Máfia Berlenguense
O bairro de Escópia que fica a sul de Entropia no Município da Berlenga Central é muito curioso. Fala-se que é um autêntico reino onde a máfia Berlenguense vive, os habitantes desse bairro são muito fechados e temos sempre muitas dúvidas em perceber quais são as suas verdadeiras intenções. As ruas são estreitas quase medievais e sentimos que quando entramos naquele espaço, toda a vizinhança começa a mirar-nos. Raramente se avista alguém isolado, estão sempre acompanhados, em todo o caso nota-se que nunca estão tranquilos, é frequente estarem sobre alerta e não fixarem a visão num único ponto. Quando se entra no Café central, a maioria das mesas estão sempre ocupadas por vários grupos.
Quando dirigo a palavra ao dono do Café tenho que medir bem as palavras e ser objectivo, não posso dar a entender segundas intenções por mais inocentes que as minhas palavras sejam.
-Boa Tarde! Era um café.
-Um descafeinado, garoto, galão, capuccino...
-Apenas um café curto.... simples!
-Quer com açúcar?
-Não!
-Ok. Pode ir sentar-se que já vou servi-lo.
Esta linguagem cifrada "escopiana" pode confundir muita gente. Se um desconhecido entrar neste café e olhar com atenção para a máquina de café perceberia que se tratava de um modelo básico e aqueles tipos de café sugeridos não estão disponíveis. Um descafeinado é quando queremos contratar alguém para dar uma tareia, um garoto é para pedir serviços de pedofilia, um galão serviços de prostituição de luxo, um cappucino compra de droga.
Ao ter pedido um café curto e grosso, significa que vou esperar por alguém, como recusei o açúcar significa que não sou criminoso.
Quando me vem servir à mesa a empregada quando recebe o dinheiro, guarda também a folha de papel que lhe dou. Lá está escrito o nome da pessoa que procuro. O dono do café conversa de forma muito intima com um individuo bastante alto. Passado um bocado vem sentar-se na mesma mesa onde estou, de forma educada põe conversa e começa a perguntar-me porque fui fazer uma visita a este bairro. Tal como há uma semana atrás, repito a mesma história, sou jornalista e precisava de fazer uma entrevista a um senhor idoso que teve problemas na segurança social.
Se eu fosse um jornalista interessado em fazer uma reportagem sobre este bairro a esta hora já estava mas era morto numa qualquer viela. Em linguagem cifrada, falar com um senhor idoso é ir falar com alguém ligado à direcção da família, segurança-social é prestar um serviço de auxilio de assistência consentido.
Da outra vez não apareceu ninguém e fiquei a ver navios, deviam desconfiar que alguém da polícia estava perto. As figuras seniores da família são perseguidos há vários anos e estão sempre incógnitos. Sinto várias movimentações dos grupos, nota-se que conversam palavras de circunstância e os olhares estão todos centrados em mim. Subitamente calam-se todos, entrou no estabelecimento um senhor com o cabelo encaracolado e gabardina. O dono do Café ausenta-se imediatamente e quem o atende é o empregado, um jovem. Quando é este moço que está ao balcão, não existem palavras cifradas e realmente isto passa a ser um Café a sério, onde não existem segundas intenções. O senhor de cabelo encaracolado deve ser um policia ou pelo menos uma figura suspeita.
Espero meia-hora como combinado e depois vou-me embora. Sei que vou ser inevitavelmente seguido até casa, o trabalho é competente se estivesse mais distraído nem notaria nada. Ao deitar-me na cama mais tarde, recordo-me como tive receio que alguém da polícia me obrigasse a parar o carro quando regressava para casa.
Poderia cometer alguma infracção de trânsito ou existir alguma operação Stop na estrada. Não se pode brincar com esta gente, são desconfiados e qualquer coincidência pode ser interpretada como conspiração. Ainda esta semana receberei as instruções do que fazer, para azar só mesmo a Judiciária andar a observar-me, realmente só me faltava mais isso.
Na segunda-feira estava na redacção do jornal como habitualmente, quando fui à casa de banho tive uma surpresa. Estava a urinar para a sanita quando ouço duas pancadas na porta do cubículo onde estava, apenas usei algumas palavras para dizer que o espaço estava ocupado. Surpreendentemente uma voz roca diz: " Café a sério é com chocolate e com um bom brandy" Conclui após um pausa. "Quarta, 19 horas".
Que trabalho amador! Obviamente eram "Judites" e os sacanas estavam a lançar-me uma armadilha. Café com chocolate é para ter uma conversa com a elite da família, brandy significa que será para falar com o filho do big boss , o "periquito", há muitos anos procurado pelas autoridades.
Topei a jogada porque em linguagem cifrada "escopiana" nunca se diz o dia da semana, se era quarta feira, refere-se apenas quatro. Isto é um perigo, significa que os "Judites" estão a par da linguagem de 1º nível!
