segunda-feira, junho 29, 2009

Loucura da vida banal.


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Loucos há muitos de preferência bem excêntricos, alguns completamente doidos sem nexo com a realidade. A comunicação social mostra-nos muitos desses espécimes, sobretudo figuras publicas de monta. Dá audiências e lucro mostrar as anormalidades que desobedecem à lógica e moral da sociedade.


Talvez todos nos possamos julgar superiores ao apenas normais, porém se reflectirmos mais serenamente não teremos nós os nossos momentos de anormalidade? Provavelmente são mais do que julgamos, partimos do principio que existem comportamentos maioritários normalizados que dominam a nossa vida. Se pensarmos como a vida de um ser humano pode ser espantosamente longa veremos que ao longo desse percurso muitas voltas e contorcionismos fazemos.

Nas revistas de "tontarias" podemos sempre troçar dos "Michael Jacksons" deste mundo e sorrimos elogiando o nosso equilíbrio e superioridade. Olhem bem para o fundo do espelho, está lá muita coisa que não vêm.






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João Mendes respeitável operador de caixa de um supermercado é elogiado por todos que o conhecem, elogiam-lhe a dedicação e honestidade além do profissionalismo. Porém para além das aparências e de uma certa reserva que guarda, farão sentido alguns comportamentos dele?
Porque razão antes de sair de casa no prédio onde habita, tenta escutar se alguém sai ao mesmo tempo que ele se prepara para abrir a porta.


Se escutar algum movimento suspeito faz um compasso de espera para não ter que cruzar com um vizinho. Porquê este receio ilógico? Repetido consecutivamente há já vários anos desde tempos imemoráveis.

Porque motivo desvia-se do caminho e inventa uma desculpa consciente ou inconscientemente para não ter olhar ou confrontar-se com um antigo colega da escola ou conhecido de circunstância?


Qual a necessidade de ser irreconhecível e permanecer na sombra anónimo longe do controle? Estacionar o carro por vezes demasiado longe do local onde vive, somente para os vizinhos e transeuntes não conhecerem mais dados sobre a sua existência e hábitos.

Fará sentido arranjar desculpas para não sair com os amigos, dizendo que se tem um programa alternativo quando na verdade estamos em casa a fazer qualquer coisa aborrecido. Os escassos e recorrentes amigos do João, conhecem demasiado bem as suas fraquezas e qualidades.


Por vezes talvez o desrespeitem devido à sua fraca personalidade e excessiva ligeireza que se assemelha por vezes a submissão.


Sente que deve manter uma certa distância pois a dependência cria abusos e isso pode derivar em faltas de respeito e situações embaraçosas. Sem alternativas, enclausura-se no seu mundo e inventa programas alternativos que realmente não possui apenas para manter uma aparência.





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O melhor amigo do João é o Roberto Guilherme que trabalha num centro de cópias. De trato afável sabe esconder eficazmente os seus podres. Quando conversa com os amigos transmite convicção e entusiasmo tentando captar a atenção de quem o escuta. Quase que consegue por vezes ser tagarela e derrapa numa certa insistência que o transforma aos olhos dos outros em alguém desagradável e inconveniente.


Farão sentido as centenas de mentiras que ele conta diariamente por vezes de forma quase inconscientemente em que parece dourar a vida dele num auto-elogio lancinante e constante.

Porque tem ele esta necessidade de ser aprovado e parecer melhor do que realmente é? Ele diz que comprou umas capas de couro para o carro que foram uma pechincha fazendo um extraordinário negócio quando na verdade até foram bem mais caras que o preço de mercado. Qual o motivo para mostrar a espantosa sorte do pai que consegue inacreditáveis benesses de poderosos padrinhos?



Desde brindes, jantares gratuitos, convites de férias... Tudo uma imensa aldrabice, não só não recebe muitas alvissaras como ainda sobra má educação e ingratidão.




As escolhas dele é que são, o clube, partido , família, carro, incrível esperteza, tacto genial, os instintos apurados, a sua inegável masculinidade, a forma como é afirmativo, como nunca permite que ninguém o pise sem levar o troco. Ele, ele, ele, ele..... é o maior, uma estrela no universo e parece incrível como ainda não recebeu uma condecoração da Presidência da República.




Todas as vezes que olha para o espelho tenta não ver o trintão desajeitado e feio que a idade está a enrugar. O penteado estúpido que faz o cabelo parecer amarrafado não consegue esconder as horríveis entradas, a explosão de acne continua a irromper como se ele fosse o eterno adolescente que no fundo nunca deixará de ser. Sim ele nunca se vai casar mas não é por isso que as mentiras vão acabar.




No entanto para quem o conhece há muito cada vez é mais incomportável o seu discurso extrapolado a enviesar para a loucura delirante. Não é apenas o ego delirante e a falta de controle, são erros acumulados que extravasam a realidade.




Mais de meia-hora a conversar e percebemos que o novo tubo de escape cromado com dupla distorção de titânio que veio dos Estados Unidos e que poucos tem acesso é para ele uma certeza. Já vive das suas mentiras e cada vez mais está embrenhado nelas, precisa delas para criar a sua realidade alternativa que o compensa e satisfaz.



