
Análise do velho oeste se transposto para os nossos dias e os problemas que daí adviriam. Questão das armas e como os conflitos podiam facilmente deflagrar. Simples discussões podiam transformar-se em guerras fratricidas onde se perdia frequentemente o controle.
Imaginem uma sociedade onde todos tem o direito constitucional de andar armados. Onde devido à tradição é frequente andar na rua e ver pessoas com pistolas num cinto com coldre, outros trazem caçadeiras e alguns até metralhadoras. Muitíssimos carregam vários tipos de armas ao mesmo tempo e apreciam exibir as suas relíquias mortíferas. Como os actuais telemóveis interessa ter a arma mais recente e mais avançada tecnologicamente. Depois é uma constante guerra-fria, se o meu vizinho tem uma arma melhor que a minha pode ameaçar-me e ser mais bem sucedido, logo eu devo responder.
A corrida às armas deixa muita gente satisfeita sobretudo a indústria armeira que ganha milhões com este negócio. A publicidade e o destaque nos média é constante, todos falam dos últimos modelos, teste de segurança, o grau de ferocidade e eficácia. Temos analistas que observam a performance dos disparos, dão sábios conselhos sobre técnicas de combate e explicam qual o dispositivo de combate mais apropriado.
Dão pistas sobre técnicas de guerrilha urbana e como maximizar o efeito mortífero. Cuidados a ter com os carregadores, como é péssima ideia utilizar carregadores reutilizados de marca branca "Made in China". Jornais, revistas, publicidade, rádio, internet.... tudo é movido pelos grandes patrocinadores que desejam a todo o custo que o povo continue a amar o que o está a matar aos poucos.
Sim, os problemas sociais são imensos. As mais insignificantes crispações, comuns a todas as sociedades podem terminar em sangrentos ajustes de contas. Não adianta as autoridades pedirem responsabilidade individual e bom senso, a lei da selva está instituída e daí em diante só se sabe que a força é que é a lei. Mesmo se as autoridades se militarizam cada vez mais e tentam impor uma força ainda mais poderosa, logo imensos indivíduos acham que tem o direito de perseguir o seu destino e vontade mesmo que para isso tenham que ultrapassar obstáculos e pisar inocentes.
A cultura do medo impera nas ruas, todos desconfiam de todos. O conflito é inevitável na natureza humana, o problema são as formas de descompressão que atingem amplitudes incalculáveis.
É o caos, um clamor que a todos aterroriza e não há uma solução no horizonte próximo. Individualismo tolo multiplicado por erros crescentes de uma competição suicida que não conduz a nada.
Imaginem estes casos e pensem nas suas consequências.
.1.
Um condutor de um jipe estacionou em segunda fila para ir beber um café antes de ir para o trabalho. Após saborear a bica e depois de ter pago a conta, escuta várias buzinadelas. É outro condutor que quer estacionar a carrinha na praceta e o jipe está a tapar o caminho. Está furioso, não contém excessos de linguagem, quando observa que o infractor está a andar demasiadamente devagar. Começam a confrontar-se, as ofensas agravam-se, o respeito está a esgotar-se. Em olhares gelados, observam a mão que se aproxima do coldre e os canos cerrados da caçadeira a vir ao de cima.
Como ninguém quer ser o último, os disparos sucedem-se, inicialmente para intimidar, depois são mais certeiros. O homem abre a porta da carrinha e tenta abrigar-se num canteiro mesmo perante contínuos disparos. A proximidade aumenta a pressão e o senhor do jipe com três tiros certeiros fere o adversário no ombro, estômago e pescoço. Distraiu-se com este sucesso e o ferido sem hesitar conseguiu ainda soltar um disparo que atinge o antagonista na perna direita.
O condutor da carrinha sabe que não vai aguentar muito, as dores são horríveis. Sente que deve cumprir os seus princípios, quando cai deve levar com ele quem o atirou ao chão. Com esforço carrega três vezes no botão da chave do carro, acciona o código de ignição de um dispositivo de auto-destruição que faz explodir a carrinha. Tratava-se de um explosivo plástico de médio impacto.
Os dois inimigos são dizimados com o impacto, mas não são só eles, sofrem os que se encontravam perto da praceta. Vários carros são incendiados, montras partidas, corpos de transeuntes inocentes jazem no chão, vítimas de um egoísmo estúpido que transcende toda a lógica e humanidade.
.2.
Duas senhoras cumprimentam-se na praça local, estão atarefadas a fazer compras. Numa conversa casual sai um comentário a respeito da cobardia do filho da vizinha do lado que estava a ser humilhado no trabalho, por ter medo de enfrentar o seu parceiro que é campeão no clube de guerra e já recebeu vários prémios por causa da sua "bravura" e espírito aguerrido.
Para azar, a mãe do rapaz insultado está perto e escuta tudo, avança em frente e pede satisfações por este assunto estar a ser tratado na praça pública.
