quinta-feira, maio 21, 2009

Contenção - (Série relatos Kafkianos I)





-


Tudo estava a correr mal, não encontrava o caminho que devia seguir e estava já perdido. Apesar de ter sido escrito no papel o relato dos pontos de referência no trajecto automóvel que devia seguir, o meu sentido de desorientação e a minha capacidade infinita para errar voltaram a fazer das suas. Se tivesse descoberto logo o caminho demoraria 20 minutos, com esta brincadeira demorei quatro horas, gastei uma fortuna em gasolina e portagens.



Após trocar alguns telefonemas confusos por telemóvel com a minha cliente, descubro a localidade, depois de estacionar o carro, avancei em direcção à oficina. O meu rosto parecia um tomate, estava com vontade de urinar, com fome e tinha o corpo tenso após uma sessão intensa de adrenalina. Contenho-me como sempre faço e apressadamente bato na porta do portão.




A cliente cumprimenta-me, trocamos impressões ligeiras, não parece acreditar na minha imensa estupidez de não descobrir o percurso certo, um riso mesquinho e trocista é solto. Tem um pequeno cão que lhe faz companhia, chama-se Rufa, um caniche arraçado. Muito enérgico, não me larga sempre a querer subir pelas pernas, tem umas unhas muito afiadas para um cão. Agita intensamente a língua e parece frenético, acompanha-nos enquanto subimos a rampa para o 1º andar.


A oficina tem um ar desleixado, com abundantes manchas de óleo. Falta de circulação de ar, as janelas são minúsculas, a disposição dos objectos é anárquica e assumidamente preguiçosa com muitas coisas colocadas no chão, algo que não deveria acontecer.



A senhora exala um odor de suor intenso, desconfio que há bastantes dias que não toma banho, a respeito do cão é melhor nem falar sobre esse assunto. Sento-me em frente ao computador e tento explicar-lhe as dúvidas que ela tem a respeito do projecto em Auto-Cad, indica-me as alterações que identificou. Enquanto trabalhamos o cão por baixo da secretária não nos larga, com latidos, tentado subir ao colo e lambendo as mãos, exige carícias imediatas.


Enquanto o acaricio no pescoço, sinto o pelo dele e as imensas carraças que estão espalhadas. Fico assustado quando olho por baixo da secretária, dezenas delas saltam para as minhas calças. Procuro manter a compostura, ignorar os factos e continuar o meu trabalho, não quero arranjar problemas com esta bruxa hedionda. Imediatamente fico com uma imensa coçeira na minha perna, não cortei recentemente as unhas como devia de modo que quando me arranho sinto um intensa fricção cortante. Porém não posso resistir a coceira é demasiado forte, trata-se de um suplicio. Só de pensar que estou inundado daqueles horrorosos bichos começo a ficar enojado, eles espalhar-se-ão, cravando-me como sanguessugas abjectas.


Tenho vontade de ir à casa de banho mas por vergonha sou incapaz de tomar a iniciativa, devo seguir em frente e ignorar os problemas. As mãos sujas dela borram o teclado, várias vezes tira macacos do nariz, estou cada vez mais estupefacto com o seu comportamento suíno nesta horrível pocilga em que me encontro. Não posso comentar nada, é prioritário evitar um conflito pessoal, seria uma perda de tempo da qual eu serei o inevitável perdedor.


O cão deve estar com "cio", agarra-se à minha perna e tenta fricciona-la, sinto o pénis dele erecto. Tento afastá-lo, mas ele resiste, abre o focinho e ameaça trincar a minha mão com um ladrar ameaçador. A senhora olha para mim com ar sério e pergunta se estou a magoá-lo, diz que ele é um pouco chato mas inofensivo.


Faz-me ver que está desagradada com os meus modos e que deveria larga-lo, força-me a fazer as alterações necessárias acrescentando novas cotas. Com cada vez mais à vontade o Rufa no seu êxtase vai mordendo as minhas coxas em ataques esporádicos enquanto solta apaixonados latidos de prazer, a minha anfitriã age na maior das naturalidades.


Revoltado expulso o cão de forma violenta da minha perna, consigo sentir no entanto a horrível ejaculação que manchou as minhas calças. A senhora colérica flecha-me com uma bofetada, questionando-me se não tenho vergonha de maltratar os animais. Fico calado e submissivo perante a indignação desta; ameaçadora humilha-me levantando o tom de voz a níveis impensáveis.


