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Paulo Ridoneo trabalha numa pequena empresa de assessoria empresarial. A principal accionista e directora executiva gere a empresa com braço de ferro, usando métodos medievais na forma como lida com os vários empregados.
Dezenas de trabalhadores abandonaram o local de trabalho asfixiados pela demência que roça a selvajaria, é um castigo aturar tal criatura. Cristina Rivaldo nas suas conversas impõe sempre o tom imperativo, pesado e denso. Por vezes tenta alternar com um ar mais jovial para não parecer tão opressora, mas só consegue passar a imagem de algo forçado e dissimulado.
Para ela jamais um empregado deverá ter um ar afirmativo ou desafiador isso é uma afronta a sua honradez e autoridade. Provavelmente é um desertor que quer abandonar o navio por se achar muito "superior". Comando para ela é dominar o outro pessoalmente, dar ordens sem afrontas e sem desculpas.
Se for branda e amaciar abusarão dela e no fim será a derrocada da empresa e do seu mundo. Muitas vezes não percebe que o seu ar autista e arrogante desemboca na mal educação e humilhação. Para cúmulo frequentas vezes traz os seus problemas pessoais para o local de trabalho e satisfaz-se na tortura sádica que aflige aos seus colaboradores.
Paulo Ridoneo desde o principio a temeu e procura a todo o custo passar despercebido, esconder-se na paisagem como um camaleão. Porém as suas tentativas de escapar são vãs, o confronto surgirá sempre nas zonas de atrito. Adopta o ar submissivo que as normas convencionaram mas isso ainda o faz passar por mais fraco, logo vitima mais certeira para o chicote.
Em sonhos existe a libertação, consegue esbofotea-la sem pensar nas consequências, não adiante esta pedir clemência o castigo é aplicado, contabilizando-se todas as afrontas consentidas anteriormente. Na imaginação é feita justiça e são equilibradas as injustas cartas da realidade.
De regresso ao trabalho o inferno continua, aí recua-se e tenta-se não existir. Uma sequência de acontecimentos tornaram no entanto o dia a dia do Paulo ainda mais intragável. Uma série de erros no relatório sobre a recuperação da Sifonal resultaram numa escalada de violência verbal que terminou inclusive com uma humilhação pública diante dos seus colegas.
Nunca passaria na cabeça da Suserana despedir alguém, seria o regressar à lotaria das novas admissões onde invariavelmente cai a fava da ingratidão. Há que manter os que cá estão e aguentam, os que vierem só podem ainda ser piores.
Agora os clamores de vingança soavam mais fortes, honra ele nunca teve de tanto o pisarem ao longo da vida. Respeito perde-o constantemente cada minuto que passa. Pudesse ele fugir se soubesse vencer o medo que o amordaçou constantemente ao longo da vida. Amaldiçoa por vezes os pais dele por o terem educado a ser tão respeitador, certinho e assertivo, o que recebe em troca é exploração e troça.
A raiva percorre-o, a vingança brilha, se tivesse energia para a sovar com puro ódio. Estalar ossos e estoirar carne sem que nada o detivesse. Nas reuniões quando a observa guarnecido de uma certa garantia quase sente vontade de aproximar a mão em direcção ao alvo. Acobarda-se e não adianta inventar desculpas a respeito da distância, estivesse sozinho com ela num local isolado o medo venceria sempre. É um cobarde e não há nada a fazer, impotente anseia desesperado por uma brisa que o levante.
Quando a Daniela Correa um dia desesperada com o mau comportamento da patroa, toma a atitude de discutir emitindo gritos plenos de desafio, ele delira com o espectáculo.
Como deseja ser um manipulador que maneja uma marioneta e num sorriso maligno trespassar a fera odienta.
Uma ideia surge-lhe na mente, porque não colocar um preservativo cheio de diluente com alguns cartuchos dentro do tubo de escape.