A discussão começa a aquecer, com as várias partes a perder o controle. Uma bofetada atinge em cheio a mãe ultrajada, raivosa sem meias medidas, saca da sua Magnum e enfia o cano na boca da agressora. Ameaçada a senhora não se deixa intimidar e sobe a parada, provoca ainda mais a ofendida que de arma em punho pode rapidamente perder a noção das consequências dos seus actos.
Acontece o pior a arma é disparada, um corpo sem vida cai no chão. O tensão está ao rubro, como num sequestro a homicida dá uma rotação e analisa as várias pessoas que estavam na praça. Todos os movimentos são medidos e procuram-se as reacções mais indicadas. A mútua observação e cautela imperam, em movimentos lentos e sempre a controlar a situação a assassina tenta abandonar o local.
Um tiro é disparado e atinge-a pelas costas, era difícil controlar aquela multidão num espaço tão aberto. É liberta a descompressão entre gritos, conversa desgarrada e confusão plena. Dois corpos por uma estupidez mas isso é típico no dia a dia desta terra.
Para azar, a mãe do rapaz insultado está perto e escuta tudo, avança em frente e pede satisfações por este assunto estar a ser tratado na praça pública.
A discussão começa a aquecer, com as várias partes a perder o controle. Uma bofetada atinge em cheio a mãe ultrajada, raivosa sem meias medidas, saca da sua Magnum e enfia o cano na boca da agressora. Ameaçada a senhora não se deixa intimidar e sobe a parada, provoca ainda mais a ofendida que de arma em punho pode rapidamente perder a noção das consequências dos seus actos.
Acontece o pior a arma é disparada, um corpo sem vida cai no chão. O tensão está ao rubro, como num sequestro a homicida dá uma rotação e analisa as várias pessoas que estavam na praça. Todos os movimentos são medidos e procuram-se as reacções mais indicadas. A mútua observação e cautela imperam, em movimentos lentos e sempre a controlar a situação a assassina tenta abandonar o local.
Um tiro é disparado e atinge-a pelas costas, era difícil controlar aquela multidão num espaço tão aberto. É liberta a descompressão entre gritos, conversa desgarrada e confusão plena. Dois corpos por uma estupidez mas isso é típico no dia a dia desta terra.
.3.
Temos uma loja frequentemente assaltada, um miúdo com ar suspeito, o dono desconfiado e já muito escaldado com experiências anteriores. Existem várias câmaras espalhadas no estabelecimento e tem ligação automática à central de segurança e policia. O puto deixa cair o leitor de MP3 e ao inclinar-se para o chão revela a pistola automática que tem na mochila. É suficiente para ser ameaçado com uma caçadeira e como não obedece imediatamente, é sovado constantemente até ficar inactivo e tombado no chão.
O pai dele não vai gostar da história e irá pedir satisfações, espera-se o pior. Tanto mais que o miúdo era bom rapaz e tinha um historial limpo.
O pai dele não vai gostar da história e irá pedir satisfações, espera-se o pior. Tanto mais que o miúdo era bom rapaz e tinha um historial limpo.
.4.
Imaginem um jardim e alguns amigos a jogar às cartas, grupo disperso e heterogéneo. Fala-se de futebol, vem o clubismo à flor da pele, começam as habituais discussões sobre as famílias de tribos. Quem é melhor, quem foi mais roubado pelos árbitros, quem tem mais azar. Os outros são maldosos mas se houver justiça os bons triunfarão. Fala-se do último jogo, muito disputado onde tudo foi resolvido por um penalti mal assinalado.
Fosse um mundo normal e para além de umas bocas "perdidas" sem sentido, quase falaríamos de arrufos balofos que entram num ouvido e saem noutro. Mas não, as armas fazem subir o orgulho à cabeça e os maiores disparates podem ter importância. Depois do tiroteio temos sete pessoas assassinadas, 3 feridos graves e dois ligeiros. Tudo porque alguém comentou que o árbitro deveria ser da família de um dos intervenientes da discussão.
Fosse um mundo normal e para além de umas bocas "perdidas" sem sentido, quase falaríamos de arrufos balofos que entram num ouvido e saem noutro. Mas não, as armas fazem subir o orgulho à cabeça e os maiores disparates podem ter importância. Depois do tiroteio temos sete pessoas assassinadas, 3 feridos graves e dois ligeiros. Tudo porque alguém comentou que o árbitro deveria ser da família de um dos intervenientes da discussão.
.5.
Neste clima de guerra fria, aumenta a apreensão e a cautela. Crianças de 15 anos andam armadas por sugestão dos pais que temem que os seus filhos sejam assassinados em qualquer discussão de recreio, pois das autoridades não se espera nada senão mais violência ao mera complacência com o inevitável.
Pois o fim era inevitável, escolas são lugares de tensão e quando a descompressão são tiros assassinos e começou-se a perder o respeito da vida humana, surge a generalização do sangue. Custa a crer que um miúdo egoísta mate outro porque gozou com a mala nova. Os colegas da turma vingam-se descarregando tiros de metralhadora nele e nos pais. É tudo um imenso dominó onde nas múltiplas quedas as peças se desmoronam.
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