Desculpo-me de forma atabalhoada, não refiro nenhum dos atenuantes em última instância teria que recolher à explicação da globalidade da sujeira onde me encontro. Acaricia o animal em tom de compensação e avisa-me que não tolerará outra ofensa grave, cerra os dentes e a expressão sisuda mantém-se.


O clima está definitivamente inquinado, num tom frio e compassado trocamos as impressões mínimas necessárias ao termino da missão. O Rufa após circundar a dona por alguns minutos ganha coragem e aproxima-se novamente de mim. Abre o focinho e enfia os dentes na minha perna, dir-se-ia que está a sondar-me, quando sente mais confiança perante a minha inactividade sobe ao meu colo e suavemente ferra os dentes nas minhas partes baixas. Reajo com muita calma, tento controlar a respiração, o animal fixa-me concentrado, quase que sinto que ri naquele momento.

Tudo é demais: Nervos, a minha vontade de urinar, a fome, calor, desconforto da cadeira, mau ambiente com a cliente, chantagem terrorista canina. Estou cercado e só me resta aguentar até mais não poder. Quero congelar, fugir desta lâmina carburante que vai trucidar-me, não sei lidar com estas contrariedades, na maior parte das vezes quando as ignoro elas acabam por finar-se.


Estou a ser observado, se me portar mal o canídeo não hesitará e aniquilará a minha masculinidade, emite um rugido silencioso de quem detém poder. Pressão incrível, monitorizada ao milésimo de segundo.


Erro ao enganar-me no valor das cotas que devia atribuir à altura do placard de alumínio que será futuramente montado, após receber a repreensão da cliente, o cão ferra os dentes de forma mais agressiva, soltando um rosnar ameaçador e em crescente.


Novas falhas serão punidas de forma mais feroz e devastadora, a minha integridade está em perigo. Tanta coisa em cima de mim, demais para eu aguentar, apetece-me explodir mas tenho uma responsabilidade, um dever, uma missão, devo fazer o que sempre fiz.


Não posso desmoronar-me é com esforço que a minha bexiga aguenta, apesar de tudo alguns jactos escorregam e fracções de urina começam a escorrer pelas minhas pernas, tento disfarçar na medida do possível.


A comichão e a cocheira percorrem o meu corpo como uma serpente, agrido-me enlouquecido numa sarna cruel, as minhas mãos não chegam a todo o meu corpo agredido. A mulher protesta perante o meu comportamento, o cão esmaga-me em crescente e trucida-me em sangue numa raiva cortante.


Estrangulado perante gritos infindáveis, caio no chão torturado até mais não poder, não me contenho e a partir daí vou sofrer as consequências.


Manchado pelo meu nojo sou acometido de selvajaria impensável, tão apertado que penso implodirei antes de explodir. São pontapés de uma bruxa doida que me acusa nem sei do quê, é um demónio que me serra e por fim me arranca uma dor lancinante. Sou um epiléptico em agonia, alguém escorraçado em chuva de ácido, electrificado em dor e sofrimento, demasiado para um corpo em morte.


Tento fugir, correr, grito endoidecido, perseguido por um que é uma matilha, embrulho-me em quedas, arremesso objectos no chão, surdo de tanto berraria. Não consigo descer a rampa, dou uma queda aparatosa enquanto o cão raivoso me morde endoidecido no pescoço.Com um soco portentoso no focinho projecto a besta em direcção à parede em latidos sofríveis.



A dor é muita, tarde demais avancei com a fuga, agora sou arame quebrado em estilhaços de carne infectada. A bruxa na correria de me punir nos estrondosos passos que dá, força a que vários bidões que estavam empoleirados em frágeis prateleiras se desmoronem e caem mesmo em cima do meu corpo doente.


Um acerta no meu rosto e estoira-me em cheio, ceifando-me a vida, outros dois caem no tronco desfigurando ainda mais o meu cadáver apodrecido. Apesar de morto, sou sovado por assombrosas biqueiradas em tom de castigo pelas maldades que fiz.



O Rufa deve ter sido alimentado por carne humana pois ao aproximar-se de mim começa a devorar afincadamente as minhas tripas saídas, deliciando-me com os restos do meu olho esmagado. A doida desvia um bidão que estava em cima do meu corpo que se abre subitamente, de dentro escorrem imensas minhocas que entulhadas, movimentam-se devorando-me.


Danada abandona a oficina, forçando o cão a abalar, entusiasmado que ele estava com as minhas tripas saborosas, esta fecha o portão de forma brusca e só o voltará a abrir no dia a seguir.


Quando regressa, rouba a minha carteira e resolve queimar todos os documentos de identificação, enquanto guarda o dinheiro. Resolve aproveitar as minhas calças para fazer uns trapos, vai buscar uma serra para decepar-me em bocados e assim conseguir disfarçar melhor o corpo.



O cheiro horrível que sai do meu organismo não a afecta, está há muito habituada à nojeira. O cão ladra de loucura, nunca teve uma refeição tão deliciosa, os ossos são um manjar crocante que ele não largaria por nada deste mundo.

Numa ligação directa para o esgoto, através de uma tampa destapada lança as várias partes fragmentadas. Trabalho moroso que faz de modo assertivo e sem perdas de tempo.

Resolvida a contrariedade, urge encontrar alguém que a possa auxiliar no trabalho de sinalética, a entrega está para breve. Resolve contratar outro informático freelance que a possa auxiliar na sua missão. O novo ajudante é no entanto bastante diferente de mim, com personalidade forte e carácter assumido não se encaixa no padrão patológico de vitima consentida.

Logo que nota os primeiros sintomas de anomalia faz notar as suas opiniões, expulsa o cão sem meias medidas e responde à altura com uma chapada bem aviada numa bruxa amochada que percebe que mesmo no seu reino de sombras tem medo de quem é mais forte que ela.


Ouve os desaforos dele e fica caladinha, quando este fecha o portão de forma abrupta na saída nem se mexe. É preciso ter cuidado nem tudo na vida são favas contadas, vampiros tem que ter cautela com o sangue estragado, existem muitos babacas que respondem à altura. Cordeirinhos mansos existem é só saber pescá-los, pedem desculpa por tudo e no fim pisá-los é uma tentação.


:::

terça-feira, maio 12, 2009

Cocktail Bacon I
(Citações do grande Filósofo que originaram pequeníssimas histórias)





Francis Bacon, Barão de Verulam e Visconde de St. Albans (21 de Janeiro de 1561 - 9 de Abril de 1626), foi um filósofo, estadista e ensaísta inglês.






01

"As esposas são amantes dos homens mais jovens, companheiras para a meia-idade e amas para os velhos"

Wives are young men's mistresses, companions for middle age, and old men's nurses - Essays (1625); Of Marriage and Single Life [A vida de casados e solteiros]



Creio que fiz a escolha certa, ao fim de tantos anos de casado, sinto-me satisfeito na minha pele. São já 87 anos dos quais felizmente tenho poucos arrependimentos. Não direi que todos os momentos foram retumbantes festivais de felicidade mas consigo fazer um julgamento francamente positivo dos êxitos que alcancei na nossa relação.

Desde que ela chegou com tenra idade à casa dos meus pais, achei que me pertencia. Na nossa mansão aristocrata, existe uma criada para nos servir, eu o filho varão da família reclamo todas as posses da minha honrada dinastia que são minhas com orgulho. Recusou-se à minha vontade, de pouco lhe serviu, um homem reclama o que é dele e há-de ter de sua justiça. A choradeira dela de nada lhe bastou, apenas ganhou roupas novas para substituírem as velhas rasgadas.


Quando casei, obedeci a um contrato de conveniência arranjado pela família. A minha verdadeira esposa foi sempre aquela que eu escolhi, mesmo que encoberta pela sombra. Na mesma casa eu via-a todos os dias e ela honrava-me. A outra era a oficial, nunca a compreendi, nem achei que deveria perder tempo por isso. Nunca tive filhos dela e da sua saúde instável para além dos infortúnios desse problema; a única vantagem que poderia advir desse facto era a possibilidade de ela se finar rapidamente e eu ficar liberto de preocupações e aborrecimentos.

A minha verdadeira esposa cuidava de mim e tratava das minhas mazelas preocupando-se comigo. A organização do espaço doméstico frequentemente estava em sintonia com as necessidades do meu espaço pessoal. Nas noites em que nos aquecemos vários filhos tivemos, eram bastardos mas educação tiveram e eu acompanhei todos os passos que deram. Apesar de tudo tinha em conta a sua opinião embora mantivesse o teatro das formalidades, ela era a minha companheira onde longe de todos verdadeiramente convivíamos.


Deslumbrado achava que não havia impossíveis, arrogante, espetei-me muitas vezes no chão.
Já velho havia desbaratado a minha fortuna, coxeava com esforço, resultado de uma infortuna queda de cavalo e muitos amigos e influência havia infelizmente desbaratado. Restavam poucos os que ainda me seguiam, fiel era a minha ama que nunca me abandonava. A viver numa mísera pensão era ela doente quem arranjava o dinheiro para subsistirmos. Sem reclamar, longe das obrigações formais era o que sempre fora mesmo quando podia deixar de o ser. Inválido e preso a uma cama ela aguentava o meu cheiro fétido e as constantes trocas de fraldas e pensos. Quando a minha alma finou, senti as lágrimas desgostosas dela e o abraço forte de quem ama. Nunca tive só, a minha esposa nunca me abandonou.