Não estuda seriamente o assunto, numa ingenuidade pueril de uma criança inconsciente resolve avançar. Ignora qual será o resultado, existe um certo prazer em deixar aleatoriamente o destino decidir, se cai na armadilha calculista amarra-se no medo da reacção e consequência. Com um guardanapo de papel segura o preservativo como quem leva uma salsicha. Escolhe uma quarta-feira depois de cumprir o horário de expediente certifica-se que a horrenda ainda continua na sua posição a trabalhar até mais tarde.
É inverno anoitece mais cedo, num movimento rápido finge que vai atar os atacadores mas aproveita para enfiar o que pretende no tubo de escape. Sincronizado cumpre a sua missão, ajuda naquela zona do passeio publico não passar ninguém. Todo o esforço é para parecer natural e não conseguir soltar um soluço de medo que o paralise e auto-sabote.
Tudo o que deseja é chegar a casa, no trajecto nos transportes públicos, anestesia-se num sono dormente que congela o drama que libertado quando chega a casa, explode em alerta triturador. São poucas as almofadas onde se enterra acossado pelo arrependimento e medo da punição.
Dificilmente consegue jantar e apenas comprimidos para o sono param a tormenta dum cansaço que não terminava. No dia a seguir é a expectativa do que aconteceu, no gravador de chamadas não apareceu nenhuma indicação, ninguém tentou comunicar com ele, o que talvez seja uma boa noticia. Segue o seu dia a dia rotineiro, cabisbaixo tenta passar despercebido como se dormisse ainda e nada realmente existisse.
Quando sobe o elevador, espera sempre apanhar alguém que lhe conte as boas novas, mas nada. O murmurinho agitado, revela o primeiro sinal, antes de aberta a porta vem a torrente de novidades. Aquilo explodiu realmente! Ela escapou mas ficou ferida e não houve vitimas laterais.
Como foi ele capaz desta loucura, decerto hipnotizado na inconsciência dos que pensam que sonham e não que fazem. Talvez não fosse realidade, seria como quando se roubou o papel de embrulho que se colocou por baixo da coleira do "Jolie", o objectivo era explodir com aquele refilão canídeo. Brincadeiras infantis que nunca largam quem não quer crescer, porque se fizer isso e acordar vai cegar perante um mundo feio que irrompe lava de maldade.
Ninguém esconde o desejo de a ver sofrer, de preferência que esta esteja desfigurada, fragilizada, doente e acabada. O desprezo e ódio é comum, ela que apodreça, vadia infecta que tresanda a desaforo engolido. Sim percebe-se que apoiam o castigo, nesta fase não se discute culpados tudo parece indicar para um acidente não explicado.
O pior vem depois, a sobrevivente carrega o peso de ficar deficiente e nunca mais poder andar normalmente, coxeará eternamente acompanhada de uma muleta, além de queimadura graves espalhadas pelo corpo em locais dispersos. Todas as energias dela são canalizadas para a resolução do porquê daquele acontecimento. Um culpado existirá ou talvez até vários, patifes que pagarão caro!
Quando regressa carrega todo o ódio e frustração do mundo mais selvática que nunca, mais horrenda como nunca o foi. Todos são suspeitos e os que fraquejarem mais suspeitos são! Quando mira um empregado analisa-o da cabeça aos pés e como que por telepatia deseja arrombar a mente e entrar nos seus pensamentos. A concentração está elevadíssima, sonda tudo, a respiração é densa, pesada, dir-se-ia que se preparara para manejar uma espada e trucidar todos num só golpe.
O ambiente é um pesadelo, muitos despedem-se sem pensar duas vezes, os outros desejam uma fuga rápida. Tudo se desmorona, a racionalidade empresarial deu lugar à alucinação paranóica onde trabalhadores e ex-trabalhadores são espiados como suspeitos malditos.
Nisso Paulo Ridoneo sobrevive culpando-se de ser tão cobarde e tentando ganhar coragem para a matar a sangue-frio. Comprou uma faca ponta e mola e nos seus momentos de isolamento abre-a e simula golpes certeiros que na sua imaginação assassinam a besta horrenda. Um dia para seu horror enquanto encenava o que desejava, aparece-lhe Satanás em pessoa quando a porta da segunda sala é aberta. A tentativa de esconder rapidamente a faca é vã, tudo foi observado e nada pode ser tapado.
