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Posso eu aguentar isto? Cada vez é mais difícil e eu bem tento. Não tenho espaço que possa ser meu, tudo é ocupado, público, de todos. No cortiço nojento que é a minha casa, não basta os familiares numerosos ainda tenho que aguentar com os convidados e os coscuvilheiros. Quando regresso da escola logo uma das inúmeras pestinhas que infestam a casa me abre a porta, mesquinhez não falta naquelas criaturas. Penduro o casaco no bengaleiro do Hall de entrada, de nada serve espantar a miudagem, vão revistar os bolsos na esperança de encontrar alguma coisa, isto senão tirarem o casaco do sitio e o sujarem. Mesmo cabisbaixo sou admoestado pelos familiares mais velhos que perguntam logo pelo meu ar, questionam a barba mal feita e o porquê da fralda da camisa fora das calças.
Porque me dou ao trabalho de fechar a porta do meu quarto? As paredes degradadas estão cheias de rachas, mesmo a partir do tecto existe uma abertura que os vizinhos de cima podem espreitar quando lhes convir. Quando mudo de roupa tenho que ouvir os comentários parvos da minha prima a respeito de ter pernas muitos peludas. Ouço risadas incontidas a respeito das minhas cuecas e criticas veladas ao facto de ser lento a vestir o pijama. O meu pai não hesita em referir que sempre me chamaram caracol desde os tempos da mais tenra infância. Surge logo um tema de conversa e uma risota pegada, atrás da rachas na parede fica a sala de jantar sempre cheia de familiares e convidados. Todos podem alegremente espiolhar pelo buraco e roubar-me a réstia de dignidade de uma privacidade que não me é consentida.
Todas as fortuitas tentativas de isolar-me resultam na desconfiança dos outros e despertam ainda mais curiosidade. Nesta casa tudo é publico, alguém faz algum disparate, deixando cair um copo ao chão, antes que a noticia seja espalhada, corre a contar a novidade em altos berros, lamentando-se da má sorte. Qualquer acontecimento é empolado, todos mascam a sua parte e rapidamente percebem que o melhor é seguir a carneirada.
Tento estudar mas é complicado, sentado ao pé da secretária tenho que escutar os apontamentos da minha avó que refere que estou cada vez marreco. A minha madrinha diz que estudo em demasia, o meu cérebro vai acabar por fritar. O meu tio não se contém e dispara que eu tenho que levantar mais a cabeça e não me posso inclinar tanto para baixo. Ralham o meu nome e instigam conselhos que mais se parecem com ordens.
O meu silêncio irrita-os e as ofensas não tardam. Uma boca calada é uma boca não controlada. Nem na janela do meu quarto me largam, surgem miúdos da rua aos magotes, adoram subir os prédios e espreitar nas casas alheias. Não se inibem que me fazer caretas e alguns até cospem para o vidro. Andam em grupo, como salteadores, são vadios que os pais não cuidam.
A Liliana adora irritar-me, faz tudo para que eu reaja. A minha sobrinha fica embriagada quando me tem à sua mercê. Os outros riem-se, pois acham o castigo merecido, nada lhes tira a ideia que sou um pretensioso que se acha melhor que os outros. Acho que gostam de me arreliar, se começo a bufar e a fazer cara de mau tentando afastar a intrusão, ficam mais satisfeitos, é um sinal que vou comunicar brevemente.
Vou sair de casa e tentar estudar no jardim, a minha fuga não passa incumbe e logo sou carimbado como sociopata fujão que não convive e partilha a sua intimidade com os outros.
As escadas do meu prédio estão cheias de vadios que perderam tudo e procuram abrigo. Mal consigo andar na rua completamente apertada de gente, respirar é insuportável. O jardim está cheio de populaça, o ruído é ensurdecedor, as crianças inundam tudo, o banzé que fazem é horrível. As pessoas parecem cogumelos, esta cidade está super-povoada desde há anos, parecemos sardinhas em lata.
Coloco os tampões nos ouvidos e tenta passar o mais despercebido possível. Mesmo sentado no recanto mais isolado, tenho vizinhos, apenas me resta esperar que sejam discretos e que eu os esqueça.
Estou cada vez mais doente, sofro de claustrofobia humana, olho à volta e sou apertado num cubículo, impossibilitado de ser individuo.
- UHHH!!!! O que é que estás a pensar??? Ahhhh!!!
A parva da Liliana voltou a seguir-me, tenta roubar-me os cadernos e puxar-me o cabelo. Veio acompanhada com as outras pestinhas que salivam sempre que podem atasanar-me, rodeiam-me em circulo e tentam distrair-me. Onde quer que vá, sou sempre perseguido, tenho que começar a mudar de roteiro, estou a ficar previsível.