02
"As obras e fundações mais nobres nasceram de homens sem filhos".

Certainly the best works, and of greatest merit for the public, have proceeded from the unmarried or childless men; which both in affection and means, have married and endowed the public.

Essays (1625); Of Marriage and Single Life [A vida de casados e solteiros]



Johan Kuroek morava na cidade de Wiesbaden, foi durante muito tempo o organista da igreja de St. Boniface. Desde muito cedo ambicionava ser um compositor de renome, desejava ombrear entre os maiores e marcar o seu nome na história. Vivia obcecado com a evolução, respondia às criticas a respeito do seu pouco talento com mais trabalho. Com vontade férrea amordaçava os devaneios casuísticos e impunha um metódico auto-controle. Afincadamente estudava os mestres nas várias fases e anotava os mais ínfimos pormenores em vários cadernos de estudo.

Foi sempre um instrumentista medíocre, nunca duvidava no entanto nas suas capacidades de concepção. Acreditava que a sua imaginação e capacidade de abstracção nunca lhe faltariam, contra toda a reacção despropositada a sua hércula vontade faria brotar o que entendesse, pois seria senhor de si próprio.

As mulheres nunca o seduziram, traziam demasiadas complicações, embora como todos desejasse ser feliz criando uma família. Tentou mas não o suficiente e o tempo passou e ele continuou solteiro em busca do seu sucesso. Com a idade a avançar só a esperança de triunfar o movia, sabia que a cada momento que tentava, mais forte ficava. Lamentava ser preciso tanto trabalho, por vezes o desanimo pairava, mas encontrava sempre estímulos, imaginando as recompensas merecidos que o seu âmago exigia.

Se ele triunfar a mulher dele orgulhosa beijá-lo-á, o filho sentirá tanto orgulho do luminoso patriarca. A casa e lar da família será deslumbrante, orgulho das redondezas mais próximas. A critica ficará rendida, legiões e admiradores segui-lo-ão desvairados pelo seu génio vencedor. Há medida que as forças fraquejavam injectava-se com os estupefacientes da ilusão, criava um mundo paralelo feliz, era o seu merecido futuro. Via os abraços, a doçura, ensinava o filho a brincar, conversava com os numerosos amigos, caminhava feliz no seu belo jardim. Antes de mergulhar no seu esforço subia à tona para respirar o sonho que estava breve.

Para os outros ele era um solteirão isolado e introvertido, prisioneiro numa pensão reles e com pouco dinheiro que subsistia sabe-se lá como. Alguém apagado, por vezes ríspido e completamente fechado na sua idiossincrasia. Nas suas fantasias o que seria já era, a família já existia e o crédito do desejo já adiantara um mundo tão sólido que talvez fosse essa a realidade principal.

Com um hobie incompreendido, sem familiares vivos que o auxiliassem, morreria de fome e seria expulso da pensão. Não fosse o sanatório onde foi internado, estaria perdido. Talvez assim fosse melhor, as trivialidades mundanas gastavam tempo vital essencial para cuidar da sua família. Preso no seu refugio semi-cerrava cada vez mais os olhos, abria-os siderado no seu magno devaneio que era utopia sólida.

Caiu desajeitadamente num lago, alienado quando o tiravam do seu trono engasgava-se cada vez mais com um mundo escuro e cada vez mais distante. Na desmazelada cela dele, além do piano estragado atenuavam-se centenas de maços de folhas com pautas escritas. Um professor do conservatório chegou a analisar cuidadosamente o legado de Kuroek. Mediocridade incompreensível, dir-se-ia que com os anos a passar deteriorou-e cada vez mais. Tanto trabalho em vão, erros infantis, ideias interessantes abortadas por precipitação, esforço estéril, tanto potencial desbaratado. Os caminhos tortuosos levaram-no a um beco, quantas almas nessa viela se superaram inflamando-se altruísticamente em prol da sua arte. Lamentavelmente nunca ninguém o acordou ou o ajudou, deixaram-no morrer num esforço inglório. Hoje as suas preciosas pautas estão espalhadas no chão, levadas pelo vento, sujas e rasgadas pelos outros doentes.






03
"A prosperidade não está isenta de muitos temores e desprazeres, e a adversidade não está desprovida de conforto e esperança".

