparativos finais, troco algum palavreado com o meu senhorio num clima reservado e contido. Eles estão lá, nunca saíram.
-Tem que ter cuidado com os problemas nos intestinos, a prisão de ventre causa estragos.
-É a idade. Com o tempo só tem tendência para piorar. As dores no femur da perna direita são menos habituais, afinal quando ele teve aquele acidente foi há 12 anos, já tudo deveria estar sarado.
-Não tarda muito os cabelos brancos vão começar a surgir.
-Isto de ser velhote é um tempinho, os vermes acabam connosco em pouco tempo e depois ficamos azedos.... Um horror! É bom ser novo e viver-se iludido que tudo é possível, em velhos quando crescemos percebemos que afinal não somos uma porcaria quando vamos agoniados com as nossas fezes duras e mal-cheirosas.
-Ainda bem que eu não sou idoso!
-Ah!Ah!!Ah!
Na cama de noite tento à força adormecer mas os fantasmas tão lá, sei que se os ignorar, os murmúrios deles entendem-se menos. É difícil controlarmos a nossa vontade e os nossos pensamentos. Só a exaustão do esforço me forçará a adormecer quando menos esperar.
-Ele não vai conseguir fazer nada, pois não?
-Desculpa-se nas circunstâncias para justificar não poder fazer mais.
-Mas ele não faz nada, é um tremendo pateta impotente.
-Tem medo, não é único.
-As pessoas podem ter medo por variados motivos. Experiências traumatizantes, medo de experimentar, cobardia, instinto.
-A vida não o forçou a mexer-se suficientemente. A colcha que o cobre é apesar de tudo confortável e isso justifica o imobilismo.
De madrugada ao ser acordado, o sono persegue-me, com esforço termino os últimos retoques. Depois do pequeno almoço troco umas palavras de despedida com o meu anfitrião. Num último esforço questiono-o sobre o porquê de tudo isto. Neutral e despercebido não me compreende, não sabe do que falo.
Há medida que avanço e me afasto daquele recôndito local, contesto o que vi e ouvi. Quando não olhava para os rostos deles, escutava mais palavras. Tudo tão extraordinário sem sentido exequível. Acho no entanto que vou conseguir esquecer este caso, afinal esqueço tanta coisa que se passa na minha vida, isto não há-de ser impossível.
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