quarta-feira, novembro 24, 2010

Confidente



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O Aluísio Neves surpreendia-me, estava sempre a recriminar-se e a minimizar-se num exercício de humildade extrema prestes a roçar o masoquismo. Quase que pedia desculpa por existir, era estranho aquele complexo de inferioridade e a forma como ele o ostentava. Aquele olhar suplicante exibia sofrimento, agora aos quarenta e seis anos, de cabelos brancos é que ele temia a vida? Tudo lhe parecia passar ao lado, mesmo assim ainda arranjou forças para terminar o 12º ano, uma medalha que gostava de mostrar com algum orgulho. Agastado de anos de trabalhos medíocres com profissões sem futuro, tentava projectar uma escapatória. O desemprego pode ser aparente, pois num passo atrás ás vezes ganha-se mais balanço para um bom salto para a frente. Que ele estava cercado, percebi eu desde a primeira hora, a semente do derrotismo estava bem entranhada, era tirarem-lhe o que restava de esperança e ele estrebucharia num queda inevitável.

Não devia ser tão servil, as pessoas assim são tentadas a abusar dele. Eu sentia que ele perdia-se com as palavras, falava que amanhã estudaria mais, mas no fim nem ele acreditava nisso. Adiava muitas resoluções para depois, próximo da decisão voltar a adiá-las novamente. Acima de tudo gostava de problemas vagos, questões redondas, estratosferas de pensamento, custava-lhe muito o sacrifício resultante do esforço, antevia desilusões com os inevitáveis erros e a partir de uma certa idade as pessoas só querem conforto.

Quando referia os sobrinhos, destacava-se a alegria, mas abrandava ao relembrar que era solteiro sem prole. Estava a ficar sem tempo e o currículo dele era miserável segundo os padrões da média.

A Mariana era uma senhora autoritária por vezes até conseguia dissimulá-lo quando era mais informal a conversar. Mesmo assim era frequente explodir a meio de alguma troca de palavras com uma entoação mais agressiva, acabava por ser imprevisível na forma como comunicava. Era extremamente impaciente e detestava esperar, podendo ficar exasperada muito facilmente se algo não corresse ao ritmo desejado. Ela não apreciava muito que olhassem directamente para os olhos dela e sentia necessidade frequente de marcar o terreno, acima de tudo ninguém ficava muito aconchegado perto dela.
Fora mãe muito tarde e a filha estava sempre perto dela, frequentemente exagerava na forma como manipulava o "telecomando", agora que era viúva resguardava-se muito para a filha que era tudo para ela.

Quando soube que iam casar fiquei estupefacto, a combinação entre eles não era mesmo nada evidente. Antevi sobretudo o inferno para o pobre Aluísio, estava no entanto errado nas minhas previsões. A viúva negra não devorou o infortunado miserabilista, a vitima evidente escapuliu-se e até pareceu ter inchado. Não o esperava nessa nova posição mas o facto é que ele detinha algum domínio sobre ela. Fisicamente tinha aquele ar de magricela descuidado e sendo de estatura média não era muito intimidante. Ela tinha aquelas rugas enormes na face que lhe davam um ar bem pesadão e até era alta para uma mulher. Ainda duvidei, mas ele mandava, não pedia desculpa ao fazê-lo, reflecti, decididamente fizera um retrato psicológico dele muito precipitado.

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