Dia perfeito
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A ignorância pode mesmo ser uma bênção, pois existem factos que crus não se limitam a ser desgostosos, são mesmo horrorosos.
João Rebalo provavelmente ao chegar ao fim do dia, achará que este foi corriqueiro e usual sem que tivesse acontecido algum acontecimento por aí além. Seja distracção ou ingenuidade, muita coisa aconteceu e não se pode dizer que tenha sido "cousa" bonita.
Depois de tomar o pequeno almoço e ter ficado a trabalhar ainda um bom bocado em casa, ele resolve ir tomar um café e sai à rua. O empregado que está ao balcão está furioso, é já a terceira semana que não tem folga, sabe que se barafustar com patrão vai para o olho da rua. Só lhe resta aguentar a frustração, tem contas para pagar e uma familia para sustentar, para restabelecer o equilíbrio resolve vingar-se de forma traiçoeira e encoberta nos clientes. Encheu uma pequena garrafa de plástico com urina que está por baixo do balcão, sempre que alguém pede um café, pega na chávena e coloca uma pequena quantidade de saboroso "mijo" na mistura. A mistela fica bem dissimulada, não se nota nada e se calhar até sabe melhor, pelo menos o empregado fica sorridente o resto do dia com a sua brincadeira. Mesmo de castigo a trabalhar, riposta contra as contrariedades, pode ser escravo do seu destino, mas na calada subverte a ordem, na maior das impunidades.
Escusado será dizer que o João entrou na brincadeira e lá provou deliciado a bela "prendinha", para cúmulo e como precisava de mais cafeína para ficar mais activo, pediu um segundo café, repetindo o fabuloso pitéu.
Torna-se necessário ir ao supermercado, comprar alguns mantimentos, depois de fazer as suas escolhas, coloca-se na fila para a caixa. A operadora de caixa que o atende é meticulosa, com uma capacidade incrível de raciocínio para fazer contas. Quando o vê, esboça um sorriso aberto, ele corresponde satisfeito, ela já o conhece bem , é o pateta distraído, vitima perfeita para uma pequena rapinagem. Para azar dele, não tem dinheiro trocado e paga com uma nota de 25 euros, sendo que também não lhe ocorreu pagar com multibanco.
Na entrega do troco, a operadora subtrai 2 euros, um dos seus maiores roubos, habitualmente o João raramente confirma o dinheiro do troco, mas o facto de ter recebido muitas moedas e existiram clientes atrás da fila não ajuda muito o processo. A operadora está bem contente, bateu mais um recorde, apareçam mais trouxas como aquele e ela brevemente irá encher a caixa com o dinheiro para as férias.
Na saída do supermercado está uma família de pedintes ciganos romenos, estão sentados no chão, a mãe, pai e a filha, lá imploram pela esmolinha, de nada lhes serve o João contorna-os e segue em frente. No entanto a miudinha que estava mesmo encostada na porta aproveita e desforra-se, os que não contribuem levam um bocado de pastilha elástica presa nas calças. Faz o processo com tal destreza que nunca ninguém nota, numa sincronia perfeita, quando a vitima está de costas, ataca. Os pais ajudam-na, pois costumam meter-se no meio do caminho e interpelar de forma agressiva os transeuntes, o que obriga a que eles tenham que abrandar e parar por algum tempo.
No caminho para a casa encontra um conhecido que é seu vizinho, trocam algumas impressões e seguem caminho. O conhecido é um perverso, adora ser falso e dissimulado, enquanto conversam tem uma das mão no bolso, mal imagina o João que através dessa mão, ele está a mandá-lo para um certo sitio. Mesmo depois de virarem costas, num movimento rápido com mão, ele faz o gesto onde com os dedos simula uns belos "cornos" e de forma ultrajante consegue movimentar-se rapidamente levantando o braço e pairar a mão por cima da cabeça dele.
Todo satisfeito com essa vitória, o perverso segue o seu caminho animado pelos seus pensamentos. " Cabrão deste fodas! Parto a cuca toda com jabardos panilas destes! Gosto de gozar com a fuça deles e espetar-lhes a merda mesmo nos olhos. Ahh! Ahh!!"
De regresso a casa, na mais tranquila ignorância, prepara-se para trabalhar, quando o telefone fixo toca. É a Madalena, irmã dele, trocam os típicos salamaleques, ela tenta resguardar-se e não revelar as suas reais intenções. Precisa de alguém para a ajudar a pintar a casa de férias, assegura-lhe que outras pessoas também vão prestar o seu auxilio. O generoso João compromete-se então numa determinada data, a ir ajudar, longe de imaginar a tramóia que está a ser engendrada. Na verdade não vai aparecer ninguém, ela própria arranjará uma desculpa estratégica na hora certa que a vai catapultar para outro local e o azar é dele que vai ter que arcar com a obra toda, logo ele que detesta pintar.
Por enquanto não se antevê a tempestade, mas ela chegará, nem a família o salva dos infortúnios.
Sentado na secretária, tem que ler vários relatórios, está relativamente descontraído e não parece estar a encontrar nenhuma falha em particular. A memória descritiva que ele irá escrever não deve ser muito diferente das habituais que costuma fazer, poderá inclusive usar um modelo pré-formatado para facilitar o trabalho. Boa notícia, aparentemente; quando daqui a um mês o chefe de secção regressar das férias no Brasil e perceber que existem diversos erros que não foram assinalados na memória descritiva, a porca vai torcer o rabo. João Rebalo vai amaldiçoar aquele dia em que estava literalmente nas nuvens, que lhe custou uma punição exemplar e provavelmente o fim da possibilidade de ascender na carreira.
Já há algum tempo que expirou o período para ser paga a conta da electricidade, mas hoje era precisamente o último dia do intervalo de tempo que ainda havia a possibilidade de esta ser paga. Tendo em conta que se avizinha um fim de semana prolongado com "pontes" e greves à mistura, quando acordar amanhã e sentir a falta da electricidade, não será esse o maior aborrecimento com que terá que lidar. Pior será tentar regularizar a situação, tendo em conta que os serviços não estarão a funcionar muito bem.
No fim do dia, João Rebalo vai achar que o dia que passou, foi um entre muitos e as coisas até correram bem. Pacifico sem problemas, sem grandes esforços, todos os dias fossem assim.... sem confusões, conflitos, traições, embustes...
Por vezes são necessários estes dias de uma calma perfeita sem grandes ondas para nos podermos reequilibrar. Agora na cama, ele vai dormir o seu sono merecido e amanhã depois de um bom repouso, um novo dia poderá começar.