Sente uma imensa necessidade de ter novos amigos, pois os velhos parecem cada vez mais disfarçar as feições e a relativizar a sua credibilidade. Outros papalvos inocentes poderão cair mais facilmente no seu justo conto de fadas. Talvez consigam perceber melhor a magnificência da sua beleza e digno heroísmo.





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A prima do Roberto do lado materno tem a sua face oculta como todos nós temos. Contabilista certinha, há muito que o medo é seu companheiro. parece incrivel o grau de sustentação com que fundamenta as suas decisões, imensas cortinas de fumo para esconder a sua inoperância e fuga em frente.




Se não quer ir para a praia com os amigos do trabalho uma conveniente doença de pele é inventada como álibi. Jamais ela iria nua para um lamaçal de areia inundado de porcos depravados que a comiam com o olhar. Ir ao teatro nem pensar, gastar dinheiro em algo que não se sabe se poderá ser interessante. Bah! Uma desculpa de excesso de trabalho resolve tudo isso.




Ir levantar cedo para andar cedo de bicicleta com o irmão? Suar escusadamente e mostrar a fraca forma física para depois ser humilhada. Só se ela fosse louca! Uma recusa directa serve perfeitamente. Sair de casa ao fim de semana para quê?




Ainda podemos ser atropeladas e faz sentido ir para algum lugar quando não temos vida social e qualquer objectivo? A mãe é muito chata mas podemos sempre isolarmo-nos no quarto a fingir que temos trabalho do emprego para fazer. Sim a solução é refugiarmo-nos no emprego e darmos tudo por tudo, até não sentirmos mais nada, até sermos inundados pelo que nos é familiar e não pelo que nos inquieta.






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A Marisa e o Fernando casaram recentemente, optaram por escolher uma casa num condomínio bastante dispendioso. Para eles é o concretizar de um merecido sonho, uma prova de exibição que mostrará a sua excelência e mérito.



Os horríveis juros do empréstimo irão ao longo dos anos destruir as ilusões dos incautos que julgam que aparência justifica portentosos sacrifícios. A dor pode não vir de uma vez mas com o tempo isso ainda se torna mais doloroso, são anos e anos de renúncias, não se sabe bem para quê.

Não podem gastar dinheiro em férias, não convém ter filhos agora, saídas ao fim de semana também não são convenientes. Mudar de emprego nem pensar, demasiado arriscado, mesmo com um patrão abusivo que nos cospe na cara.



O mestrado que poderia melhorar a carreira, entra em conflito com o emprego e o supostos benefícios de lei para trabalhador-estudante são apenas uma miragem. Um conveniente despedimento pode provocar o desmoronar do caro castelo de areia. Armadilhados só lhes resta esperar que as nuvens sumam, enquanto a idade avança.




O orgulho impõe o inferno diário, perante as sugestões que fujam para outra casa mais em conta, recusam. O palácio é deles, o seu troféu e é cada vez mais patético os elogios doentios com que eles exaltam o sonho da sua vida. Afinal a cobra que os estrangula consegue ainda assim ter beleza?




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Falemos também de Sónia Sousa funcionária pública no Instituto português da Qualidade soma já 56 anos. A voz dela exalta um enfado que parece o começo de um sono dormente e anestesiante. Lenta nos movimentos, aliena-se da sua imensa degeneração num corpo que já foi belo e hoje naufraga numa obesidade irremediável.


O AVC do marido, deixou-a disléxica, incapaz de comunicar sem erros de linguagem primários. Revoltado percebe que perdeu qualidades e todos o miram com um coitado, acaba por atacar a família na sua dor.


A filha subsiste em casa dos pais continuamente mimada e perdida em busca de uma vocação e destino. É pois Sónia Sousa quem lidera a família a partir do dinheiro que emana do seu emprego monótono e disfuncional.

As conversas cada vez fragmentadas, revelam sintomas prementes que a forma como ela se exprime perde a todo momento qualidade e nexo. São erros de gramática constantes e uma frequente perda de concentração. A necessidade de fuga nunca concedida acumula-se numa vida burocrática e normalizada que capa todas as esperanças e ilusões. Ao fim de alguns minutos com uns desconhecidos sabe que não consegue disfarçar mais o que é evidente.

Está a ser desconsiderada e acham-na meia louca. Sim o olhar assustado dos intervenientes denuncia isso, amor fraterno que fique para os normais porque os doentes são contagiosos e queimam. Ano após ano é ela que aguenta tudo, pilhas e pilhas de tijolos a arder e agora percebe que chamuscou as mãos e a mente. Talvez tenha fracturado a alma, sozinha nem chorar consegue.

Para quem conversa quem esta senhora desengonçada, com um penteado ridículo que usa óculos com uma graduação errada só vêm confusão errática de quem se embaraça em equívocos e está estragado. Será assim tão difícil perceber que precisa de ajuda?

Talvez seja complexo perceber porque é que a voz dela vai diminuindo de volume quase ao nível do pensamento e interrompe assuntos de trabalho com pormenores intimistas fora do contexto. A perda de auto-controle é uma inevitabilidade num cenário onde o erosão constante progride a olhos vistos .


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