Prosperity is not without many fears and distastes; and adversity is not without comforts and hopes.
Essays (1625); Of Adversity [Da adversidade]



Simão Pereira quando emigrou da Beira para a capitania de Pernambuco no Brasil não esperava um mar de facilidades. Só quem tinha dinheiro podia comprar terras à coroa e havia tantas histórias de perdição nesse novo mundo. Nunca acreditou no ouro que jorrava no sul, onde havia cobiça e facilidade sobravam apenas estilhaços de lutas estéreis. O sustento que a terra dá é apesar de tudo a melhor certeza, foi isso que os seus pais lhe ensinaram e ele tentou nunca esquecer. Optimista acreditava que o mérito triunfa sempre, mesmo numa situação de desvantagem. Como jornaleiro trabalhou até não poder mais, os filhos ficaram com o legado de continuar a sua obra.


A família Viera de Melo foi fortemente afectada pela quebra de preços do açúcar no mercado mundial. Após a expulsão dos holandeses do Nordeste do Brasil, a concorrência das Antilhas levou a uma guerra de preços e à decadência dos latifundiários pernambucanos que perderam mercados de venda. Muitos destes endividaram-se perante os comerciantes da região e sendo estes credores tentaram aumentar o seu estatuto e influência na região. Deu-se a guerra dos mascates onde Bernardo Vieira de Melo era o chefe da revolta, quando a metrópole interviu os revoltosos foram fortemente punidos.

Era uma família habituada na abundância, o seu poder parecia eterno, beneméritos que com as suas doações muito contribuíram para as faustosas igrejas da região. A inveja e rivalidade corroíam as relações entre os seus iguais. Na sua imensa fortuna, chacais danados esperam a noite para saquearem o tesouro, a carcaça será estourada por bestas enfurecidas que chupam roubando. O açúcar azedava, a vida tornava-se inconfortável, naquele topo todos conspiravam perante a inércia apodrecida.

Foram necessárias três gerações para a família Pereira conseguir a merecida prosperidade. Mesmo entregues ao esforço árduo, a miséria, doenças dizimavam mas a crença de seguirem o bom caminho iluminava a esperança de dias melhores. Compraram parte das terras dos endividados Melos e nas suas cinzas construíram um novo império.


:::


domingo, maio 10, 2009

NU :::

" It is easy to let men alone when they do things our way. The test of a truly enlightened civilization is one that lets people alone, to pursue their own predilections, even when the majority of us prefer to live our lives very differently from theirs."

Jacob M. Appel, author and bioethicist, 2009.




Nu








_

Confuso, procurava um refúgio, caminhava há dias com a mochila nas costas. Por entre serras perdi-me na natureza. Descobri uma aldeia ao fim de várias semanas, pela forma que os habitantes me receberam não deveria ser comum serem visitados por forasteiros. De acessos limitados, aquele santuário perdido mantém as suas peculiares características "insulares". Deram-me hospedagem na casa de pasto da aldeia, tratando-me com consideração e hospitalagem. Notava-se de forma premente a excitação por um estranho entrar naquele universo tão fechado e familiar, o burburinho era constante e grupos de transeuntes juntavam-se para poderem observar-me.

Depois do jantar, tive oportunidade de trocar impressões com o dono da casa de pasto, um viúvo de bom trato mas talvez um pouco taciturno. Os outros clientes faziam-me frequentes perguntas sobre o mundo exterior, quase cortavam a minha respiração com tantas questões, sentia alguma dificuldade em dar vazão a tanta curiosidade insaciada.

Após um banho, exausto senti necessidade de dormir, há muito que não dormia numa cama confortável e tinha as costas doridas do esforço de transportar a minha pesada mochila. Antes de adormecer, escutei algumas palavras dispersas. As paredes de madeira tinham pouco isolamento acústico e facilmente escutaria conversas perdidas.





- Ele tem um nariz de pássaro.

- O pior apesar de tudo são as sobrancelhas, acho-as muito vincadas.

- Não o acho feio apesar de tudo.

- Eu acho! Depois aquela maneira atarracada como ele anda, quando for velho há-de ser um marreco.





Pensei se falariam de mim, não pude deixar de achar alguma graça ao espírito pacóvio daquelas meninas que trocavam tais pueris impressões. Adormeci a sorrir atordoado pelo cansaço.


Acordei tarde, trazia comigo algum cansaço acumulado, difícil de extorquir rapidamente. Depois do pequeno almoço dei uma passeata pelo vilarejo, acenava frequentas vezes aos transeuntes que encontrava a olharem longamente para mim.