Assustado, os olhos dele exprimem medo, os dela perseguição. Agarra-se à mão dele, mas ele foge e refugia-se num canto enquanto esgrimem movimentos de confronto. Afasta-a finalmente e é forçado a mostrar a faca com a lamina apontada em direcção a esta. O rosnar aguerrido da predadora que finalmente descobre o cobarde é o prenuncio de um estoiro em sangue salpicado.
Não trocam palavras, só monossílabos, não adiante negar a transparência das expressões revela tudo. O culpado dissimulado escondido na toca e a predadora que o encontra manejando a arma do crime que poderia acontecer. Ele só pede para não ver o medo, agora com tudo revelado só lhe resta cair perdendo tudo. Oh! Porque falta a coragem de quem nunca matou, de quem tem medo de ferir? Porque é que a consequência é tão esmagadora? Estilhaça a puta ranhosa, vádia e cadela !
Mas ele só sabe falhar. Amarrado ao medo simula movimentos inconstantes, afasta-a apenas, incapaz de cerrar um arremesso mortal. Numa dança tola de cobarde, assustado, tropeça e cai com a cabeça num canto de uma mesa, desmaia e fica a mercê do que se passar a seguir.
Depois da escuridão, surge o despertar, tudo está em silêncio. Na mesa de reuniões, deitada está a entidade patronal assassinada com a faca espetada no pescoço e com várias mazelas espalhadas pelo corpo.
Não foi ele como devia, e não está mais ninguém aqui, todos os colegas saíram do local de trabalho. Certamente todos escutaram os gritos, a turbulência, ruído da luta. Como permitiu ele que um homenzarrão corpulento de 1.90m fosse abafado por uma carcaça seca minorca com aquela voz esganiçada?
Demasiado vergonhoso, não consegue sentir humanidade naquela criatura morta, percebe que não sente ainda o equilíbrio e que lhe foi tirado o prazer de a abater. No silêncio do local abandonado comprende que os colegas quando entraram na sala viram-no desmaiado à mercê da louca.
Talvez a tenham tentado deter, julgando que ela extravasou os limites da decência e transformou os gritos insanos em violência. Tentaram agarra-la e ela reagiu como doida que é, alguém iniciou o processo e desferiu o primeiro golpe, depois tudo ficou mais fácil, todos partilharem a luta. A Daniela Correa tinha regressado para protestar salários em atraso, ela sabia fazer frente ao estropício.
Provavelmente foi das que tomou mais iniciativa e no descontrole soltou o primeiro golpe, deixaram então de a tentar agarrar. No fim era um corpo inerte sovado por uma fúria recalcada que foi destapada.
Só, isolado sem nada, só lhe resta fazer o que não fez. Pega na sua faca e estilhaça os olhos da cabra. Sim, ele nunca teve respeito pelos insectos e gosta de ferir na certeza que não pode ser atacado. Não há decência, agora é só descomprimir e soltar toda a raiva até à desfiguração, até o sangue rolar e uma poça ficar.
A policia pode estar a chegar, mas ele está preparado para a culpa carregar. Fará o que não fez tarde de mais, sem que nada o pare. Não interessa que o ridículo dispositivo que ele colocou no escape não tivesse funcionado. Esvaziou-se o diluente no chão enquanto os cartuchos caiam no chão sem consequências quando foi accionada a ignição.
Ela foi atropelada no mesmo dia durante a noite por alguém que escapou incógnito. É incrível a estupidez do Paulo Ridoneo, passaram-se dois meses desde que ela voltou de baixa e nunca descobriu qual o motivo do acidente. Culpabilizava-se por algo que enfim.... nunca criou qualquer tipo de importância, valor ou destaque. Escutou mal algumas palavras soltas e tirou conclusões erradas.
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