Quando chegou a quarta-feira tremia como varas verdes, tinha arquitectado um plano mas estava receoso de falhar. Conheço muito mal a linguagem de 2º nível e isso pode ter consequências.
Quando estava a entrar no bairro, pedi lume a um dos habitantes, logo eu que nem fumo. Desejava apenas chamar a atenção, como quem não quer a coisa abaixei-me e fingi que ia atar os atacadores, o objectivo era ele ver as minhas meias brancas. Esperei que ele fosse dizer algo, reagiu quase imediatamente.
-Meia branca está em desuso...
-Pois! Foi o que se pôde arranjar.
-Hum! Outro nível pois...
Penso que ninguém me seguiu, mas isso é quase impossível, devo estar a assistir a outro nível de profissionalismo. Se olhar para trás sei que o homem com quem falei está a sussurrar com o grupo, um miúdo rápido como uma lebre começa a correr. Outros tantos miúdos misturam-se com ele, gritam de forma desinibida. " Eu é que sou o He-Man!" , "Não!! isso querias tu!!!", "He- Man, He-Man!". Deve ser a palavra-chave, começam todos a ser avisados que agora as conversas comigo passaram para o 2º nível.
Quando entro no Café, quem está ao balcão é o moço. Reparo que ele está meio assustadiço quando olha para mim. Acabo por pedir um chá para grande espanto dele, apeteceu-me simplesmente ser diferente, continuo na onda da loucura peço também uns biscoitos.
Reflicto melhor, em teoria quando falo com este empregado posso pedir o que eu quiser sem consequências, mas isso era no 1º nível, será que as regras continuam válidas? Quando a empregada vem servir-me não posso deixar de reparar que ela está a tremer, tem alguma dificuldade em olhar-me de frente. Digo então que gostaria de falar com o dono, ela olha-me confusa e engole em seco.
Demora algum tempo até o dono ir sentar-se na minha mesa. Enquanto apara o bigode pergunta-me.
-Acha que hoje vai chover?
-Acho que não.
-Já é a quinta pessoa hoje que me diz isso. Eh! Eh!
Oh Meu Deus!! Onde é que me fui meter!!! Ele vai iniciar uma conversa cifrada de 5º nível! Não sei absolutamente nada disso.
Com o olhar de forma rápida, tento ver alguém que possa parecer suspeito e ser agente infiltrado, escusado será dizer que não percepcionei nada e ainda fiz figura de parvo com aquele movimento brusco despropositado. Ele olha para mim e percebe que estou desesperado, isso apenas faz com que firme o olhar e não me largue por um minuto.
- Que acha do meu Café?
- O estabelecimento?
-Sim, claro!
-Acolhedor!
Não consigo disfarçar o imenso incómodo que não perceber onde começam as palavras de circunstância e quais são as senhas. É mais que certo que vou cometer erros, molho os biscoitos no chá e sem muitas cerimónias quase os devoro numa dentada.
-Sabe Não costumamos ter muitos estranhos neste bairro, aqui toda a gente se conhece.
-Tem vantagens e desvantagens...
Sorri de forma macabra, mostra os dentes.
-Ainda recentemente um ladrão tentou mexer no que não devia. Infelizmente um balázio nos cornos apressou a sua vida para os anjinhos.
Fico calado e entro definitivamente em pânico, não sei que linguagem cifrada é essa, mas isto é muito mau sinal!
- Como aconteceu isso?
-Você sabe, curiosos, pensou que ia apanhar qualquer coisa e afinal apanhou foi na tola.
- E os problemas com a polícia?
Pergunto eu hesitante. Fixa-me com um olhar de morte, nota-se que ele só de ouvir esta palavra fica mal disposto. Fica em silêncio uns minutos mas dispara logo a seguir isto:
-Raios! Homem... você é estúpido? Por amor de Deus, leve esta porcaria e vá-se já embora daqui!
Atira uma pequena carta para cima da mesa e contrariado desaparece pela porta dos fundos. Sem muita cerimónia levanto-me e apresso o passo, fico espantado por os outros ignorarem completamente a minha presença.
Estou completamente desprotegido, quando atravesso as ruelas para sair do bairro, dói-me o coração, anoiteceu já e vejo muitas aglomerações na rua. Não ter levado uma facada lá dentro, talvez seja um bom sinal. Quando estou a dirigir-me para o carro, um homem de grande porte pede-me um cigarro, digo que não fumo. Depois de um empurrão, o envelope que descansava no bolso interior do meu casaco fica logo nas mãos dos outros três tipos que estavam com ele. A despedida não é muito sentimental, mas fico contente por não deixar sequelas. Até há distância eu sabia que eles eram policias.
Nem sei o que fazer, acho que vou apanhar tareia de ambos os lados. Onde é que eu estava com a cabeça para me enfiar neste buraco? Hei-de escapar, escolherei o lado do mais forte.
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