Havia uma pequena praça improvisado em terra batida, igreja, celeiro comum, imensidade de crianças que brincavam no lixo espalhado na rua. Sempre que avançava, sentia que cochichavam a meu respeito, fosse quem fosse, homens, mulheres ou crianças. Era uma sensação estranha por trás das minhas costas, comentavam descaradamente. Já não tinham vergonha em disfarçar, a tonalidade das vozes era cada vez mais elevada e nítida.






- Que grande Javardo! Viram como tomou banho ontem, nem se ensaboou devidamente.

-De facto foi pouco cuidadoso, mas cá para mim a comadre estava era a olhar para o que ele tinha entre as pernas.

-Não diga disparates!! O meu marido é muito melhor.

-Calem-se suas galinhas! Aposto que também estiveram a mirar-lhe o rabo, suas desenvergonhadas!

-O pai tá sempre a dizer que eu sou desarrumado, mas ele espalhou as coisas todas no chão, aquilo parecia uma pocilga.

-Os maus exemplos dos estrangeiros desleixados não servem de desculpa a ninguém.






Não quero acreditar no que estava a ouvir. Que criaturas são estas? Isto é doentio!...Contraio o meu rosto e furibundo avanço o passo. Afasto quem se encontra no meu caminho e regresso intempestivamente para a Casa de Pasto. Quando levanto o olhar e miro a populaça, continuam a conversar como se eu não existisse, não sentem qualquer vergonha de falar descaradamente sobre mim comigo a assistir.

Fecho a porta do quarto e tento conter a minha fúria, nada disto é normal, os limites da dignidade foram ultrapassados. Sentado na cama, olho para o mapa e vejo que novos percursos poderei seguir, tento desanuviar e pensar no futuro da viagem. Estava a rodar a bússola para apontar o ponteiro em direcção ao norte quando ouço vozes que sussurram atrás das frágeis paredes de madeira.








- Nunca teve muito jeito para viagens, lembro-me quando era novo, perdia-se frequentemente.

-Sim é muito desastrado! Tem a mania que é uma grande coisa!!!

-É um pateta alegre que tenta mascarar a vida medíocre que tem!! A mãe está doente no hospital e ele em vez de estar a sofrer em casa a cuidar dela, anda nestas viagens a fingir que faz alguma coisa.


- O pior é que nem sente remorsos! É um fracasso, incapaz de se olhar ao espelho.







Em combustão furiosa, reajo e sem mais demoras dou um soco na parede em tom de revolta. levanto-me desassombrado e hesitando minimamente abro a porta com franca violência. num olhar assassino fixo o grupo de cinco pessoas que alegremente tagarelavam. Busco uma reacção, alguma culpa. Nada, após mirarem-me por ter batido na parede e aberto a porta de forma áspera, continuam a bisbilhotar de forma relaxada.







-Ele não tem muitas maneiras. É um egoísta que não liga minimamente ao papel que faz na sociedade, quando percebe que pisou o que não devia, pede desculpa. O que ele sempre teve na vida dele foi mimo! Se tem levado umas boas palmadas quando merecia, não tinha chegado a este ponto.

- Não se esqueçam que ele é essencialmente um cobarde. Sempre foi isso ao longo da vida. Lembram-se quando ele era novo, nas brincadeiras com os outros cachopos levava sempre tareia e inclusive de miúdos mais novos! Sempre com medo! Dizia a ele próprio que se batesse em alguém depois os pais não o defenderiam e que tinha que se resignar com a realidade. Desculpas!

-Tem bom coração, preocupa-se com os amigos.


-Sim quando consegue estar uns segundos sem olhar para o espelho enquanto limpa o umbigo sujo de tanto narcisismo.







Não me contenho!!! Estou a ser ofendido! Não há mais nenhuma explicação, a minha aversão à violência não justifica a minha passividade. Dou uma passada energética e empurro o campónio horroroso que fez o ultimo comentário. Sem meias medidas lanço uma estalada inicialmente tímida mas depois confirmo o que fiz anteriormente e avanço com mais quatro com intensidade crescente.

Numa rotação fixo os meus intervenientes e grito em plena cólera as seguintes afirmações.




-Quem é que vocês julgam que são? Suas bestas!! Quem vos deu o direito de comentar o que eu faço? Meterem-se na minha vida!! Vocês conhecem-me de algum lado?? Cabrões!!! Este vilarejo de merda é o quê!! Desde que cá cheguei só falam de mim à descarada.




