quinta-feira, julho 16, 2009

Regresso - (Série relatos kafkianos III)



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Voltei a contragosto e reencontrei a minha velha escola, com ela o meu passado. Como sempre tenta-se ver as diferenças. Talvez se descubram velhos conhecidos ou qualquer pedra perdida que pensávamos sumida. A desculpa para regressarmos eram uns documentos que o meu amigo ao fim de muitos anos resolvera recuperar.


Descobrimos um mural de azulejos que a nossa turma produziu, trabalho colectivo que perdurará na história. Tentámos tirar uma foto mas aí cometemos um erro, revelámos quem éramos.


O nosso passado foi escrutinado, as auxiliares e a professora que se encontravam ali naquele momento, agarraram-nos e entre saudações pelo regresso dos "adultos", resolveram então questionar as "crianças". A professora finalmente reconhece-me, primeiro exprime o espanto e depois firma uma expressão em arrebatamento.


Troca sussurros com as auxiliares e elas mirando-me fixamente caem na risota geral. Apontam o dedo para mim e chamam mais gente que pouco depois forma uma multidão de palhaços. Afunilam-se à minha volta, rapidamente perco o meu amigo e fico apenas eu com elas.

Regresso ao passado e vejo uma grande mancha de formigas, dispersando-se ao agrupando-se, são muitas. Recordo-me da maldade, como os pés as estilhaçavam e dos gritos de alegria na conquista. Miúdos que caiam em gritos rebolando-se no chão, com os punhos esmagavam os insectos, tudo numa imensa alegria.

Não reparavam que as formigas eram às centenas de milhar. Eram como água e em breve todos ficariam inundados. Só vejo a minha sombra, tenho demasiado medo de mim próprio para assumir o que quer que seja. Intermitentes e em movimento, vejo uma áurea que passa e que outros aproveitaram.

Entre a inevitabilidade do anonimato que roça a invisibilidade e o estrondo cacofónico que arriça ódios deixamos o destino escolher, pois o peso da contínua circunscrição é demasiado.

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Agora rio-me estou na esplanada com o Joaquim, Mercês e o Celestino. No calor do verão os nossos risos forçados parecem apesar de tudo mais espontâneos. Num vai-vem sacudimos novidades com a indiferença necessária para nada nos tocar.

Ilusões são boas e desanuviam as altas expectativas que no fundo são culpadas de muitos males.

Sem perceber nem controlar bem as palavras, comentei que regressei à minha antiga escola. Abri uma porta que levantou questões, não ponderei suficientemente a minha atitude, pois a minha reserva de falar sobre o assunto ainda desencadeou mais suspeições.


....


De noite em casa no meu quarto, regresso ao meu velho diário. A capa já está gasta, muitas folhas amareladas e amarrotadas. Continua um colosso, ali estão 1000 folhas. Muitos pensarão que anoto diariamente os acontecimentos mais relevantes do meu dia a dia. Estão enganados eu não construo frases, organizo tabelas de palavras numa busca sintáctica.

Procuro a simplicidade, num resumo de resumos resumidos. O problema é por vezes não querer ver o que me perturba e isso faz com que não seja sempre imparcial. Mas desde quando alguém pode esperar que a auto-analise possa ser outra coisa que não parcial? Só a distância independente pode ampliar o que foi arredado.


Sempre tive esta ridícula mania de coleccionar, acumular objectos, guardar troféus. Senti desde cedo uma necessidade de guardar o meu passado, no presente dia-a-dia, pois voltando atrás podemos compreender melhor a amplitude dos nossos erros e sucessos e com isso reestruturamo-nos.

A minha fé optimista nunca me abandonou e ainda bem que assim o é. Isolado ou abrigado eu andei, como sempre esperei demais e calculei mal as distâncias mas no fim recusei o comodismo de quem se deixa morrer e espera que o enterrem em lágrimas de compaixão.


Regressei à página 75 e pesquisei o anexo A 12 vi a tabela TB- 5-11-94. Na verdade aquele dia fora tortuoso e dividi-o em três tabelas. A TB (a), TB (b) e TB (c), não correspondia a manhã, tarde ou noite. Limitei-me a representar os acontecimentos que ocorreram de tarde, foram demasiado graves para não merecerem o justo destaque.

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TB (a)


Gangrena, medo, cúmplices, inacção, desespero, bloquear, punição

3-67-90-25-1-5-7-9-12

Partir tanto, Quebrar, amarrado, culpa, dor, erro




TB (b)

Rir, troçar, humilhar, castigar, insultar, cortar, não ajudar

23, 56, 78, 27, 78, 90, 25

Um caco, desgraça, tantos a ver, carimbo, sem opções




TB (c)


Enterrado, funeral, luto, berraria, albergue, pais, chuva

13, 45, 06, 17, 89, 10, 20

Hei-de voltar, hei-de voltar, hei-de subir.....

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Tão lá os segundos, minutos, nunca esqueci o meu relógio electrónico com cronómetro e como sempre que fechava os olhos clicava no instante em que fixava uma palavra que resumia muito.


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