Andar nos transportes públicos é horrível, estão sempre cheios, carregadas de carcaças humanas nos limites. Vou a pé apertado nas ruas atulhadas, começo a recordar histórias antigas, castrações passadas.
Horror, imaginar quando tenho que tomar banho e a miudagem espreita nas frestas, ouço os risinhos parvos. Depois em ziguezague vão avisar os meus avós e entusiasmados relatam tudo o que vêm. A Liliana chegou a pegar numa régua e mediu o meu pénis, depois entre risinhos histéricos ia contar tudo. Sentia o desaforo a deslizar como uma onda, a troça era pegada. Depois tentavam arrancar pelos, por vezes espetar mesmo alfinetes, o importante era arreliar.
Quando estava a fazer amor com a Madalena, bem tentei arranjar o sitio mais isolado que consegui, mas a arrecadação do António não foi suficiente. A Liliana encarregou-se de espalhar a noticia e além da miudagem, também veio a minha família. Espreitavam pela janela, alguns até se esconderam debaixo da cama, muitos traziam máquinas fotográficas e câmaras de filmar. Era inútil fingir de não escutava os comentários, a minha mãe estava entusiasmada por saber que o seu filho ia deixar de ser virgem. A invejosa da minha tia já ia avançando que eu estava a fraquejar muito e que se calhar até era impotente. O meu primo estava deliciado a comentar as formas da Madalena e já a conspirar para poder roubar-ma.
Era muita pressão, não estava a conseguir concentrar-me. Claro que os incentivos para me despachar, com urros e gritos também não ajudavam lá muito. Acabamos por fingir um desenlace que realmente não aconteceu, só depois disso poderíamos despedir os espectadores não convidados. A Liliana ainda exigiu amostras dos fluidos, mas eu louco de raiva com um pontapé acertei-lhe no rosto e num acesso de raiva mordi-lhe a orelha e por pouco não a rasgava. De nada serviu o ar indignado da minha tia, ela percebeu o meu olhar homicida.
Eles não compreendem a minha indignação, só queriam apoiar-me, acontece o mesmo a toda a gente. Tudo é de todos, os pensamentos falam-se em voz alta, as emoções partilham-se e nas tristezas todos se entre ajudam. Porque sou um bicho do mato? Qual o motivo do meu isolamento?
Só sei que preciso do meu espaço e isso não deveria ser algo inacessível. Não sei para onde caminhamos, mas não tardará o tempo em que toda a gente ande nua na rua, pense sempre em voz alta, todos os objectos sejam colectivos e as decisões tomadas em conjunto. A diferença será cada vez menos tolerada, porque simplesmente deixarão de existir ilhas isoladas com canais comunicantes e passará tudo a ser a mesma península.
Como chegamos a esta degradação? Não é apenas a miséria, crise, super-população, havia um passado de individualidade que está a degenerar, sem isso jamais haverá liberdade.
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Porque me dou ao trabalho de fechar a porta do meu quarto? As paredes degradadas estão cheias de rachas, mesmo a partir do tecto existe uma abertura que os vizinhos de cima podem espreitar quando lhes convir. Quando mudo de roupa tenho que ouvir os comentários parvos da minha prima a respeito de ter pernas muitos peludas. Ouço risadas incontidas a respeito das minhas cuecas e criticas veladas ao facto de ser lento a vestir o pijama. O meu pai não hesita em referir que sempre me chamaram caracol desde os tempos da mais tenra infância. Surge logo um tema de conversa e uma risota pegada, atrás da rachas na parede fica a sala de jantar sempre cheia de familiares e convidados. Todos podem alegremente espiolhar pelo buraco e roubar-me a réstia de dignidade de uma privacidade que não me é consentida.
Todas as fortuitas tentativas de isolar-me resultam na desconfiança dos outros e despertam ainda mais curiosidade. Nesta casa tudo é publico, alguém faz algum disparate, deixando cair um copo ao chão, antes que a noticia seja espalhada, corre a contar a novidade em altos berros, lamentando-se da má sorte. Qualquer acontecimento é empolado, todos mascam a sua parte e rapidamente percebem que o melhor é seguir a carneirada.
Tento estudar mas é complicado, sentado ao pé da secretária tenho que escutar os apontamentos da minha avó que refere que estou cada vez marreco. A minha madrinha diz que estudo em demasia, o meu cérebro vai acabar por fritar. O meu tio não se contém e dispara que eu tenho que levantar mais a cabeça e não me posso inclinar tanto para baixo. Ralham o meu nome e instigam conselhos que mais se parecem com ordens.
O meu silêncio irrita-os e as ofensas não tardam. Uma boca calada é uma boca não controlada. Nem na janela do meu quarto me largam, surgem miúdos da rua aos magotes, adoram subir os prédios e espreitar nas casas alheias. Não se inibem que me fazer caretas e alguns até cospem para o vidro. Andam em grupo, como salteadores, são vadios que os pais não cuidam.
A Liliana adora irritar-me, faz tudo para que eu reaja. A minha sobrinha fica embriagada quando me tem à sua mercê. Os outros riem-se, pois acham o castigo merecido, nada lhes tira a ideia que sou um pretensioso que se acha melhor que os outros. Acho que gostam de me arreliar, se começo a bufar e a fazer cara de mau tentando afastar a intrusão, ficam mais satisfeitos, é um sinal que vou comunicar brevemente.
Vou sair de casa e tentar estudar no jardim, a minha fuga não passa incumbe e logo sou carimbado como sociopata fujão que não convive e partilha a sua intimidade com os outros.
As escadas do meu prédio estão cheias de vadios que perderam tudo e procuram abrigo. Mal consigo andar na rua completamente apertada de gente, respirar é insuportável. O jardim está cheio de populaça, o ruído é ensurdecedor, as crianças inundam tudo, o banzé que fazem é horrível. As pessoas parecem cogumelos, esta cidade está super-povoada desde há anos, parecemos sardinhas em lata.
Coloco os tampões nos ouvidos e tenta passar o mais despercebido possível. Mesmo sentado no recanto mais isolado, tenho vizinhos, apenas me resta esperar que sejam discretos e que eu os esqueça.
Estou cada vez mais doente, sofro de claustrofobia humana, olho à volta e sou apertado num cubículo, impossibilitado de ser individuo.
- UHHH!!!! O que é que estás a pensar??? Ahhhh!!!
A parva da Liliana voltou a seguir-me, tenta roubar-me os cadernos e puxar-me o cabelo. Veio acompanhada com as outras pestinhas que salivam sempre que podem atasanar-me, rodeiam-me em circulo e tentam distrair-me. Onde quer que vá, sou sempre perseguido, tenho que começar a mudar de roteiro, estou a ficar previsível.
Andar nos transportes públicos é horrível, estão sempre cheios, carregadas de carcaças humanas nos limites. Vou a pé apertado nas ruas atulhadas, começo a recordar histórias antigas, castrações passadas.
Horror, imaginar quando tenho que tomar banho e a miudagem espreita nas frestas, ouço os risinhos parvos. Depois em ziguezague vão avisar os meus avós e entusiasmados relatam tudo o que vêm. A Liliana chegou a pegar numa régua e mediu o meu pénis, depois entre risinhos histéricos ia contar tudo. Sentia o desaforo a deslizar como uma onda, a troça era pegada. Depois tentavam arrancar pelos, por vezes espetar mesmo alfinetes, o importante era arreliar.
Quando estava a fazer amor com a Madalena, bem tentei arranjar o sitio mais isolado que consegui, mas a arrecadação do António não foi suficiente. A Liliana encarregou-se de espalhar a noticia e além da miudagem, também veio a minha família. Espreitavam pela janela, alguns até se esconderam debaixo da cama, muitos traziam máquinas fotográficas e câmaras de filmar. Era inútil fingir de não escutava os comentários, a minha mãe estava entusiasmada por saber que o seu filho ia deixar de ser virgem. A invejosa da minha tia já ia avançando que eu estava a fraquejar muito e que se calhar até era impotente. O meu primo estava deliciado a comentar as formas da Madalena e já a conspirar para poder roubar-ma.
Era muita pressão, não estava a conseguir concentrar-me. Claro que os incentivos para me despachar, com urros e gritos também não ajudavam lá muito. Acabamos por fingir um desenlace que realmente não aconteceu, só depois disso poderíamos despedir os espectadores não convidados. A Liliana ainda exigiu amostras dos fluidos, mas eu louco de raiva com um pontapé acertei-lhe no rosto e num acesso de raiva mordi-lhe a orelha e por pouco não a rasgava. De nada serviu o ar indignado da minha tia, ela percebeu o meu olhar homicida.
Eles não compreendem a minha indignação, só queriam apoiar-me, acontece o mesmo a toda a gente. Tudo é de todos, os pensamentos falam-se em voz alta, as emoções partilham-se e nas tristezas todos se entre ajudam. Porque sou um bicho do mato? Qual o motivo do meu isolamento?
Só sei que preciso do meu espaço e isso não deveria ser algo inacessível. Não sei para onde caminhamos, mas não tardará o tempo em que toda a gente ande nua na rua, pense sempre em voz alta, todos os objectos sejam colectivos e as decisões tomadas em conjunto. A diferença será cada vez menos tolerada, porque simplesmente deixarão de existir ilhas isoladas com canais comunicantes e passará tudo a ser a mesma península.
Como chegamos a esta degradação? Não é apenas a miséria, crise, super-população, havia um passado de individualidade que está a degenerar, sem isso jamais haverá liberdade.
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