Empurro uma senhora e dou um safanão a um velho, a tensão da injuria é tal que a minha respiração ofegante desarticula o meu discurso. Após ganhar fôlego insisto.





-Doidos!! Doidos!!! Nunca vi uma coisa assim.... Hum.... Não tem nada a dizer? Não?




Um momento de silêncio impõe-se perante a gana esventradora que o meu olhar injecta. Não demora muito que me ignorem e continuem com a panaceia deles no mais inacreditável desrespeito que alguma vez assisti.






-Há três anos atrás quando a directora do trabalho gozava com o ar submissivo dele, ele foi incapaz de uma reacção. Tinha que engolir em seco, dizia a si próprio que precisava do dinheiro e da dignidade não precisava?

- Mister "cobardolas" será um cagufas até ao fim da vida, sempre muito rápido a tentar encontrar uma qualquer desculpa para se justificar. A ponderação e a calma não disfarçam a falta de carácter e personalidade.

- E quando o enganaram no trabalho? Ele foi capaz de uma reacção? Nah! O gatuno do Alexandre continuava a dar-lhe tangas e ele insistia como se aquilo fosse um concurso de paciência. Esconde-se atrás da alienação, prefere não pensar no cancro infecto que ele é. bem pode inventar viagens, passeios de recreio com barcos e até alpinismo, a barata nojenta existe.




Incontido, grito e arrebato a minha fúria, quero que eles se calem, mas só consigo que falem mais alto, chegam cada vez mais pessoas. É um berreiro intenso, conversam a vociferar, enquanto se desviam dos pontapés e socos que distribuo e que intensifico quando vejo que não tenho reacção dos meus intervenientes. O corredor está cada vez mais cheio de pessoas, que descontraidamente me ignoram enquanto corpo físico mas que palram intensamente sobre a minha persona. Ignoro como sabem tanto, eles vêm tudo mesmo o que eu não sabia. Estou numa colmeia de abelhas que me querem ensandecer.

já não ouço mais nada além de zumbidos incessantes que se aproximam perigosamente da anarquia cacofónica.

Tenho que sair daqui, naquela claustrofobia estou enclausurado, como um rato a ser apanhado numa avalanche em crescendo. Com esforço e a respirar ao máximo, consigo contorcer-me o suficiente para forçar passagens e abrir a porta de saída. Na ruas as pessoas esgrimem argumentos, aos magotes e em plena festa comentam apaixonadamente a minha memória.






-Cumpre sempre os horários, escusam de o estar a massacrar. É alguém responsável.

-Já foi mais. O desleixo nele cresce a olhos desmedidos. Come muito depressa, aquela pança um dia destes explode.


-Não devia comer tantos doces, sabe que geneticamente tem tendência para ganhar Diabetes e Colesterol. Vai acabar os dias numa cama de hospital e depois é bem feito que o abandonem como ele fez com a mãe dele.

-Ele não abandonou a mãe dele. Trata dela minimamente.

-Ha!Ha!! Um cão sarmento. Sempre a inventar desculpas, a fingir-se esquecido. Capaz de ficar horas a não fazer nada. Incapaz de ser um homem e aguentar o peso das responsabilidades. Maricas da merda!

-Aqueles dentes podres!!! Um dia desfazem-se! Só chumbo e aquela mania idiota de usar palitos... Tristeza! Por vezes pega em fósforos e com o canivete afia-os para criar palitos improvisados.

- E usar a chave do carro para funcionar como um cotonete? Ah! Ah!!...


- Grande porco! Nada literalmente em pó na casa dele. Usar o aspirador não é com ele. E as paredes sujas? São anos e anos de desleixo!







Doentiamente desvairado, despejo a minha irritação. Sou fúria monocórdica que em sobre-aquecimento desfere encontrões, murros e rajadas de sopapos. Eles falam cada vez mais rapidamente e com um tom mais elevado. São grilos que zumbem como uma fábrica de quinquelharia. Estrondoso tremor de terra que se estilhaça em vidros partidos que ferem.

Estou rodeado daquele enxame e nada o pára. Corro tanto então mas eles perseguem-me, tapo os ouvidos, selando toda a audição. Recuso o menor som, a mais ínfima percepção, exijo silêncio. Fecho os olhos e estou no primeiro buraco que encontrei de joelhos, pudesse eu e afundaria o meu rosto no vazio.

Acalmo o meu coração, estou a vários metros de distância da aldeia, nem sei como cá cheguei. Quem é esta gente, como podem entrar nos meus pensamentos? Estou cercado e se continuo assim serei prensado. Tento não pensar, congelo tudo, de olhos fechados espero o fim das lágrimas e o termino dos soluços.

Não sei quanto tempo passou, devo regressar apesar de tudo pois não tenho outra opção. os limites da normalidade extrapolaram o lógico. Não sei quem é louco nesta história, mas sempre acreditei que os meus pensamentos eram meus. Aquelas horrendas criaturas vasculham tudo o que fiz, faço e poderei fazer. Estou desposado diante deles e um desprovido tem mais vergonha e inquietação defronte de fiscais cobertos, uma manifesta cobardia desigual.

Percebo que se os ignorar os seus cochichos são mais ténues. Por mais que tente não consigo selar os meus ouvidos.






-Cozinha nunca foi o forte dele, mas o curso de culinária fez com que ele melhorasse a olhos vistos.

-Um talento que ele ignorava que no entanto já o fez ganhar insuspeitos elogios.

-Tudo começou quando viu como o Ricardo, antigo amigo de infância, progredia a olhos vistos naquele novo hobbie. Sentiu uma certa inveja e necessidade de competir com ele, afinal sempre achou que tudo o que ele fizesse era alcançável.




Tento controlar a respiração, aproximo-me da campónia e questionou-a.



-Como é que sabe isso? Por favor explique-me... Estou a ser educado!



Não me liga, dir-se-ia que não repara que existo, prossegue a conversa, tenho que me conter se reagir o zumbido pode voltar. Regresso à casa de pasto e questiono o dono, mantém o mesmo ar passivo de sempre, inexpressivo. Ele afirma que não sabe o que eu estou a falar e inquira se não estarei a ter visões. Concluo que o melhor que tenho a fazer é sair daqui o mais depressa possível, dou indicações para que sejam preparados os mantimentos para a viagem.

Gostaria de ainda naquele dia ter abalado, infelizmente a melhor altura em termos de rendimento para iniciar a jornada é de manhã. Regresso aos guias e mapas no meu quarto, tapo os ouvidos da melhor forma que consigo. Estancado e bloqueado movimento-me energicamente rejeitando a mais ínfima reflexão.

Revolta-me ser prisioneiro, ter que aguentar o desconforto de ter duas meias sujas enroladas com fita-cola a vedar a minha audição. Depois do jantar confirmo os preparativos finais, troco algum palavreado com o meu senhorio num clima reservado e contido. Eles estão lá, nunca saíram.





-Tem que ter cuidado com os problemas nos intestinos, a prisão de ventre causa estragos.

-É a idade. Com o tempo só tem tendência para piorar. As dores no femur da perna direita são menos habituais, afinal quando ele teve aquele acidente foi há 12 anos, já tudo deveria estar sarado.

-Não tarda muito os cabelos brancos vão começar a surgir.

-Isto de ser velhote é um tempinho, os vermes acabam connosco em pouco tempo e depois ficamos azedos.... Um horror! É bom ser novo e viver-se iludido que tudo é possível, em velhos quando crescemos percebemos que afinal não somos uma porcaria quando vamos agoniados com as nossas fezes duras e mal-cheirosas.

-Ainda bem que eu não sou idoso!

-Ah!Ah!!Ah!




Na cama de noite tento à força adormecer mas os fantasmas tão lá, sei que se os ignorar, os murmúrios deles entendem-se menos. É difícil controlarmos a nossa vontade e os nossos pensamentos. Só a exaustão do esforço me forçará a adormecer quando menos esperar.





-Ele não vai conseguir fazer nada, pois não?

-Desculpa-se nas circunstâncias para justificar não poder fazer mais.

-Mas ele não faz nada, é um tremendo pateta impotente.

-Tem medo, não é único.

-As pessoas podem ter medo por variados motivos. Experiências traumatizantes, medo de experimentar, cobardia, instinto.

-A vida não o forçou a mexer-se suficientemente. A colcha que o cobre é apesar de tudo confortável e isso justifica o imobilismo.





De madrugada ao ser acordado, o sono persegue-me, com esforço termino os últimos retoques. Depois do pequeno almoço troco umas palavras de despedida com o meu anfitrião. Num último esforço questiono-o sobre o porquê de tudo isto. Neutral e despercebido não me compreende, não sabe do que falo.

Há medida que avanço e me afasto daquele recôndito local, contesto o que vi e ouvi. Quando não olhava para os rostos deles, escutava mais palavras. Tudo tão extraordinário sem sentido exequível. Acho no entanto que vou conseguir esquecer este caso, afinal esqueço tanta coisa que se passa na minha vida, isto não há-de ser impossível.


:::