quarta-feira, novembro 03, 2010

Pensamentos encobertos



-

Chamo-me Cecília Carmo, mas todos me tratam por Sissi, pelo menos os que me conhecem melhor. Aparento ter um ar frágil e contido, o meu comportamento é previsível e ninguém espera de mim loucuras. Todos esperam que seja o que pareço, de facto não sou de modo algum uma pessoa ruim, simplesmente acho que por vezes percorrem-me alguns pensamentos perversos bem soturnos. Para lá da percepção, sinto que por vezes não consigo conter, controlar determinado tipo de ideias que preferiria enterrar.

Acaba por ser estranho mas esses devaneios ocorrem nos momentos mais inconvenientes que se possa imaginar numa continua tensão e todas as tentativas de auto-controle fracassam, incólumes os pensamentos prosseguem a sua trajectória.

Recentemente estive num casamento, era a minha prima Vanda que ia casar. Durante a festa da cerimónia, o típico copo de água, ocorreram na minha mente um vendaval de pensamentos maledicentes que nunca consegui controlar, quase pensei que ia fazer algum disparate. Foi um momento deveras embaraçoso.

Falava com algumas pessoas que conhecia vagamente, familiares que voltava a rever, por trás do meu ar cândido, malfeitorias sem igual circulavam na minha mente.

A minha tia Crisalda trocava impressões comigo o que ela observava era uma miúda atarracada e tímida, sempre embaraçada com as palavras. Enquanto converso, apenas vejo o ar nojento de badocha dela, qual porca sem compostura, coberta de vómitos, fede como uma doninha fedorenta.

Tento com esforço e da forma mais delicada que consigo desviar o olhar, como se temesse entrar em transe e transformar-me noutra pessoa.

A Lisabela a melhor amiga da minha prima, faz as perguntas triviais, temos um conhecimento residual mútuo. Está vestida de forma bem espampanante, não tem qualquer vergonha de exibir o corpo. Aos meus olhos, vejo uma prostituta vadia que tresanda a facilidade, é um cobra espigada, já imagino o bordel nauseabundo em que ela se move, naquele antro ela e as outras osgas sugam muitos palermas em troca do vil metal.

Ela ainda pergunta se tenho algum problema, fiquei um bocado engasgada, os meus pensamentos contorcem-me, sinto-me constrangida e até com algum complexo de culpa.

Aparece a família Esteves: pai, mãe, filho, com diplomacia fazem as típicas perguntas triviais. Mantêm uma pose altiva, no limite do moderado, misturada com alguma simpatia fabricada mas sem qualquer falha a ser apontada. Para lá da fronteira, sem eu querer, aparece uma hipocrisia dissimulada que pode ser venenosa, a maquilhagem sai e nota-se uma crosta, são repteis carnívoros que na calada da noite, decepam as presas que descansam no seu sono. Na cave guardam os troféus dos ingénuos que roubam.

Sentada na mesa, com a minha família, em esforço concentro-me na refeição e tento por tudo esquece-los, quero sacudir estas ideias, tenho medo que o enxofre me tolde a visão.

A Vanda e o marido vêm fazer a ronda habitual pelas mesas, de sorrisos bem marcados, perguntam pelo bem-estar dos convidados. Sei que ela tenta conter o habitual exibicionismo, mas está no sangue dela, explodir em alegria, ofendendo os invejosos que se sentem em desvantagem. Há muito que não acredito na ingenuidade das suas intenções, muita gente sente-se grande vendo os outros pequenos, precisam inclusive de usar bengalas.
O que ela gostava era de começar a atirar as tartes e o bolo de noiva à cara das solteironas e dançar em êxtase a dança tribal da glória. Em criança ela já fez isso de outras formas, pode-se sempre dizer que as pessoas melhoram com a idade, existem infelizmente muitas formas de encobrir a rachadura. O pequeno pormenor esconde um impulso que se transforme em espasmo, ela empurra-nos, pisa-nos, cospe-nos e no fim faz-nos chafurdar na lama, com as unhas afiados rasga a carne em tortura continua até admitirmos que ela é a maior, a melhor.

Quase que tremia no que pensava, queria esconder-me, fugir. Sentia que estava completamente fora de controle, fui abrigar-me na casa de banho tentando fugir desse furacão masoquista. Sentia que mal começava a olhar para alguém, avistava qualquer defeito, que subitamente alastrava e ficava um gigantesco buraco negro, estava a ultrapassar todos os limites aceitáveis.

:::

Sem comentários: